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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

ROSH HASHANÁ - 2a manhã, 2 de Tishrê 5772 / 30 de setembro de 2011
Congregação Israelita Paulista (CIP)
Prédica/Drashá: Uri Lam
MÃO FORTE E BRAÇO ESTENDIDO
Todo dia importante, que gera grandes expectativas, que podem levar a grandes vitórias ou a grandes frustrações, a grandes alegrias ou a grandes tristezas, todo dia com o potencial de servir como divisor de águas em nossas vidas, parece ser mais longo que os outros dias. Rosh Hashaná tem todas estas características. É Iom Hadin, o Dia do Julgamento. Sempre que somos expostos a julgamento, a críticas, parece que os minutos não passam.
Rosh Hashaná, o Dia do Julgamento, não ocorre num tribunal comum. Diante de nós, como se estivesse numa bimá celestial, está Deus. E aqui na Terra, estamos nós. Alguns de nós pode pensar: como Deus pode nos avaliar, estando Ele lá, e nós aqui? No dia 12 de abril de 1961, há 50 anos, a bordo da nave Vostok 1, o cosmonauta Iuri Gagarin, primeiro cosmonauta a viajar pelo espaço, a dar uma volta completa em órbita ao redor do planeta, afirmou lá de cima: “A Terra é azul”. Se a visão de Deus for parecida com a de Iuri Gagarin, como Ele pode nos julgar, se tudo o que Ele vê é que a Terra é azul?
Por outro lado, conta-nos o Midrash Devarim Rabá, que embora Deus tenha colocado os céus nos céus e a terra na terra, veio o homem e, por obra de suas mãos, colocou tudo de cabeça para baixo.
Deus, que estava no céu, desceu para a terra, até o Monte Sinai. Por sua vez, Moisés, que estava na terra, subiu aos céus, até o Monte Sinai. Impossível não nos lembrarmos do afresco de Michelângelo, em que a “mão” de Deus quase toca a mão do Homem. Quase, mas não toca.
Nunca, jamais imaginamos Deus a segurar a Torá e a entregá-la para Moisés “em mãos”. A Mishná, no tratado Avot, com os ditos dos nossos antepassados, diz que Moisés recebeu a Torá no Sinai e a transmitiu para os demais líderes numa corrente intermitente. Al Pi Adonai, beiad Moshé – pela boca de Deus, pelas mãos de Moisés. Esta corrente de transmissão chegou até nós, hoje, início de 5772. Pelas mãos de Deus? Não! Pelos ditos de Deus, mas a obrigação de transmitir a Torá é, e deve ser, feita pelas nossas próprias mãos, pelos nossos próprios atos. Uma das principais mensagens contidas, na transmissão da Torá por Moisés, até chegar a nós é: hevú metunim badin – sejam moderados no julgamento. Bom saber. Afinal, hoje é Iom Hadin, o Dia do Julgamento.
Lemos na Torá, e também na Hagadá de Pessach, e nas nossas rezas diárias no sidur, e também em nossos machzorim de Rosh Hashaná e Iom Kipur, que Deus nos retirou do Egito beiad chazacá uvizeroá netuiá, com mão forte e braço estendido. Esta foi a frase que ecoou nos meus ouvidos nos últimos dias, e que inspirou as palavras desta manhã: Mão forte e braço estendido. O Êxodo do Egito nos remete a Pessach ─ mas este mesmo êxodo é lembrado também em Rosh Hashaná. Avinu, Malkenu, nosso Deus bondoso como um pai, e nosso Deus firme como um rei, nos tirou do Egito, com mão forte e braço estendido. A imagem da mão forte é clara: a mão poderosa de um rei. E o braço estendido? Lembro-me dos desenhos de hagadot de Pessach antigas, com um looongo braço de Deus.
Mas hoje, Rosh Hashaná, quero propor a vocês outra imagem deste looongo braço: um braço acolhedor, um braço de abraço. Enquanto Deus, nosso Rei, atua com mão forte, o mesmo Deus, nosso Pai, nos abraça e nos acolhe com o braço estendido.
Quando lemos, nesta manhã de Rosh Hashaná, que Deus ordena a Avraham Avinu para levar o seu filho Itschac, que tanto ama, para ser sacrificado, se nos colocamos no lugar de Abrahão e de Sara, podemos sentir a mão forte de Deus a esmagar o nosso pescoço, a ponto de não termos ar nem para responder um “sim”, nem um “por que, Deus?”. Por que amarrar e sacrificar o próprio filho???
