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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O Livro de Abrahão

by Grzybowski & Goldman
Parashat Lech Lechá (Gênesis)

Por me debruçar tantas e tantas vezes sobre os midrashim – textos rabínicos que, por assim dizer, complementam e comentam, subvertem o texto da Torá e o viram de ponta cabeça, buscando significados extras nas meias palavras e somando histórias e diálogos entre as “falhas de continuidade” – já não posso mais imaginar a Torá sem a leitura fértil desses brilhantes comentaristas que proliferam desde os tempos talmúdicos até os dias atuais. Eles e elas vão tão longe que levam o sentido do texto aos limites da criatividade: se assim como está escrito no Gênesis, no início Deus criou os céus e a terra, os “midrasheiros e midrasheiras” do nosso povo interpretam desde os grãos de areia à beira do mar até as estrelas no céu.
O filósofo Yeshayahu Leibowitz (1903-1994) também adorava midrashim. Em um de seus comentários, Leibowitz traz um midrash que busca justificar o papel central de Abrahão no primeiro livro da Torá através de um interessante jogo de palavras:

אֵלֶּה תוֹלְדוֹת הַשָּׁמַיִם וְהָאָרֶץ בְּהִבָּרְאָם.

“Eis as origens dos céus e da terra behibarám (ao serem criados)…” (Gênesis 2:4)
Os rabinos dos tempos talmúdicos se deram conta de que a palavra hibarám continha as mesmas letras do nome do primeiro patriarca: é só trocar a primeira letra hebraica, He, pela penúltima, Alef – e temos Avraham. Conclusão? Podemos ler este versículo da seguinte forma: “Eis as origens dos céus e da terra para Avraham”.

Por esse ponto de vista, a criação do universo e das primeiras 29 gerações da humanidade foram tão somente a pré-história, a preparação necessária para o surgimento do primeiro ser humano consciente da existência de um Deus único: Abrahão. Uma visão um tanto “Abrahãocêntrica”, não é? De qualquer modo, para Leibowitz, o livro de Gênesis tem na figura do primeiro patriarca de Israel o pivô da história, o que justifica denominar o Gênesis de “O Livro de Abrahão”. De fato, a história do povo judeu começa com Abrahão e Sara. Somos bnei Avraham, descendentes de Abrahão.

Leibowitz continua: “Nosso patriarca Abrahão não viveu no mesmo mundo pré-histórico de intervenção divina continuada, que modificava as leis da natureza, mas sim no mundo pós-dilúvio, que é um mundo que se conduz por si mesmo; e num mundo assim é preciso que o indivíduo conheça Deus por seu próprio esforço… a posição do ser humano diante de Deus não é iniciada por Deus, mas sim pelo ser humano”.

A partir de Abrahão e Sara inaugura-se o período no qual o ser humano deve descobrir Deus através do seu intelecto, da sua capacidade de sentir e de suas ações. Ao receber a ordem “Lech Lechá”, “Vá para si mesmo” (Gênesis 12:1), aos 75 anos Abrão parte em uma viagem arriscada para uma terra que não conhece: uma viagem de crescimento pessoal. Ele parte rumo ao desconhecido e terá que aprender que, muitas vezes na vida, aprende-se a caminhar caminhando: Abrahão terá que se arriscar – às vezes irá acertar e outras vezes, errar. Bem vindo à vida!

A responsabilidade aumenta na medida em que Abrão (ainda sem h) não seguirá sozinho: ao seu lado estão a esposa Sarai, o sobrinho Lot – e todas as “almas que fizeram em Haran” (idem 12:5). O midrash nos conta que estas “almas” eram gente politeísta, isso é, que dirigiam suas práticas religiosas aos astros; mas que foram convertidas por Abrão à nova crença monoteísta: Abrão convertia os homens e Sarai convertia as mulheres. Muito diferente do que imaginamos hoje em dia, o povo de Israel tem na sua origem a prática de converter pessoas à sua crença em um Deus único. Foi com essa gente que Abrão chegou a Canaã.

Logo no início do caminho vem um duplo desafio: por conta da fome em Canaã, foi preciso descer ao Egito. Parte do desafio recai não sobre Abrão, mas sobre todos nós – vejamos: o patriarca pede à sua esposa, Sarai que, ao ser abordada pelos egípcios, apresente-se como sua irmã, porque sendo ela uma mulher muito formosa, os egípcios poderiam matá-lo para a entregarem ao Faraó por mulher.

Qual é o nosso desafio? imaginar como Sarai, então com 65 anos, poderia ser considerada uma mulher jovem e atraente para o Faraó. Isso será possível somente se tivermos a liberdade de imaginar que: (1) Abrão e Sarai estavam muito bem conservados para a idade; ou (2) a idade bíblica não corresponde exatamente à idade tal como contamos hoje em dia.

Já o desafio de Abrão é adotar a decisão mais acertada diante das circunstâncias. Como saber? Alguns sábios da Idade Média dirão que Abrão errou ao pedir que sua esposa se apresentasse aos egípcios como sua irmã: foi um sinal de fraqueza, pois não confiou que Deus poderia defendê-lo de uma provável agressão dos egípcios (só mais adiante Abrahão irá até o fim numa situação de perigo mortal, quando chega às vias de fato para sacrificar o próprio filho, Isaac, mas é impedido por um anjo). No final das contas, Abrão acaba se saindo bem: o Faraó é punido por Deus por tentar algo com Sarai, entrega-a de volta para Abrão e os manda embora do Egito, carregados de gado, prata e ouro.

O segundo desafio de Abrão foi saber lidar com o sobrinho Lot, que por sua vez também encontrou o seu modo de acumular ovelhas, vacas, tendas e pastores… Desde aqueles tempos, pode-se dizer que muita riqueza nem sempre traz felicidade; pode também trazer muitos problemas. Abrão opta pelo caminho da paz – separa-se de Lot; vai cada um para o seu lado. Desta vez parece que a decisão foi acertada: só depois de se separarem, Deus o abençoou e à sua descendência: “A terra que você vê, eu a darei para você e para seus descendentes para sempre. Farei a sua descendência como o pó da terra…” (Gênesis 13:15-16)

O povo de Israel nunca foi dos mais numerosos. Hoje em dia somos uma parcela quase insignificante da população mundial: cerca de 14 milhões num mundo de 7 bilhões. Se somos como o pó da terra, comparados à humanidade somos como um punhado de areia. Tenho dois grandes amigos, Grzybowsky e Goldman, que interpretaram esta passagem com muita sensibilidade e poder de síntese em seu livro em quadrinhos “Bíblia Versão Não Autorizada”. Nele há um quadro no qual Abrahão aparece mirando o céu, coberto de estrelas de seis pontas, cruzes e estrelas-e-luas – símbolos respectivamente do judaísmo, cristianismo e islamismo. Abrão aparece pensando, num canto: “Que meus filhos nunca esqueçam que são irmãos”.

Outros desafios estavam à espera de Abrão: guerras e mais guerras; seu sobrinho Lot é sequestrado e Abrão o resgata. Mais adiante, no horário do crepúsculo, Abrão caiu em sono profundo no qual escutou Deus dizer o que iria acontecer com seu povo no futuro: eles iriam para uma terra estranha onde seriam escravos por 400 anos, mas Deus julgaria a nação opressora e faria com que saíssem de lá com grande riqueza – um resumo do período de escravidão, libertação e êxodo do povo de Israel no Egito desde os tempos de José (bisneto de Abrahão) até a época de Moisés: em outras palavras, temos aqui a síntese do que viria a ocorrer na Torá até o início do Êxodo. Quando já era noite, Deus estabeleceu uma aliança com Abrão, prometendo à sua descendência um território enorme, muito maior do que o do Estado de Israel hoje: do rio Nilo (Egito) ao rio Eufrates (nos atuais Iraque, Turquia e Síria). Há quem sonhe até hoje com a “Grande Israel” bíblica.

