Bamidbar - No deserto, segundo ano
Há um ano aproximadamente escrevi para a CIP o comentário para a parashá Bamidbar, que abre os estudos do quarto livro da Torá. Um ano depois, reencontro o texto, enviado pela querida amiga Angelina ao grupo de estudos de Torá, que ocorre todas as segundas feiras na mesma CIP. Interessante reler um texto e verificar se ainda está atual ou não. A meu ver poderia ter sido escrito semana passada.
Na época, maio de 2008, eu estava no primeiro ano dos meus estudos rabínicos na Argentina, acabara de visitar a Polônia e ali, Auschwitz, Majdanek, Varsóvia, Cracóvia e tantos outros lugares. Eu também havia recém retornado de Israel - como parte da inesquecível "Marcha da Vida" - para onde retornaria 6 meses depois, para, digamos, o meu segundo ano no deserto (no melhor sentido), como diz a leitura da Torá desta semana.
Neste ano, maio de 2009, a leitura do texto ganha novas cores: cores duras, pesadas, vindas do crescimento do antisemitismo no mundo inteiro, da recusa de um hotel austríaco em receber judeus por medo de represálias, pela capa de uma das mais importantes revistas brasileiras estampando o crescimento de grupelhos neonazistas no Brasil, sendo um de seus líderes um megalomaníaco no pior estilo Pink e Cérebro; com o ministro Amorim defendendo um egípcio para a presidência da UNESCO, um homem que diz que não existe cultura judaica, que tudo é roubado dos outros, que queimaria livros judaicos da biblioteca de Alexandria, se os encontrasse.
Agora 2009, coincidentemente, coube a mim outra vez escrever o comentário para Bamidbar. É, parece que ainda tenho uma longa caminhada pelo deserto.
Aí vai o texto do ano passado, que envio como um abraço de conforto para um querido casal de amigos. "Para cada um e uma há um nome que lhe foi dado por Deus."
Gus e Denise receberam dois anjos de Deus, que logo vieram e na sua hora partiram. A lembrança de seus nomes será sempre um bênção.
uma boa semana a todos e que possamos falar principalmente de coisas boas.
Bamidbar
“Lechol ish iesh shem shenatán lo Elohim — Para toda pessoa há um nome que lhe foi dado por Deus”. Assim começa o poema de Zelda Mishkovsky (1914-1984), judia nascida na Ucrânia que imigrou para Israel em 1926. Nenhum de nós naturalmente teve a possibilidade de escolher o seu nome original. Este foi escolhido por nossos pais, com as bênçãos de Deus. A escolha não foi aleatória, mas marcada pela nossa história, pelo lugar onde viveram e morreram nossos antepassados, pelas circunstâncias em que nossas famílias viviam quando viemos ao mundo. Nossos nomes carregam não apenas a potencialidade das nossas vidas e dos nossos descendentes, mas a realização das vidas passadas das nossas famílias e do nosso povo.
Os nazistas tinham consciência de que, para exterminar um povo, era necessário exterminar também a sua memória, os seus nomes. Era preciso calar, apagar, fazer de conta que nunca existiram. Nomes seriam desfeitos em números, números se tornariam cinzas.
Mas Deus, Hashem, O Nome, sempre fez questão dos nomes. O povo de Israel jamais foi um aglomerado de gente. Nunca fomos contados somente como números por Deus nem por nossos pais. Cada nome representa uma vida a realizar e muitas vidas já vividas, e a vida é o que temos de mais sagrado.
No início da parashá desta semana lemos que, no segundo ano desde a saída do Egito, quando o êxodo estava consolidado, Deus encontrou-se com Moisés em um lugar sagrado, o ohel moêd, a tenda da reunião, e ali falou a ele para que conhecesse, um por um, família por família, nome por nome, todos os filhos de Israel. “Estes são os que foram chamados da congregação, líderes das tribos de seus antepassados; são os chefes dos milhares de Israel. Moisés e Aarão tomaram a estes homens que foram declarados por nomes...” (Números 1:17).
Quando milhares de judeus visitaram, há poucas semanas, campos de extermínio e valas comuns no meio de bosques sombrios da Polônia, o que, a meu ver, mais emocionou não foi a crueldade inominável dos carrascos nazistas. O que comoveu foi escutar os nomes das crianças, ver fotos de famílias inteiras e de grupos de jovens que se reuniam nos shteiteles, conhecer a história dos combatentes dos guetos. Nomes, rostos, casas e sinagogas não foram apagados. Não morreram seis milhões nos campos: morreram Sarales, Rivkes, Moishales e Michales. Não eram apenas judeus; eram filhos de Israel, cada um com o nome presenteado por seus pais, com uma vida que Deus lhe concedeu. Cada vida se eterniza em seu nome.
A parashá desta semana parte do momento em que o sofrimento do Egito foi deixado para trás. Então os filhos de Israel foram nomeados para compor um exército e enfrentar os desafios que teriam que enfrentar no deserto. Isso ocorreu no segundo ano, não no primeiro, da saída do Egito. Do mesmo modo, poderia se dizer que a reconstrução do Estado Judeu, há 60 anos, não começou exatamente no dia 14 de maio de 1948, mas em 1949, no início do segundo ano após a independência, depois que vencemos de fato a Guerra da Independência e consolidamos a existência de Medinat Israel. De lá para cá, mais de 22 mil soldados israelenses morreram em combate. Nenhum nome foi esquecido.
A preservação do povo de Israel é garantida pelos nomes que recebemos. Na longa travessia que ainda temos pela frente, ninguém pode ser deixado para trás.
Uri Lam (maio de 2008)
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