Neste Iom Hadin alguns de nós podemos pensar se no ano que passou agimos como Abrahão, que se calou diante da ordem Divina de sacrificar o próprio filho. Até que ponto sacrificamos nossos filhos, nossos pais, nossos irmãos, nossos amigos, nossos funcionários, nossos colegas? Até que ponto nos calamos? Até que ponto? Até que ponto, depois de criá-los, festejá-los, alimentá-los, cuidarmos deles, rirmos junto com eles, estimulá-los, até que ponto depois nós os amarramos aos nossos próprios valores e os sacrificamos? Até que ponto estamos à beira de sacrificarmos alguém neste ano que se inicia?
Deus ordenou que Abrahão amarrasse Isaac e o sacrificasse, mas foi o próprio Abrahão quem amarrou o próprio filho, com as próprias mãos. Alguns podem dizer: “Abrahão foi fiel a Deus! Abrahão demonstrou até onde pode ir, em nome de Deus!” Mas será isso o que Deus queria de Abrahão? Será que é isso o que Deus espera de nós, neste Dia de Julgamento? Que não importa o que Ele nos diga, que não interessa o que Ele nos ordene, o importante é que façamos valer a palavra de Deus? Nem que seja matar o próprio filho?
Nós nos acostumamos a destacar, na história do sacrifício de Isaac, o fato de, no último segundo, um anjo ter impedido a mão de Abrahão de matar o próprio filho. Este teria sido o divisor de águas entre o recém-nascido povo de Israel e os demais povos da região, acostumados a sacrifícios humanos. Nós não fazemos sacrifícios humanos!!! Nós somos um povo ético! Nós não matamos à toa!!!
Quero propor hoje um outro foco, uma outra maneira de ver o sacrifício de Isaac. Vamos nos lembrar da cena: Abrahão e Isaac chegaram ao lugar que Deus ordenou que fosse feito o sacrifício. Abrahão ergueu ali um altar, preparou a lenha, amarrou seu próprio filho, com suas próprias mãos, e fez Isaac se deitar sobre o altar. Abrahão estendeu sua mão e pegou a faca para sacrificar o filho. Mão forte e braço estendido. A mão pronta para uma ação forte. O braço estendido para quê?
Neste Iom Hadin, de Rosh Hashaná, quando Deus, Nosso Pai e Nosso Rei, começa a fase final do nosso julgamento, lembramos que Ele usou a Sua mão forte para nos livrar do Faraó e da escravidão, e que nos abraçou com Seu braço estendido, como um pai e com uma mãe fazem com seus filhos.
A história de Isaac nos leva para um grande dilema: a quem estendermos o braço? Contra quem usarmos a mão forte? Um anjo de Deus aparece a Abrahão e lhe diz, lá do céu: “Abrahão, Abrahão!” E ele responde: “Hineni, estou aqui!”. O anjo está lá no céu. Abrahão está aqui, na terra. Os anjos estão tão próximos do homem que, às vezes, nos momentos críticos, podemos ouvi-los. Mas não tocá-los. E mais: eles não podem impedir nossas mãos. As obras de nossas mãos são nossa responsabilidade. Se vamos usar a nossa mão forte para nos defendermos ou para nos boicotarmos, para produzir obras de arte ou para puxar o gatilho, a decisão e o ato em si mesmo é só nosso. Mas os anjos podem falar e até gritar com a gente para pensarmos melhor antes de fazermos alguma bobagem. E na nossa história, o anjo gritou com Abrahão: “Não estenda o seu braço sobre o moço e não lhe faça nada; agora sei que você teme a Deus”. O anjo sabe, afinal, que Abrahão é temente a Deus e que faria qualquer coisa por Ele. Mas não é isso o que Deus espera de Abrahão!!!
Quanta gente, hoje em dia, faz qualquer coisa em nome de Deus? Quanta gente, hoje em dia, mata, chantageia, mente, engana, em nome de Deus? É isso o que Deus espera de nós?
O anjo impede Abrahão de sacrificar o próprio filho porque o braço estendido de um pai não serve para matar, porque o braço estendido de um pai e de uma mãe servem para abraçar!!! É como se Deus dissesse: Abrahão, eu sei que você é temente a Mim, afinal, eu sou o Seu Rei. Mas o que Eu espero de você é que você use a sua mão forte para se defender, e que você estenda o seu braço para abraçar o seu filho, não para amarrá-lo, e jamais para matá-lo! Abaixe a mão Abrahão!