Se na vida pública, por assim dizer, a vida de Abrão não era fácil, na vida pessoal as coisas não eram mais simples. Depois de dez anos em Canaã, Sarai não engravidava. Na esperança de ter filhos, Sarai entregou sua serva, a egípcia Hagar (segundo o midrash, uma princesa entregue a Abrão como serva, parte da riqueza acumulada no Egito) ao marido. Não demorou muito e Hagar engravidou, o que gerou muita raiva em Sarai, por se sentir desprezada pelo marido. Maltratada por sua senhora, Hagar partiu para o deserto, onde teve seu filho, que recebeu de Abrão o nome de Ismael.

Foi somente treze anos depois que Deus voltou a falar com Abrão, mudou seu nome para Abrahão e o de Sarai para Sara, prometeu-lhes um filho e estabeleceu com eles uma nova aliança (brit) marcada pela circuncisão (milá) dos homens. Depois de passar por tantos desafios, Abrahão riu-se do que parecia sobrenatural e pensou: “Sendo eu da idade de cem anos, nascerá um filho? Sendo Sara da idade de 90 anos, dará à luz?” Deus confirmou: “Sara, sua mulher, dará à luz um filho e você o chamará de Isaac; estabelecerei Minha aliança com ele – uma aliança eterna – e com a sua descendência depois dele.” (Gênesis 17:17-19) No mesmo dia, Abrahão e Ismael foram circuncidados, assim como todos os homens da sua casa e os estrangeiros que viviam com eles.
Abrahão viveu 25 anos intensamente, entre os 75 e os 100 anos de idade. Se dividíssemos as idades de Abrahão e Sara pela metade, talvez a história soasse mais verossímil à lógica dos nossos tempos: ao descerem para o Egito, Sarai seria uma bela mulher no auge dos seus 32 ou 33 anos, chamando a atenção dos egípcios e colocando a vida de Abrão em risco; e seria difícil, mas não impossível, ela engravidar aos 45 anos. Talvez, dada a intensidade da vida do primeiro casal hebreu, cada ano tenha sido vivido como se fossem dois!

Numa leitura psicológica, podemos ver o tempo de modo subjetivo: “Vá para si mesmo”, o tempo de amadurecimento existencial, não deve ser contado em anos objetivos. Cada indivíduo determina o próprio tempo de desenvolvimento existencial, independente da sua idade física. E ao que parece, aos 100 anos e aos 90 anos respectivamente, Abrahão e Sara estavam na flor da idade, prontos para encarar novos desafios, prestes a iniciar a vida em família. Um novo ciclo os espera.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia


sexta-feira, 30 de setembro de 2011

ROSH HASHANÁ - 2a manhã, 2 de Tishrê 5772 / 30 de setembro de 2011
Congregação Israelita Paulista (CIP)
Prédica/Drashá: Uri Lam
MÃO FORTE E BRAÇO ESTENDIDO
Todo dia importante, que gera grandes expectativas, que podem levar a grandes vitórias ou a grandes frustrações, a grandes alegrias ou a grandes tristezas, todo dia com o potencial de servir como divisor de águas em nossas vidas, parece ser mais longo que os outros dias. Rosh Hashaná tem todas estas características. É Iom Hadin, o Dia do Julgamento. Sempre que somos expostos a julgamento, a críticas, parece que os minutos não passam.
Rosh Hashaná, o Dia do Julgamento, não ocorre num tribunal comum. Diante de nós, como se estivesse numa bimá celestial, está Deus. E aqui na Terra, estamos nós. Alguns de nós pode pensar: como Deus pode nos avaliar, estando Ele lá, e nós aqui? No dia 12 de abril de 1961, há 50 anos, a bordo da nave Vostok 1, o cosmonauta Iuri Gagarin, primeiro cosmonauta a viajar pelo espaço, a dar uma volta completa em órbita ao redor do planeta, afirmou lá de cima: “A Terra é azul”. Se a visão de Deus for parecida com a de Iuri Gagarin, como Ele pode nos julgar, se tudo o que Ele vê é que a Terra é azul?
Por outro lado, conta-nos o Midrash Devarim Rabá, que embora Deus tenha colocado os céus nos céus e a terra na terra, veio o homem e, por obra de suas mãos, colocou tudo de cabeça para baixo.
Deus, que estava no céu, desceu para a terra, até o Monte Sinai. Por sua vez, Moisés, que estava na terra, subiu aos céus, até o Monte Sinai. Impossível não nos lembrarmos do afresco de Michelângelo, em que a “mão” de Deus quase toca a mão do Homem. Quase, mas não toca.
Nunca, jamais imaginamos Deus a segurar a Torá e a entregá-la para Moisés “em mãos”. A Mishná, no tratado Avot, com os ditos dos nossos antepassados, diz que Moisés recebeu a Torá no Sinai e a transmitiu para os demais líderes numa corrente intermitente. Al Pi Adonai, beiad Moshé – pela boca de Deus, pelas mãos de Moisés. Esta corrente de transmissão chegou até nós, hoje, início de 5772. Pelas mãos de Deus? Não! Pelos ditos de Deus, mas a obrigação de transmitir a Torá é, e deve ser, feita pelas nossas próprias mãos, pelos nossos próprios atos. Uma das principais mensagens contidas, na transmissão da Torá por Moisés, até chegar a nós é: hevú metunim badin – sejam moderados no julgamento. Bom saber. Afinal, hoje é Iom Hadin, o Dia do Julgamento.
Lemos na Torá, e também na Hagadá de Pessach, e nas nossas rezas diárias no sidur, e também em nossos machzorim de Rosh Hashaná e Iom Kipur, que Deus nos retirou do Egito beiad chazacá uvizeroá netuiá, com mão forte e braço estendido. Esta foi a frase que ecoou nos meus ouvidos nos últimos dias, e que inspirou as palavras desta manhã: Mão forte e braço estendido. O Êxodo do Egito nos remete a Pessach ─ mas este mesmo êxodo é lembrado também em Rosh Hashaná. Avinu, Malkenu, nosso Deus bondoso como um pai, e nosso Deus firme como um rei, nos tirou do Egito, com mão forte e braço estendido. A imagem da mão forte é clara: a mão poderosa de um rei. E o braço estendido? Lembro-me dos desenhos de hagadot de Pessach antigas, com um looongo braço de Deus.
Mas hoje, Rosh Hashaná, quero propor a vocês outra imagem deste looongo braço: um braço acolhedor, um braço de abraço. Enquanto Deus, nosso Rei, atua com mão forte, o mesmo Deus, nosso Pai, nos abraça e nos acolhe com o braço estendido.
Quando lemos, nesta manhã de Rosh Hashaná, que Deus ordena a Avraham Avinu para levar o seu filho Itschac, que tanto ama, para ser sacrificado, se nos colocamos no lugar de Abrahão e de Sara, podemos sentir a mão forte de Deus a esmagar o nosso pescoço, a ponto de não termos ar nem para responder um “sim”, nem um “por que, Deus?”. Por que amarrar e sacrificar o próprio filho???
Neste Iom Hadin alguns de nós podemos pensar se no ano que passou agimos como Abrahão, que se calou diante da ordem Divina de sacrificar o próprio filho. Até que ponto sacrificamos nossos filhos, nossos pais, nossos irmãos, nossos amigos, nossos funcionários, nossos colegas? Até que ponto nos calamos? Até que ponto? Até que ponto, depois de criá-los, festejá-los, alimentá-los, cuidarmos deles, rirmos junto com eles, estimulá-los, até que ponto depois nós os amarramos aos nossos próprios valores e os sacrificamos? Até que ponto estamos à beira de sacrificarmos alguém neste ano que se inicia?
Deus ordenou que Abrahão amarrasse Isaac e o sacrificasse, mas foi o próprio Abrahão quem amarrou o próprio filho, com as próprias mãos. Alguns podem dizer: “Abrahão foi fiel a Deus! Abrahão demonstrou até onde pode ir, em nome de Deus!” Mas será isso o que Deus queria de Abrahão? Será que é isso o que Deus espera de nós, neste Dia de Julgamento? Que não importa o que Ele nos diga, que não interessa o que Ele nos ordene, o importante é que façamos valer a palavra de Deus? Nem que seja matar o próprio filho?
Nós nos acostumamos a destacar, na história do sacrifício de Isaac, o fato de, no último segundo, um anjo ter impedido a mão de Abrahão de matar o próprio filho. Este teria sido o divisor de águas entre o recém-nascido povo de Israel e os demais povos da região, acostumados a sacrifícios humanos. Nós não fazemos sacrifícios humanos!!! Nós somos um povo ético! Nós não matamos à toa!!!
Quero propor hoje um outro foco, uma outra maneira de ver o sacrifício de Isaac. Vamos nos lembrar da cena: Abrahão e Isaac chegaram ao lugar que Deus ordenou que fosse feito o sacrifício. Abrahão ergueu ali um altar, preparou a lenha, amarrou seu próprio filho, com suas próprias mãos, e fez Isaac se deitar sobre o altar. Abrahão estendeu sua mão e pegou a faca para sacrificar o filho. Mão forte e braço estendido. A mão pronta para uma ação forte. O braço estendido para quê?
Neste Iom Hadin, de Rosh Hashaná, quando Deus, Nosso Pai e Nosso Rei, começa a fase final do nosso julgamento, lembramos que Ele usou a Sua mão forte para nos livrar do Faraó e da escravidão, e que nos abraçou com Seu braço estendido, como um pai e com uma mãe fazem com seus filhos.
A história de Isaac nos leva para um grande dilema: a quem estendermos o braço? Contra quem usarmos a mão forte? Um anjo de Deus aparece a Abrahão e lhe diz, lá do céu: “Abrahão, Abrahão!” E ele responde: “Hineni, estou aqui!”. O anjo está lá no céu. Abrahão está aqui, na terra. Os anjos estão tão próximos do homem que, às vezes, nos momentos críticos, podemos ouvi-los. Mas não tocá-los. E mais: eles não podem impedir nossas mãos. As obras de nossas mãos são nossa responsabilidade. Se vamos usar a nossa mão forte para nos defendermos ou para nos boicotarmos, para produzir obras de arte ou para puxar o gatilho, a decisão e o ato em si mesmo é só nosso. Mas os anjos podem falar e até gritar com a gente para pensarmos melhor antes de fazermos alguma bobagem. E na nossa história, o anjo gritou com Abrahão: “Não estenda o seu braço sobre o moço e não lhe faça nada; agora sei que você teme a Deus”. O anjo sabe, afinal, que Abrahão é temente a Deus e que faria qualquer coisa por Ele. Mas não é isso o que Deus espera de Abrahão!!!
Quanta gente, hoje em dia, faz qualquer coisa em nome de Deus? Quanta gente, hoje em dia, mata, chantageia, mente, engana, em nome de Deus? É isso o que Deus espera de nós?
O anjo impede Abrahão de sacrificar o próprio filho porque o braço estendido de um pai não serve para matar, porque o braço estendido de um pai e de uma mãe servem para abraçar!!! É como se Deus dissesse: Abrahão, eu sei que você é temente a Mim, afinal, eu sou o Seu Rei. Mas o que Eu espero de você é que você use a sua mão forte para se defender, e que você estenda o seu braço para abraçar o seu filho, não para amarrá-lo, e jamais para matá-lo! Abaixe a mão Abrahão!
Ser temente a Deus, ser religioso, acreditar em Deus é fácil. Mas é pouco. Não é isso o que Deus espera de nós. Deus espera de nós ações práticas, braços estendidos para acolher, para abraçar, para ensinar, para indicar o caminho para os nossos filhos, para os nossos amigos, para quem pudermos ajudar a seguir pelo caminho do bem. Usar somente de mão forte com nossos filhos pode significar amarrá-los aos nossos próprios valores e temores. Estender-lhes a mão e abrir espaço para que escolham seus próprios caminhos, ainda que não sejam os nossos, e abraça-los nos momentos de dificuldade, com um abraço estendido, gostoso e protetor ─ pode ser uma boa dica de o que Deus espera de nós para o ano 5772.
Shaná Tová
Uri Lam