Ser temente a Deus, ser religioso, acreditar em Deus é fácil. Mas é pouco. Não é isso o que Deus espera de nós. Deus espera de nós ações práticas, braços estendidos para acolher, para abraçar, para ensinar, para indicar o caminho para os nossos filhos, para os nossos amigos, para quem pudermos ajudar a seguir pelo caminho do bem. Usar somente de mão forte com nossos filhos pode significar amarrá-los aos nossos próprios valores e temores. Estender-lhes a mão e abrir espaço para que escolham seus próprios caminhos, ainda que não sejam os nossos, e abraça-los nos momentos de dificuldade, com um abraço estendido, gostoso e protetor ─ pode ser uma boa dica de o que Deus espera de nós para o ano 5772.
Shaná Tová
Uri Lam

terça-feira, 1 de março de 2011

Parashat Pecudê
Uri Lam, de Jerusalém, para o boletim semanal Congregar, CIP
 
Este é o portal para o Eterno; os justos entrarão por ele
Nas próximas semanas comemoramos duas festas: Purim, quando os judeus se libertaram de Haman e da ameaça de extermínio na Pérsia; e Pessach, quando fomos libertados da escravidão no Egito. Como preparação para este período, temos, antes de Purim, Shabat Shecalim e Shabat Zachor; e antes de Pessach, Shabat Pará e Shabat Hachódesh.
Estamos em Shabat Shecalim. Lemos na Torá (Ex.30:11-16) quando Deus ordenou que Moisés recenseasse os israelitas: ao ser contado, cada um deve doar meio shekel para os serviços no Ohel Moêd, a Tenda da Reunião. Nem os ricos devem doar mais, nem os pobres devem doar menos. Cada pessoa tem o mesmo valor diante de Deus.
Construir ou não construir portões, eis a questão
Nos grandes centros urbanos, portões com guaritas fazem parte do dia a dia e nem nos questionamos mais sobre a sua necessidade. Guardas armados, câmeras internas e grades eletrificadas protegem casas e instituições 24 horas por dia. O motivo justificado é a segurança. Imaginamos que quanto mais vemos quem se aproxima, mais seguros estamos.
Por outro lado, os temores de assalto ao patrimônio aparentemente não eram uma preocupação para Moisés. A leitura da Torá desta semana, a última do livro de Shemot (Êxodo), relata a prestação de contas de uma riqueza de materiais para construção do Mishcán, O Santuário do Testemunho. Foram 29 talentos e 730 shecalim - uma tonelada, só de ouro puro; além de três toneladas de prata e mais uma infinidade de metais, madeiras e tecidos preciosos. Ao final, podemos imaginar que Moisés disporia centenas de guardas em suas guaritas para proteger o pátio em torno do santuário. Não. Foi colocada uma tela no portão do pátio e é só. Assim Moisés deu a obra por terminada.
O que se ganha ao construir um portão com guarita?
No Talmud (Baba Batra 7b) lemos uma história que mudará o nosso foco. Havia um bondoso homem que conversava todo dia com ninguém menos do que Eliahu, o Profeta Elias. Um dia ele construiu uma guarita no portão de sua casa - e desde então Eliahu deixou de falar com ele. Por quê? Eliahu não entendia que era mais seguro conversar em casa, protegido por um guarda? Não. Para Eliahu a guarita não servia para evitar ladrões, mas para impedir a vinda dos mais pobres. A guarita evitava o cumprimento da tsedacá, ajudar ao próximo no momento de sua necessidade.