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Parashá da semana: Ki Tetsê
Lembre-se de Amalec para não ser como ele – seja você gente com as outras pessoas
Uri Lam, para o folheto Congregar, da CIP 
“Quem sai na chuva é prá se molhar”. Muitas vezes repetimos o conhecido ditado para quem se expôs a uma situação que por sua vez levou a consequências indesejáveis. A vida lá fora é arriscada, mas para que a vida faça sentido é preciso ir à luta e se expor ao risco.
“Chove lá fora - e aqui faz tanto frio”. Na canção do compositor Lobão, apesar da chuva lá fora, deixar de sair e de enfrentar as dificuldades é ainda mais difícil: é frio e angustiante. E conforme a nossa parashá da semana, a opção de ficar dentro de si mesmo ou dentro de casa e não ir à luta não existe. A Torá não diz “se você sair à guerra” e sim “quando você sair à guerra”. Não adianta fazer de conta que as suas dificuldades não estão lá fora, nem imaginar que se ficar quietinho dentro de si mesmo, elas irão desaparecer como num passe de mágica. A questão da Torá é: quando você for sair para a guerra, como você deve agir?
Ki Tetsê nos expõe a 72 situações nada fáceis de lidar – 72 mitsvot, segundo Maimônides. Estamos no mês de Elul, o último do ano judaico. Estamos perto do prazo final para enfrentarmos nossos fantasmas antes de nos encontrarmos com Deus em Iom Kipur. São 72 oportunidades de cultivar diversas qualidades dentro de nós: clareza, equilíbrio, integridade, bondade, compaixão, generosidade, honestidade e justiça, amor por Deus e amor pelo ser humano.
É mais fácil exigir tudo isso de outras pessoas: puxa vida, ele podia ter sido mais paciente comigo; ela deveria ter sido mais generosa com aquele senhor; não é justo o que eles fizeram com aquela gente...
No entanto, o que a Torá discute esta semana é como você deve se portar quando você estiver “por cima”, quando você estiver em vantagem diante de uma pessoa em situação de fragilidade. “Quando você sair à guerra contra os seus inimigos...”. é de você que a Torá fala, não dos outros. Quando você estiver diante de outras pessoas em posição que lhe favorece, a tentação de se vingar, de dar uma lição ou de provocá-las é muito grande. Mas o que a ética judaica nos ordena é justamente o contrário: devemos aproveitar a nossa vantagem para fazer uma boa ação. Ao encontrar algo que claramente alguém perdeu, não fazer de conta que não viu, mas sim recolher e aguardar que o dono reclame o que é dele e devolver. Não cobrar juros de um empréstimo feito ao amigo em dificuldades. Não aplicar dois pesos e duas medidas para a mesma situação.
Quando você sair à luta, seja gente com quem encontrar pelo caminho e estiver passando dificuldades. Seja caloroso. Ser gente é o que Deus espera de você.

terça-feira, 16 de agosto de 2011


Parashá da Semana: Ékev
E agora Israel, o que o Eterno, teu Deus, espera de você?
Uri Lam - originalmente para o folheto "Congregar" da CIP

Há quem diga que “se” é uma palavra que não existe. Ou as coisas são de um jeito ou de outro. Se fosse... mas não é. O “se” constrói um universo paralelo no qual, se assim fosse, o mundo seria perfeito, as pessoas se respeitariam e se amariam e o único trabalho de Deus seria contemplar a Sua bela obra coletiva de criação. O perdão seria uma prática inexistente, pois não haveria o que perdoar. O Iom Kipur não existiria, pois não haveria transgressões pelas quais pagar nem erros a se reconhecer.
Se todos cumprissem as leis e estatutos divinos, metade do nosso vocabulário jamais teria existido. Viveríamos em um mundo em que somente o bem prevaleceria, sem a contraposição do mal. Não haveria guerras nem mal-entendidos. As pessoas não falariam mal das outras por trás, filhos e pais sempre se respeitariam, casais viveriam em harmonia e sem crises conjugais. Se apenas cumpríssemos todas aquelas leis...
Conta um midrash que no início, quando Deus entregou os Dez Mandamentos a Moisés e o povo de Israel afirmou “Naassê venishmá”, “Faremos e ouviremos”, Deus acreditou em nós. No entanto, não demorou muito para que o Todo Poderoso percebesse as dificuldades daquela gente insubordinável, nas palavras Dele mesmo. O Eterno então baixou as expectativas e passou a exigir somente que cumpríssemos pelo menos a segunda parte do acordo: “Ouviremos”.
E agora, Israel, o que o Eterno teu Deus espera de nós - agora que Ele sabe que somos incapazes de cumprir tudo o que prometemos? Deus parece esperar que sejamos capazes de pelo menos escutar o que Ele tem a dizer e tentar seguir por Seus caminhos, amar e respeitar as Suas criaturas e valores, “e servir ao Eterno de todo coração e com toda a alma” (Deut. 10:12). Diferente do que nos foi ordenado no Shemá – amar a Deus de todo coração, com toda a alma e com todas as forças – agora se pede para servirmos a Deus (não necessariamente amá-Lo) de todo coração e com toda a alma, mas não com todas as forças ou posses. Por um lado Deus não espera mais que sejamos perfeitos, mas por outro passa a exigir que cada um confesse seus erros, peça perdão aos seus semelhantes e a Ele mesmo, e busque ser uma pessoa melhor a cada dia e a cada ano.
Na semana passada lemos o primeiro parágrafo do Shemá e nesta lemos o segundo parágrafo. O “plano A” de Deus era que o amássemos de todo coração, com toda a alma e com todas as forças. O “plano B” é nos dar a opção: se O escutarmos de todo coração e com toda a alma, teremos vida longa sobre a terra. Se não... temos ainda a oportunidade do arrependimento e do perdão. E agora Israel?

terça-feira, 1 de março de 2011

Parashat Pecudê
Uri Lam, de Jerusalém, para o boletim semanal Congregar, CIP
 
Este é o portal para o Eterno; os justos entrarão por ele
Nas próximas semanas comemoramos duas festas: Purim, quando os judeus se libertaram de Haman e da ameaça de extermínio na Pérsia; e Pessach, quando fomos libertados da escravidão no Egito. Como preparação para este período, temos, antes de Purim, Shabat Shecalim e Shabat Zachor; e antes de Pessach, Shabat Pará e Shabat Hachódesh.
Estamos em Shabat Shecalim. Lemos na Torá (Ex.30:11-16) quando Deus ordenou que Moisés recenseasse os israelitas: ao ser contado, cada um deve doar meio shekel para os serviços no Ohel Moêd, a Tenda da Reunião. Nem os ricos devem doar mais, nem os pobres devem doar menos. Cada pessoa tem o mesmo valor diante de Deus.
Construir ou não construir portões, eis a questão
Nos grandes centros urbanos, portões com guaritas fazem parte do dia a dia e nem nos questionamos mais sobre a sua necessidade. Guardas armados, câmeras internas e grades eletrificadas protegem casas e instituições 24 horas por dia. O motivo justificado é a segurança. Imaginamos que quanto mais vemos quem se aproxima, mais seguros estamos.
Por outro lado, os temores de assalto ao patrimônio aparentemente não eram uma preocupação para Moisés. A leitura da Torá desta semana, a última do livro de Shemot (Êxodo), relata a prestação de contas de uma riqueza de materiais para construção do Mishcán, O Santuário do Testemunho. Foram 29 talentos e 730 shecalim - uma tonelada, só de ouro puro; além de três toneladas de prata e mais uma infinidade de metais, madeiras e tecidos preciosos. Ao final, podemos imaginar que Moisés disporia centenas de guardas em suas guaritas para proteger o pátio em torno do santuário. Não. Foi colocada uma tela no portão do pátio e é só. Assim Moisés deu a obra por terminada.
O que se ganha ao construir um portão com guarita?
No Talmud (Baba Batra 7b) lemos uma história que mudará o nosso foco. Havia um bondoso homem que conversava todo dia com ninguém menos do que Eliahu, o Profeta Elias. Um dia ele construiu uma guarita no portão de sua casa - e desde então Eliahu deixou de falar com ele. Por quê? Eliahu não entendia que era mais seguro conversar em casa, protegido por um guarda? Não. Para Eliahu a guarita não servia para evitar ladrões, mas para impedir a vinda dos mais pobres. A guarita evitava o cumprimento da tsedacá, ajudar ao próximo no momento de sua necessidade.
A Casa de Deus tinha diante de seu portão somente uma tela, sem guaritas nem guardas. Eram outros tempos... Mas enfim, terminada a obra, a glória de Deus preencheu o Santuário na forma de nuvem. Nem Moisés podia entrar lá nesta hora, porque o Divino não deixava lugar para mais nada. Deus nos deixou de fora. Talvez para sentirmos na pele o que é estar no lugar do outro que vem pedir auxílio no momento de necessidade, mas que fica do lado de fora de portões e guaritas. Somente quando o Divino, na forma de nuvem, eleva-se acima do espaço sagrado é que os filhos de Israel podem "entrar pelo portão" e seguir suas jornadas. O portão permite o encontro. Deus abre espaço para entrarmos, conversarmos com Eliahu e com todos, e seguirmos nossas jornadas. “Este é o portal para o Eterno; os justos entrarão por ele”. (Salmos 118:20)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Parashá da Semana: Tetsavê - Entre Nós: O Sagrado está na Relação
Uri Lam, para o boletim Congregar, da CIP

Rabi Chanina disse: “Virá o santo, e entrará no que é santo, irá se aproximar do que é santo, e expiará em favor de todos os santos”. (Midrash Raba: Tetsavê 38, 7)