A Casa de Deus tinha diante de seu portão somente uma tela, sem guaritas nem guardas. Eram outros tempos... Mas enfim, terminada a obra, a glória de Deus preencheu o Santuário na forma de nuvem. Nem Moisés podia entrar lá nesta hora, porque o Divino não deixava lugar para mais nada. Deus nos deixou de fora. Talvez para sentirmos na pele o que é estar no lugar do outro que vem pedir auxílio no momento de necessidade, mas que fica do lado de fora de portões e guaritas. Somente quando o Divino, na forma de nuvem, eleva-se acima do espaço sagrado é que os filhos de Israel podem "entrar pelo portão" e seguir suas jornadas. O portão permite o encontro. Deus abre espaço para entrarmos, conversarmos com Eliahu e com todos, e seguirmos nossas jornadas. “Este é o portal para o Eterno; os justos entrarão por ele”. (Salmos 118:20)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O coração em chamas
sobre o incêndio no Monte Carmel, o pior da história do Estado de Israel
Rabino Gaby Dagan
rabino da Kehilá “Ohel Avraham”, Haifa, Israel
rabino do Depto de Ensino Médio do Centro Educacional “Leo Baeck”, Haifa, Israel
tradução: Uri Lam
07/12/2010, 30 de Kislev 5771, 6º dia de Chanucá
“Eu clamo a ti, Eterno, porque o fogo consumiu os pastos do deserto, e a chama abrasou todas as árvores do campo. Também todos os animais silvestres anseiam por ti, pois secaram as correntes de água e o fogo consumiu os pastos do deserto.”(Joel 1:19-20)
Na sexta-feira à tarde, enquanto as chamas sobem para o alto e o coração ainda não digere – telefonema do posto de comando de combate ao incêndio na universidade: “Queremos acender as velas de Chanucá para as forças dos incansáveis trabalhadores atuantes na área. Também precisamos de muitas sufganiot (sonhos, doces a base de óleo típicos de Chanucá).” Em pouco tempo, assim que os membros da comunidade reformista “Ohel Avraham”de Haifa prepararam mais de 300 sufganiot, providenciaram uma grande chanukiá e um violão, subimos ao coração em chamas  dos bosques do Monte Carmel. Entre carros da polícia, ambulâncias, pessoal da mídia e políticos, acendemos a terceira vela de Chanucá.
Era difícil, senão impossível separar a essência da festividade e o fato de lidar com o milagre do fogo e a vitória do espírito, das chamas que ardiam a poucos metros de distância enquanto o espírito do ser humano combatia os espíritos/ventos [ruchot, em hebraico] da natureza. Luta e força combatiam os ventos, o espírito do ser humano se debatia com a trilha das chamas que consumiam tudo o que encontravam pelo caminho.
Meu pai foi bombeiro por mais de 40 anos. Os odores das chamas, os uniformes e as cores negras da natureza não são estranhos para mim. Fiquei ali orgulhoso, apavorado e chorando pela perda das vidas e pela vitória do Judaísmo e de Israel. Nós recitamos bençãos, cantamos e acendemos velas diante dos feridos, dos mortos, dos combatentes.
Apenas algumas horas depois, no Shabat pela manhã, foi realizada uma cerimônia de Bar Mitsvá na sinagoga da Comunidade Reformista “Ohel Avraham”. Momentos antes do início, um dos convidados nos comunicou a morte de Elad Rivan, estudante de Haifa, um membro da família. Para a família não era óbvio que seguiríamos com a cerimônia de Bar Mitsvá. Mais uma vez somos obrigados a romper as linhas conhecidas e desconhecidas entre a alegria e a enorme tristeza.
Recitamos a benção “Shehecheiánu” (Que nos fizeste viver) para o jovem que se tornou adulto e alcançou a idade das mitsvot e no mesmo fôlego, com a mesmas lágrimas, recitamos o Kadish por aqueles que não mais festejarão. O discurso do jovem Bar Mitsvá foi modificado, de um otimismo que beirava a inocência para a dureza da realidade que queima nossos rostos. Nós comemoramos. Nós choramos.
No Shabat à tarde e no domingo pela manhã os alunos do Colégio Leo Baeck embalaram centenas de refeições para os bombeiros e para as famílias dos alunos residentes Usfiya, Daliat-al-Karmel, Chof haCarmel e Daniya. Os chuveiros da piscina do Centro Comunitário foram abertos para as forças de segurança para um momento de bem-estar. Nossas vidas giram em torno de momentos como estes, voltados às necessidades das famílias que sofreram e que vem sofrendo perdas.
Com a diminuição do incêndio, também diminuem as alegrias da festividade. As orações que pedem por chuvas abrem espaço para as orações que pedem por recuperação e cura. O termo “família” neste momento expandiu-se para toda a sociedade israelense - judeus, drusos e árabes como um só povo. Os lenços de cabeça das mulheres de Nir Etzion e de Osfiya servem como máscaras contra a fumaça tóxica, enquanto o fogo ainda queima nossas casas sem fazer distinção.
Hoje, nossas cabeças irão se curvar para o fato de que um pequeno fogo provocou grande escuridão. Nós rezamos pelo fim deste incêndio, pela recuperação e cura dos feridos e pelos heróis que deram suas vidas para salvar as vidas de outras pessoas.

terça-feira, 6 de abril de 2010

A Contagem do Omer - 2a Semana
Comissão Temática do Movimento para o Judaísmo Progressista
MaRaM (Conselho dos Rabinos Progressistas) de Israel.