Impressionante a capacidade de certos sábios de resumir uma parashá inteira em uma única oração. Mais impressionante ainda é a capacidade de atiçar a nossa curiosidade para a leitura da Torá desta semana. Afinal, do que Rabi Chanina está falando? Desde quando temos santos no povo judeu? Isso não é um tema judaico!, dirão alguns.
A questão da kedushá, da santidade, é parte integrante da vida judaica. Nós rezamos todos os dias na Amidá, a grande oração de nossos serviços religiosos, a inserção da Kedushá: “Cadosh, Cadosh, Cadosh, Ad-nai...” – Santo, Santo, Santo, o Eterno... (Isaías 6:3).  Não é incomum escutarmos de certas pessoas que seu intuito pessoal é ter uma vida santa. Como se faz isso? Um grande amigo me disse uma vez que “os rabinos, quando escrevem seus comentários sobre a Torá, têm uma enorme capacidade de criar boas perguntas, mas em geral não têm boas respostas”.
Vejamos o que nos conta a Torá nesta semana. Deus diz a Moisés para que dê uma ordem aos israelitas: “Tragam o mais puro azeite para manter continuamente acesa a luz no Ohel Moed, a Tenda da Reunião.” Em seguida a nossa leitura se concentra nos cohanim, os sacerdotes. Quais devem ser suas vestimentas e ornamentos, como estes devem vesti-los, como devem se portar. Tudo parece centrado neles, como se coubesse apenas ao líder religioso a obrigação de levar uma vida inspirada pelo sagrado: “E as vestimentas de santidade de Aarão depois serão para seus filhos... e serão consagrados com elas” (Êxodo 29:29).
Em diversas tradições, o líder religioso é vestido e investido por sua comunidade de uma condição especial. Alguns o chamam de pastor, outros de homem de Deus, outros ainda de sábio, guru, mestre. Atribui-se a estes homens e mulheres uma espécie de poder mágico, a capacidade sobre-humana de intervir junto a Deus em favor dos demais. Também entre nós, no povo judeu, esta prática é largamente adotada.
Nesta hora surge Rabi Chanina e nos diz que ninguém é santo sozinho. O rabino da época do Talmud estende a condição do sagrado desde a terra até os céus: “Virá o santo – Aarão; e entrará no que é santo – o micdash, o espaço sagrado; irá se aproximar do que é santo – Deus; e expiará por todos os santos - Israel”. A condição do sagrado não é uma exclusividade do líder religioso. O sagrado é inclusivo, construído e instaurado na dinâmica das relações entre o indivíduo, o lugar em que vive, Deus, e sua comunidade.
No mesmo midrash conta-se que, ao observar o sacerdote em suas roupas no mais sagrado dos espaços e no mais sagrado dos dias, o Iom Kipur, Deus não se recorda dos próprios méritos, nem da santidade do local, tampouco dos méritos do sacerdote. Deus se recorda dos méritos das tribos, do povo.
Em seu comentário para a parashá Tetsavê, o livro do Zohar - que a tradição atribui a Shimon bar Iochai - praticamente não se refere aos cohanim. Entre suas diversas vozes, escutamos a de Rabi Itschac: “A luz do alto e a luz de baixo são uma só, e o seu nome é ‘Tu’” (Tetsavê, 1). O Zohar se antecipa por séculos à brilhante obra de Martin Buber, “Eu-Tu”, que estabelece que o sagrado não está em mim nem em você, mas no verdadeiro encontro entre nós, num instante e local precisos. O sagrado está na relação: “Morarei entre os filhos de Israel e serei para ele Deus (Êxodo 29:45).
A luz permanecerá acesa enquanto alimentarmos em nossas relações – entre a comunidade, lideranças religiosas, o espaço em que nos reunimos e Deus – o processo contínuo de construção e manutenção do sagrado.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Parashat hashavua (leitura semanal da Torá): Terumá
Rabino Michel Schlesinger - CIP
A parashá desta semana, Terumá, traz um relato detalhado de como deveria ser a construção do mishcán. Este santuário móvel foi o local de culto dos israelitas durantes as andanças pelo deserto. Cada detalhe do candelabro, a cortina, a arca sagrada, entre outros, é descrito minuciosamente na porção da Torá desta semana.
A construção do santuário e o culto tinham por objetivo criar uma relação de intimidade entre os recém-libertos e Deus. O mishcán era o local onde esta relação se consumava. Ali, naquele oásis móvel de santidade, dava-se o culto a Deus. Naquele local criava-se a base para o judaísmo das gerações futuras.
Quando o povo finalmente assentou-se na Terra Prometida, o santuário fixou-se em Jerusalém e lá permaneceu por diversos séculos.
Com a destruição do Templo de Jerusalém no ano 70 da nossa Era, o culto deixou de ser realizado em um único santuário e passou a estar presente em cada sinagoga do mundo. Além disto, cada residência de uma família judaica passou a ser uma espécie de pequeno santuário (“mikdash meat”) dedicado ao serviço religioso.
A forma do culto a Deus também sofreu mudanças significativas. Os sacrifícios deixaram de ser realizados. No lugar deles, foram instituídas as orações diárias e as refeições festivas.
O objetivo, no entanto, continua o mesmo. Ainda hoje o ritual tem por finalidade aproximar o homem de Deus. Engana-se aquele que pensa que o ritual tem um fim em si mesmo. Não observamos o Shabat pelo Shabat, nem a Cashrut pela Cashrut. Cada uma dessas instituições religiosas tem por objetivo nossa aproximação com o Criador do Universo.
Conta a lenda que havia um rei que amava muito sua única filha. Um dia, ela se casou com um príncipe que morava em uma terra distante. Depois do casamento, o príncipe decidiu levar a esposa para o seu país. Quando o rei percebeu que a sua única filha iria partir, ele disse ao seu genro: “Você sabe o quanto eu amo a minha filha. Ela esteve sempre ao meu lado e agora, eu vou sentir a sua falta. Por isto, eu lhe peço apenas um favor. Onde quer que você e minha filha vivam, construa uma casa para mim ao lado da tua. Assim eu poderei ficar perto de vocês”.
Assim está escrito na parashá desta semana: “Veassu Li Mikdash Veshachanti Betocham”, “façam um santuário para que eu viva entre vocês”. Deus não vive no mishcán. Quando construímos os santuários abrimos um espaço para que Deus esteja presente nas nossas vidas.
O objetivo do ritual não é o ritual em si. Ele é apenas uma ferramenta de aproximação com o Criador do Universo. A idolatria acontece quando passamos a considerar o ritual um fim em si. Nosso objetivo é abrir espaço para que Deus esteja presente em nossas vidas. E para isto o judaísmo tem uma receita de como fazer. Não é a única nem a melhor receita, mas é a forma judaica de colocar Deus para dentro das nossas sinagogas, nossas casas, das nossas vidas. Podemos viajar para muito longe desde que tenhamos sempre uma casa construída nos nossos corações para receber a visita do Rei.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Congregar (CIP) Parashát Balac
A Torá do lado de fora e nós do lado de dentro? 
Uri Lam

Durante uma aula de Talmud nos foi pedido para escrever, na língua materna, o que viesse à mente sobre a frase: “A Torá do lado de fora e nós do lado de dentro”. Ao apresentar o que escrevi, em vez da ‘tradução simultânea’ para o hebraico, me foi pedido para ler... em português. Eu falava aos colegas numa língua que eles não entendiam. A sensação era perturbadora, pois por um lado me senti dono de uma informação à qual eles só teriam acesso se eu quisesse. Mas também me senti sozinho dentro de mim, com a Torá do lado de fora.
Foi quando me deparei com esta estranha passagem do Talmud: “Moisés escreveu o seu livro [a Torá] e a parashat Bilam” (Baba Batra 70b). Afinal, o relato de Bilam está dentro ou fora da Torá? Mas se nesta semana lemos na Torá que Bilam foi assediado por Balac, rei de Moav, para amaldiçoar o povo de Israel e no fim o abençoou com “Quão boas são as tuas tendas, Jacob, as tuas moradas, Israel”, o Ma Tovu que cantamos quando entramos na sinagoga!
Conta-se que Rabi Meir e Rabi Natan, desgostosos com Raban Shimon ben Gamliel, tramaram derrubá-lo do cargo de presidente do Bet Midrash (casa de estudos), mas o golpe fracassou e Shimon ben Gamliel ordenou que fossem expulsos, colocados para fora. No entanto, os dois contribuíam tanto para a compreensão da Torá que Rabi Iossei protestou: “A Torá fica do lado de fora e nós do lado de dentro?!” Shimon ben Gamliel decidiu que eles poderiam retornar ao Bet Midrash, mas de agora em diante os ensinamentos de Rabi Meir seriam citados como “acherim” (os outros) e os de Rabi Natan como “iesh omrim” (há quem diga) (Talmud, Horaiot 13b). Foi o modo encontrado para que a Torá deles permanecesse dentro da sabedoria judaica.
Mas e Bilam, o que alguém como ele, pronto para nos amaldiçoar, faz dentro da Torá? Ele é um profeta à altura de Moisés, o que levou Balac a convocá-lo como a derradeira chance de derrotar Israel. Onde está a diferença? Moisés faz o que Deus ordena, às vezes concorda, outras vezes discute ou se cala, mas age com integridade: ele faz o que pensa que deve ser feito. Bilam faz o que Deus ordena, mas o que faz nem sempre é o que pensa que deveria ser feito. Moisés ama os animais; o amor por seu rebanho o leva a encontrar Deus. Bilam maltrata o burro que só faz servi-lo, a ponto do animal ter que falar “o que eu te fiz para você me bater três vezes?” para Bilam entender que este salvara a sua vida. Em outras palavras: a Torá de Moisés − a sua relação com Deus, com os seres humanos e com as criaturas – é completamente diferente da Torá de Bilam.
Mesmo assim, lemos esta semana o relato sobre Bilam. Dentro da Torá. Mesmo que o Talmud diga que Moisés escreveu a sua Torá e o relato de Bilam em separado, é fato que Moisés não deixou a “Torá de Bilam” de fora da sua Torá. Que bom. O mesmo Bilam que poderia ter sido um pesadelo para Israel foi quem nos brindou com o Ma Tovu.
Conta-se que quando Amimar, Mar Zutra e Rav Ashi estavam juntos, foi proposto que cada um dissesse aos demais algo que jamais haviam escutado antes. Um deles falou: “Quem tiver tido um sonho e não souber dizer o sonhou, levante-se e diga: “Senhor do Universo... entre os sonhos que tive, dos que precisarem de cura, que sejam curados como pelas águas amargas das mãos de Moisés... e assim como Você fez com que a maldição de Bilam se tornasse uma benção, faça com que meus sonhos venham para o bem.” (Talmud, Brachot 55b)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Senhores ou Escravos da Crise? 
Congregar CIP Parashá da semana: Shelach Lechá, Sivan 5770
Uri Lam 
Muitos anos haviam se passado desde o episódio em que o povo de Israel, prestes a receber as Tábuas da Lei, perdeu a paciência, não esperou Moisés descer do Sinai e passou a adorar o Bezerro de Ouro. Moisés, por outro lado, vinha de quarenta dias de isolamento, ele e Deus, no alto do Sinai, talvez no auge da realização de sua missão diante daquela multidão. Missão cumprida, poderia estar pensando. Sob o comando de Deus, aquele velho ex-pastor de cabras os retirou do Egito, das mãos do Faraó, da vida de escravos, e estava prestes a lhes entregar leis que estabeleciam direitos e deveres. Eles eram agora todos iguais, livres! Moisés estava pleno, seus olhos brilhavam, ele conseguira. Mas não. Ao olhar para baixo, lá estavam todos adorando a divindade egípcia. Uma onda de fúria tomou conta de Moisés. E lá se foram as tábuas, as leis, os direitos e deveres ao chão, estilhaçados. Enfurecer-se é mais do que ficar nervoso. É perder as estribeiras, descontrolar-se totalmente. Em vez de compartilhar da fúria de Moisés, Deus, que vê o que se passa de outro ângulo, chama à realidade, ordena que faça um novo par de tábuas e proclama: “O Eterno é um Deus piedoso e misericordioso, demora para se enfurecer...” (Êxodo 34:6)
Agora é chegado o momento de Deus sentir-se realizado. Ele retirou o povo do Egito, das mãos do Faraó, da vida de escravos, entregou-lhes leis e deveres, e agora estava prestes a lhes entregar a Terra de Canaã, que viria a ser a Terra de Israel. Antes ordena que sejam enviados dez dos maiores líderes do povo para irem à frente, a fim de conhecerem a nova terra. Assim como Moisés levara quarenta dias para descer do Sinai, eles levaram quarenta dias para retornarem de Canaã, e com eles cachos de uvas, romãs e figos. “A terra é fértil”, dizem eles a todos, “dela emana leite e mel, porém...” – e sempre tem um porém – “seus habitantes são fortes, suas cidades são muradas, e há filhos de gigantes”. E de uma hora para outra não havia mais leite nem mel. O povo só via gigantes e muros à sua frente e se desesperou. O desespero é outro lado da fúria. “Oxalá tivéssemos morrido no Egito ou no deserto!”
Furioso, Deus se volta para Moisés: “Até quando este povo me irritará, quando acreditará em mim? Vou feri-lo de morte e o exterminarei.” Esta é a vez de Moisés, vendo a situação de fora, chamar Deus à realidade e puxar por Sua memória: “Deus, faça como me disse: o Eterno demora para se enfurecer e é grande em misericórdia”. E Deus respondeu: “Salachti kidevarêcha, perdoarei, conforme tuas palavras”.
Vejamos agora a cena em um diálogo imaginado pelos sábios do Midrash.
Deus: Vou consumi-los na minha frente!
Moisés: Soberano do Universo, Você está furioso. Um escravo − se suas ações fossem boas e escutasse o seu senhor, e este o tratasse com bondade e serenidade − não respeitaria o seu senhor. Porém um escravo de cultura deficiente, ao agir mal, respeitaria o seu senhor quando este o tratasse com bondade e serenidade, conforme está escrito: “Não ligue para a teimosia deste povo, para a sua maldade” (Deut. 9:27).
Deus: Eu os perdoarei graças a você, Moisés.
Há momentos de crise que tiram até Deus do sério. Mas a fúria é como o fogo: descontrolada, não vê nada à sua frente. Consome e acaba com tudo, o que é bom junto com o que não é. A fúria não é a melhor resposta para os momentos de crise, ao contrário, só aprofunda as dificuldades.
A Torá nos ensina que antes de “quebrar as tábuas” ou de botar fogo em tudo, é aconselhável escutar um parceiro de confiança que esteja vendo a situação de fora. A uma certa distância do calor da crise, muitas vezes é possível enxergar onde há água para apagar o fogo, encontrar uma alternativa melhor e perdoar. E o que é perdoar: esquecer? Não. Perdoar é ser capaz de buscar uma solução justa para a crise. É agir como senhor da situação, não como seu escravo, com bondade e serenidade.

domingo, 23 de maio de 2010

Ao querido Iotam, direto do nosso pequeno submarino amarelo
Há um ano, conforme o calendário judaico, escrevi este comentário para a parashá Behaalotechá, que lemos nesta semana. Há um ano estive em uma cerimônia de bar mitsvá linda, talvez a mais linda de todas, o bar mitsvá de Iotam, na sinagoga Moreshet Avraham, em Jerusalem.
Há um ano Iotam me inspirou a escrever o texto abaixo, para o folheto Congregar da CIP.
Há poucos dias, Iotam voltou à minha lembrança, carregado por outras boas lembranças de outros tempos que se fizeram presentes novamente.
Hoje, recebi este comentário por e-mail. 
Que bom que destas lembranças e vivências, vem momentos bons.
Uma boa semana a todos.

Parashat Behaalotechá
O que têm a ver uma antiga arca, um candelabro de ouro e um submarino amarelo?
Uri Lam, para o Congregar, CIP [13 de Junho de 2009/ 21 de Sivan de 5769]
Era uma vez uma antiga arca. Alguns acham que sempre esteve cheia de objetos e pergaminhos, de reis e leis, de princesas e soldados, de profetas e inimigos. Homens e mulheres continuam até hoje tomando para si o que consideram importante da arca. Outros acham tudo isso uma loucura. Tem quem diga que está bem guardada em algum país da África, ou nos porões do Vaticano, ou ainda no deserto da Judéia, não, em Petra, na Jordânia. Nos séculos 19 e 20, muita gente esclarecida considerava a arca um museu abandonado e às escuras, no fundo de um oceano de ignorância. 
Eis que no século 21 a antiga arca dá sinais de que ainda tem muitos tesouros a revelar. Um museu de grandes novidades. Basta acender a luz e passear pelas estantes empoeiradas, navegar pelas bibliotecas virtuais ou experimentar fortes emoções nas máquinas do tempo espalhadas por seus andares. É virar e revirar que está tudo lá, dizem. 
Pois bem, a parashá desta semana vem para nos ensinar a iluminar o que há na arca. Aarão, o sacerdote, recebe de Moisés a orientação para se erguer e acender as luzes da Menorá. Nossos sábios comentam que três luminárias estavam voltadas para o oeste e três para o leste, enquanto a sétima brilhava no centro. A Menorá de ouro maciço multiplicava a luz de suas chamas e iluminava tudo ao redor.
Agora sim, com boa iluminação, podemos ler o maior tesouro da Arca, o Sefer Torá. Vamos abri-lo na parashá desta semana? Deixe-me procurar... aqui está: Behaalotechá. Estão vendo estas letras misteriosas, como se fossem dois “vav” invertidos que marcam uma conhecida passagem: Vaiehi Binsoa, “quando a Arca partia em viagem...”? (Números 10:35-36). Alguns comentaristas dizem que na verdade é um livro por si mesmo, inserido no meio do livro de Números e por isso recebeu esta marcação. Quanta coisa ainda há para conhecer, este é só o começo!
E o submarino amarelo, onde entra? Ora, ele é a nossa arca sagrada, o nosso museu de grandes novidades onde podemos estudar Torá dia e noite, independente se a maré está para peixe ou não. Quem o vê de fora o chamou de Submarino Amarelo por conta da luz dourada das chamas da Menorá que resplandece por seus vitrais. Alguns nos dão por desaparecidos, outros que o Submarino Amarelo nunca existiu, que os relatos sobre ele são parte de mitos inventados por povos muito antigos que nós, judeus, adotamos como sendo nossos e só nossos. Muitos decidem sair do submarino e nadar por conta própria, e muitos outros querem entrar. Quem sai não sabe em que águas entrará, e quem quer entrar não tem idéia de que não é fácil viver neste submarino amarelo, onde para cada dois marujos há três direções a seguir.
Há alguns anos quatro rapazes britânicos contaram ao mundo que souberam de um submarino amarelo por um viajante dos mares. Não sei de que submarino eles falavam, mas aviso aos navegantes: o nosso pequeno submarino amarelo está vivo, bem iluminado, e segue a sua rota. 