Coordenação: Rabino Iehoiadá Amir e Naama Dafni-Kelen
tradução: Uri Lam
E contarão para vocês do dia seguinte ao dia festivo... sete semanas completas serão. Até o dia seguinte da sétima semana contarão 50 dias. (Lev. 23:15-16)

2a Semana - Din (Guevurá)
A Sefirá "Din" (Julgamento) coloca-se no paralelo oposto à de Chessed (Bondade). Espera-se que o Julgamento expresse a Soberania do Criador em Seu Mundo, mas este também abre uma porta para a "sentença pesada" - o mal, a destruição e a contaminação. A Sefirá Din também é chamada de Sefirá Guevurá (que pode ter diversas interpretações: Heroísmo, Poder, Força Masculina [de guéver, homem], etc - nota do trad.)
Nesta semana, quando no 13o dia do Omer lembramos Iom Hashoá VehaGuevurá, o Dia do Holocausto e do Heroísmo, refletimos sobre a coragem do apego à vida; a coragem daqueles que gritaram contra a perda da crença na vida, no ser humano e em Deus; a coragem daquelas que persistiram em retornar e construir, em voltar e reviver os ossos secos.
O Grito do Silêncio
Um conhecido Midrash do Talmud (Menachot 29b) conta sobre Moshé, que na hora de receber a Torá, foi levado até o Beit Midrash (centro de estudos) de Rabi Akiva. Moshé ficou impressionado com a sabedoria  brilhante de Rabi Akiva.
[Moshé] Disse diante Dele: "Soberano do Universo, mostre-me a Torá dele e me mostre a sua recompensa".
Disse-lhe [Deus]: "Vire-se para trás".
[Moshé] Voltou-se para trás e viu que batiam no seu corpo a pauladas.
[Moshé] Disse diante Dele: "Soberano do Universo, esta é a Torá ou esta é a recompensa?"
Disse-lhe [Deus]: "Silêncio! Foi assim que considerei que deveria ser."
Sobre a forte pergunta/chamada de Moshé, em outras palavras, "Será que não há sentença ou será que não há juiz?", aquele que escreveu o midrash não teria para colocar na boca de Deus outra resposta que não "Foi assim que considerei que deveria ser". Foi escolha do midrashista descrever deste modo as palavras de Moshé, e Deus ele faz o pleno oposto da ordem que coloca na boca de Deus. Não há silêncio, pois permanece a questão da crença em sua situação mais pesada.
O que fez Moshé? Será que ficou quieto ou será que continuou a levar seus questionamentos aos Céus? Qual foi para ele o sentido de receber a Torá depois desta conversa tão desorientadora? Não sabemos. Talvez tenha sido o objetivo do autor do midrash que o grito de Moshé e a resposta-não-reposta de Deus repercutissem em nossos ouvidos. Ele não quer mais do que isso, e talvez nem possa mais do que isso.
Uma testemunha diferente
Dan Feguis
Tu és o primeiro e Tu permanecerás o último,
Porque virá de Ti a sentença de julgamento em julgamento,
de sangue a sangue.
Escute o meu coração pesado no julgamento, olhe nos meus olhos.
Os que compartilham da Sua atividade, [os anjos] Michael e Gabriel
Levantam-se e reconhecem
Quando Tu disseste: Façamos o Homem,
Eles disseram Amen.

segunda-feira, 29 de março de 2010

O sentido universal da Páscoa judaica
Jaime Pinsky
O calendário registra nesta semana a Páscoa dos judeus e a dos cristãos. Ambas as comemorações tiveram a mesma origem, afastaram-se e negaram-se ao longo da história e tendem a aproximar-se novamente. O reconhecimento da origem judaica de Jesus, agora um fato religioso indiscutível, diminuiu bastante o número daqueles que apregoavam distância e até hostilidade entre os seguidores das duas religiões. Resquícios da Idade Média (quando se pregava, em púlpitos de igrejas, massacres contra os judeus pelo fato de estes, supostamente, beberem sangue de garotos católicos em suas ceias de Pessach, a páscoa judaica) fazem parte de um passado que quase ninguém quer reviver. Até a velha malhação do Judas, como metáfora do judeu supostamente traidor, mudou o seu caráter. Agora os Judas de sábado de aleluia são traidores mais reais, facilmente encontráveis no mundo político.