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Preserve e Aprenda - Midrash baseado no livro de Devarim (Deuteronômio)
tradução: Uri Lam
Midrash Halachá - Sifrê (sobre Deuteronômio, Parashát Reê)
Shamor veshamata – preserve e escute (aprenda)
Se escutar um pouco, no final você escutará muito.
Se preservar um pouco, no final você preservará muito.
Se preservar o que escutar, no final você preservará o que ainda não escutou.
Ao preservar o que você tem, no final você preservará para o futuro vindouro.
Outra coisa: quem tiver o mérito de estudar Torá, este mérito é seu e de todas as suas gerações por todos os tempos.
Outra coisa:  “Preserve e escute” – todo aquele que não se dedicar aos estudos não terá como agir; "Estas palavras que Eu te ordeno” – que você tenha por uma mitsvá simples a mesma afeição que tem por uma mitsvá difícil (Talmud, Avot 2)
Você fará o que é bom e o que é correto
“O que é bom aos olhos de Deus e o que é correto aos olhos das pessoas” - palavras de Rabi Akiva.
Rabino Ishmael diz: “O que é correto aos olhos das pessoas e o que é bom aos olhos de Deus”. E ele continua: “E é considerado bom e bem compreendido, aos olhos de Deus e do ser humano” (Provérbios 3).

quarta-feira, 24 de março de 2010

Lech lechá, Vá até si mesmo - passagem do Zohar
versão em português: Uri Lam, março de 2010 / Nissan 5770
Enquanto vinha de lá, Rabi Aba anunciava: "Quem quer riqueza neste mundo, e quem quer vida longa no mundo vindouro, venha e dedique-se à Torá!" E de todo canto as pessoas se juntavam a ele.
Havia um jovem em seu vilarejo que um dia veio até ele e disse: "Rabino, eu quero me dedicar à Torá para obter riqueza".
O rabino lhe disse: "É claro! Qual é o seu nome?"
E o rapaz respondeu: "Iossi".
O rabino então disse a seus alunos que a partir de então chamassem aquele jovem de Rabi Iossi Baal Ósher Vechavod, o possuidor de riqueza e honra.
O jovem sentou-se e ocupou-se com o estudo da Torá. Mas os dias se passavam e nada de riqueza.
O jovem veio até o rabino e perguntou: "Rabi, onde está a riqueza?"
O rabino respondeu: "Você aprendeu que não agiu em nome dos Céus".
Foi quando entrou na sala de estudos uma voz e dela se escutou: "Não o puna, porque ele ainda será um grande homem". O rabino se voltou ao jovem e disse: "Sente-se, meu filho, sente-se, e lhe darei riqueza".
Enquanto isso veio um homem com uma taça de ouro nas mãos. Quando a expôs, seu brilho iluminou toda a casa. Então falou: "Rabino, quero ser digno da Torá, mas até hoje não fui. Quero que alguém se ocupe da Torá por mim, pois sou muito rico, herança de meu pai. Quando ele se sentava em sua mesa, dispunha sobre ela  treze taças destas. Quero ser digno da Torá, e posso pagar por isso".
O rabino voltou-se para o jovem e disse: "Ocupe-se da Torá e este homem lhe pagará por isso", e lhe deu a taça de ouro.
Em seguida Rabi Aba chamou o homem e declarou: "Não se pode compará-la a ouro e vidro nem trocá-la por taças de ouro" (Jó 28:17).
O homem rico por fim sentou-se e também se dedicou à Torá, e além disso doou parte de sua riqueza para que outros também se dedicassem à Torá.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Parashat Beshalach
Folheto semanal Congregar, da CIP 
Também publicado pela comunidade judaica Kehilat Beit Israel, de Lisboa, Portugal
Uri Lam, de Jerusalém
“Bendito sejas Tu, Eterno nosso Deus, que preserva o chão sobre as águas.”
Em nosso sidur esta é uma das bênçãos do alvorecer.
Ter um chão firme onde colocar os pés parece algo simples. E, no entanto, vivemos hoje um tempo em que terras firmes não são algo tão óbvio assim. Em São Paulo as chuvas têm transformado a vida na cidade em um caos e muitas vezes em tragédia. Em Israel, as intensas chuvas deste ano, que não deixam de ser uma bênção, têm gerado também diversos transtornos. Já no Haiti, como todos temos infelizmente acompanhado, a terra tremeu sob os pés de seus habitantes e levou muitas vidas embora.
Os rabinos do Talmud sempre enfatizam que jamais devemos nos esquecer do dia em que saímos do Egito. Ao mesmo tempo em que este foi para nosso povo um cativeiro, quando houve a chance de sair teve quem decidiu ficar, porque pelo menos a terra era firme, havia comida e um teto sob o qual dormir. A opção da liberdade proposta por Deus através de Moisés era tanto motivo de alegria e alívio, quanto de incerteza e medo. Não havia nenhuma garantia que, ao se deixar o Egito, se chegaria a algum lugar melhor.
“E vieram os filhos de Israel para dentro do mar, em terra seca. E as águas estavam para eles como muralhas à direita e à esquerda.” (Êxodo 14:22) Sempre que lemos esta fantástica travessia, vemos a imagem cinematográfica da multidão atravessando duas muralhas de mar. Como deve ter sido esta travessia aos olhos de cada pessoa? E aos olhos de uma criança? Rabi Nehorai nos conta (em Midrash Raba, Beshalach) que quando o povo de Israel entrou no Mar Vermelho, entre eles havia uma mulher que levava seu filho pela mão, e ele chorava muito. Imagino esta criança puxada por sua mãe, chorando, atordoada entre a multidão de gente, carroças e animais, enquanto muralhas de água rugiam ameaçadoras como se pudessem desabar sobre todos a qualquer minuto. Neste momento a mulher estendeu a mão, pegou uma maçã, lavou-a nas águas do mar e a deu ao filho.
Recordo-me de uma história que me foi contada por um sobrevivente da Shoá. Aproximava-se o final da Segunda Guerra Mundial. Ariê estava em um campo de concentração. Ele e um companheiro carregavam um panelão de sopa para os internos quando a força aérea americana sobrevoou o campo e passou a bombardeá-lo. Em meio à chuva de bombas, seu amigo, assustado, correu para o galpão e escondeu-se sob a mesa da cozinha. Ariê decidiu agir diferente: sentou-se e começou a comer a sopa do panelão. “Naquele momento eu estava morrendo de medo, mas também de fome. Então pensei: Se morrer, pelo menos que seja de barriga cheia”, comentou comigo. Ariê não só sobreviveu, como logo depois deixou o campo com os demais sobreviventes, participou da chamada Marcha da Morte e enfrentou inúmeras outras situações de perigo. Alguns anos depois chegou ao Brasil, reconstruiu sua vida e contou sua história.
As manchetes dos jornais nos contam que foram encerrados os serviços de resgate após o terrível terremoto no Haiti, e que aos poucos seus habitantes reconstroem suas vidas. Em meio à destruição e às ameaças de novos tremores de terra, as equipes de auxílio de Israel se destacaram pelo modo como salvaram pessoas dos escombros, por seus sofisticados hospitais de campanha e pelo calor humano, relatado tanto por haitianos quanto pelas equipes dos demais países. Eles não eram capazes de conter as forças da natureza como Deus um dia conteve as águas do Mar Vermelho, mas os israelenses estenderam a mão aos haitianos com o mesmo carinho e presença que aquela mãe estendeu uma maçã ao filho. Eles ajudaram a cada haitiano que puderam, cumprindo à risca o que nos ensinaram os rabinos do Talmud: “Quem salva uma vida é como se salvasse o mundo inteiro”.
Centenas de milhares de israelitas pereceram no deserto, na longa caminhada após a travessia do Mar Vermelho. Milhões de judeus foram assassinados na Shoá. Mais de cem mil haitianos morreram vítimas do terremoto que sacudiu seu país. Mas em todos estes casos a solidariedade e a força do indivíduo não pereceram. Estender a maçã, oferecer tratamento aos feridos e encarar o perigo com coragem são mais do que bênçãos; significa cumprir a mitsvá que nos foi ordenada por Deus: Escolher pela vida, pela vida de cada indivíduo e pela própria vida.
Shabat shalom e Tu b’Shevat Sameach