Os judeus fazem hoje à noite uma ceia de Pessach, e tradicionalmente se diz que ela registra "a saída dos judeus do Egito", comandados por Moisés, há uns 35 séculos. Entretanto, não foram encontradas evidências da ida ou mesmo da presença do povo hebreu no Egito, nesse período, mesmo porque ainda não havia um povo hebreu. É difícil, portanto, falar de sua saída. Com certeza poderíamos considerar a travessia (do Egito para a Terra Prometida, da escravidão para a liberdade) um mito de criação, desses que todos os povos, nações, religiões e etnias têm. Claro que havia um grande movimento de povos do deserto atrás do grande oásis que era o Egito, irrigado e fertilizado pelo Nilo. Por vezes eles se integravam e se diluíam entre a população egípcia, por vezes eram expulsos quando seu trabalho não mais era necessário, como ocorre com imigrantes de países pobres em nações mais desenvolvidas. Esses povos devem ter aprendido muito com a civilização egípcia, da qual levaram cultura material e simbólica para outros lugares, como a então terra de Canaã. Algumas tribos com esse histórico desenvolveram língua própria, cultura específica e unificaram-se em um reino, lá pelo ano 1000 a.C., sob o comando de Saul, Davi e Salomão, este poderoso o suficiente para construir o Templo de Jerusalém. Desmandos do poder e injustiças sociais enfraqueceram as monarquias (que haviam se dividido em Israel e Judá) e propiciaram o surgimento dos chamados profetas sociais -Amós e Isaías, entre outros-, que inovaram pregando o monoteísmo ético, conjunto de valores que passaram a fazer parte do patrimônio cultural da humanidade e se encontram na própria base do judaísmo (assim como do cristianismo).
Aí voltamos para o Pessach e nos perguntamos por que essa é uma comemoração milenar. Alguns responderão com o judaísmo institucional, que lamenta até hoje a destruição do Templo de Jerusalém e do poder monárquico, do qual os sacerdotes eram uma espécie de funcionário religioso. Outros acenam com o judaísmo dos escribas, a letra da lei e dos seus intérpretes, que exigem rituais imutáveis. Quem não os seguir literalmente vai "acertar suas contas com Deus nesta ou em outra vida". Esse tipo de judaísmo considera razoável uma dicotomia entre a vida cotidiana e o ritual religioso, bastando seguir este com propriedade para que os pecados, eventualmente ocorridos naquela, sejam absolvidos sem maiores problemas. E os rabis milagreiros, além dos místicos sábios, estariam aí para nos explicar "a" verdade. O problema é que a intermediação entre o judeu e seu Deus é a negação da essência do judaísmo (o monoteísmo ético), que busca igualar todos os homens e os estimula a ler e compreender o que leram, exatamente para ter acesso à palavra divina.
Entre o templo e os escribas, fico com os profetas. Um povo é um grupo com a consciência de um passado comum. Não é fundamental que o passado comum tenha realmente existido, basta a consciência da existência dele: ao escolher a herança judaica, cada indivíduo passa a ser depositário de um universo de valores. Não interessa se há 3.000 anos seus ancestrais já eram judeus, não importa se ele é descendente de cázaros judaizados durante a Idade Média ou de ucranianos convertidos após 1648. Não vem ao caso se optou por seu judaísmo há um ano ou uma semana. O importante não é a origem étnica, nem a lamentação pelo templo destruído e muito menos a prática de rituais mecanicamente executados. A grande travessia, aquela que marcou a humanidade, foi a de um mundo aético para um mundo ético, de um olhar para si mesmo para um olhar para o outro, de uma existência solitária para uma existência solidária. Sim, Pessach é uma travessia. Que só tem sentido se for feita na companhia de todos os irmãos de raça, a raça humana.


Hoje à noite tem Seder de Pessach
E o tempo em Israel virou. Faz um solzinho, mas está frio, o céu carregado e escuro - se fosse São Paulo minha avó diria que vai cair um "toró" em mais 10 minutos, mas nao é o que vai acontecer, pois aqui, afinal de contas, é Jerusalém. E venta como se Deus soltasse ventos pelas ventas...
Mas que vai chover, ah, isso vai.
Enquanto isso, com quem eu falo a garganta doi, a sensação de gripe instalada... fico imaginando como foi para quem estava gripado cruzar o mar vermelho há 3.350 anos mais ou menos...
uma novidade é comer matsá fresca - ou seja, crocante, e por incrível que pareça, saborosa.
Anotem a marca - Matsot Israel, produzido por Rekikei Carmel. 2,5 kg custaram cerca de R$15 reais.
Agora lá vou eu comprar minhas pastilhas prá dor de garganta "cushelepessach" e descansar prá estar inteiro pro seder.
Chag Sameach!