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Parashá da Semana - Vaerá
Comentário: Uri Lam (para o semanário "Congregar" da CIP)
Ao ser convocado para libertar o povo de Israel da escravidão no Egito, Moisés perguntou a Deus:“Então Você quer que eu vá até o povo e diga: ‘O Deus dos seus antepassados me enviou até vocês’. Com certeza eles irão me perguntar: ‘Qual é o nome Dele?’ O que eu digo?!”
Conta um midrash, em Shemot Raba, que quando Moisés fez esta pergunta, recebeu a seguinte resposta: “Que pena que as pessoas se esquecem. Tantas vezes Eu me revelei a Abrahão, a Isaac e a Jacob como ‘El Shadai’.... Nenhum deles perguntou qual era o Meu Nome. Mas você Moisés, antes mesmo de Eu lhe enviar para a sua missão, você perguntou qual era o Meu Nome. E Eu lhe contei. Para que? Para você vir em seguida e se queixar: ‘Desde que me apresentei ao Faraó para falar em Teu Nome, ele tem maltratado este povo’”.
É neste contexto que iniciamos a leitura da parashá desta semana. O clima é de conflito. Deus escolhe Moisés para libertar o povo de Israel e Moisés reluta, argumenta, assume-se incapaz, teme – Como eles vão reagir? E o Faraó então? Neste momento Deus lembra a Moisés algo fundamental: “Ei, Eu sou YHVH”.
Embora de fato nenhum dos patriarcas tenha perguntado qual era o Seu Nome, o próprio Deus Se revelou a eles de algum modo. Abrahão fez seu servo Eliezer jurar em nome de YHVH que buscaria uma mulher para Isaac entre seus familiares. Após ser abençoado por Deus, Isaac ergueu um altar e lá invocou o Nome de YHVH. Ao sonhar com a escada que ia da terra ao céu, Deus revelou-se a Jacob: “Eu sou YHVH, Deus de teu pai [avô] Abrahão e Deus de Isaac”.
Moisés temia que os israelitas lhe pedissem para dizer o Nome de Deus antes de qualquer coisa. Pensando bem, por que eles fariam esta pergunta? Não seria mais coerente perguntarem por que Deus enviou justamente Moisés, um príncipe do Egito foragido, para salvá-los? E por que Deus o orientou a dizer que fora enviado pelo Deus dos seus antepassados? Acaso não se levaria mais esperança se Moisés dissesse “O Deus dos Exércitos me enviou até vocês”?
De fato, para os israelitas escutar o Nome de Deus da boca de Moisés em pleno Egito era condição fundamental para acreditarem que finalmente seriam libertados e tomariam o rumo de casa, à Terra de Israel. Eu sugiro que na verdade YHVH era a senha. Se o povo perguntasse a Moisés qual era o Nome de Deus e ele dissesse a senha corretamente, os israelitas o reconheceriam como “gente como a gente” e saberiam que, depois de séculos de escravidão, Deus ainda existia e era chegada a hora de libertá-los.
Mas será que o povo de Israel conhecia o Nome de Deus? Eu entendo que sim, que lhes foi transmitido por tradição e que este foi justamente o motivo pelo qual Deus disse a Moisés para se apresentar como enviado do Deus dos seus antepassados – seria como dizer: “O seu Deus é o meu Deus”, exatamente como um dia a moabita Ruth diria à sua futura sogra israelita, Naomi.
Os comentaristas clássicos da Torá propõem que cada nome de Deus tem um sentido. Há momentos em que o Rei dita as normas e as cobra ao pé da letra – aqui Deus é Elohim. Em outros momentos Deus se coloca ao nosso lado por inteiro, comove-se com o nosso sofrimento e nossas dúvidas e faz de tudo para aliviar a nossa a dor, física, emocional ou espiritual – aqui Deus é YHVH.
“Elohim falou a Moisés e lhe disse: Eu sou YHVH.” (Êxodo 6:2) Este primeiro versículo de Vaerá começa com Elohim, o Deus que concede leis e ordem à vida. Mas ao compreender a humanidade de Moisés, Deus afirma: “Eu sou YHVH”, o Deus da bondade, que entende e acolhe, que se coloca inteiro ao lado, propõe alternativas e dá coragem para que enfrentem juntos o que vier pela frente. Desta união entre Deus e o ser humano, a vida ganha sentido. 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Comentário da Parashá Mikets
Livreto semanal Congregar, da Congregação Israelita Paulista
19 de dezembro de 2009/ 2 de Tevet de 5770
Na história de Iossef os sonhos contam muito. O primeiro sonho o levou a campos cobertos com feixes de cereais que se erguiam e se curvavam para ele em danças de roda. O segundo o lançou ao espaço, onde encontrou-se com o sol, a lua e as estrelas. Lindo, não? Bom, é um modo de ver as coisas, porque Iaacov, seu pai, sentiu-se incomodado; os irmãos, por sua vez, ficaram irados, e decidiram mandar Iossef literalmente para o espaço. As opções eram: matar com as próprias mãos; matar com a cabeça, ou seja, jogar o irmão no poço e que o “acaso” faça o seu; ou matar no coração: vender Iossef como escravo e fazer de conta que ele morreu.
Venceu a terceira opção. Iossef morre no coração dos irmãos, mas segue vivo para o Egito. Lá precisa lidar com a dura realidade da vida na corte: cumpre ordens, serve ao Potifar, seu chefe, mas sabe dizer não quando dele exigem mais do que a sua dignidade permite. Ao não realizar as fantasias da mulher do chefe, Iossef é jogado no poço das prisões egípcias. Ainda assim, o que garantiu a sua sobrevivência foram os sonhos. Pode ser que no fundo do poço Iossef teve tempo de sobra para interpretar os próprios sonhos. Agora, na prisão, transformara o “poço” em “posso”: podia interpretar os sonhos do copeiro e do padeiro, colegas de cárcere, e daí pôde lançar-se ao espaço, na companhia do sol, da lua e das estrelas – exatamente como em seu sonho, pois Iossef acabou sendo convocado para estar diante do Faraó - o filho do Deus Sol, na cultura egípcia. 
A parashá Mikets inicia no momento espinhoso em que o Faraó está perturbado por seus próprios sonhos. Imaginemos a cena: “Alteza, há um judeu na prisão que pode decifrar os seus sonhos. Ele se especializou em interpretação e análise.” O Faraó olha desconfiado: “Como se chama, Freud?” “Não senhor, o nome dele é Iossef.”
A leitura que Iossef faz dos sonhos do Faraó resulta na reorganização da economia egípcia, redistribuição de terras, reforma na área de impostos e estímulo à poupança. Foi assim que os sete anos de vacas gordas garantiram o Egito durante os sete anos de vacas magras.
É verdade: todo mundo sonha. Então que importância tem em Iossef também sonhar? É que Iossef presta atenção aos sonhos, aos seus e aos dos outros. Ele nos conta os seus sonhos, reflete, avalia e os coloca em prática. Para Iossef, sonhar é coisa séria.
Em Chanucá nossas casas estão mais coloridas e felizes. Assim também a CIP e o Beth El. Neste ano festejamos um sonho: estamos juntos, respeitamos nossas diferenças e unimos as luzes dos nossos costumes e tradições. Nesta festa adoçamos a vida com outro tipo de sonhos: as sufganiot, recheados de creme ou de geléia. Sonhos recheados de sonhos [somos recheados de sonhos - Uri].
Prestemos atenção aos nossos sonhos. Vale à pena.
Shabat shalom e chag sameach
Uri Lam, de Jerusalém