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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A Filha Perdida do Rei - Parte 1
Rebe Nachman de Breslav,  do livro Sipure Maassiot, Primeira História
tradução: Uri Lam, jan. 2011/ Shevat 5771

Respondeu e disse: No caminho contei um caso, e todo aquele que escutou, refletiu sobre se voltar a Deus. Esta é a história:
Era uma vez um rei que tinha seis filhos e uma filha – e esta filha lhe era muito importante. Ele a considerava muito querida e tinha muito prazer em estar com ela.
Certa vez, quando estava junto dela em um determinado dia, ficou irritado com ela e da sua boca escaparam estas palavras: “Der Nit Guter zal dich nemen - O Mal que lhe carregue!” À noite ela foi para o seu quarto e pela manhã ninguém sabia onde estava. Seu pai ficou muito triste e saiu para procurá-la lá e acolá.
Ao ver o quanto o rei estava entristecido, o vice-rei levantou-se e pediu para que lhe dessem um ajudante, um cavalo e dinheiro para as despesas - e partiu em sua busca. Ele a procurou muito, por muito e muito tempo, até que a encontrou (agora eu conto como ele a procurou até encontrá-la).
Ele andou de um lugar para outro por muito tempo – nos desertos, nos campos e nos bosques - e continuou a procurá-la por muito tempo mesmo. Ao caminhar pelo deserto, viu uma trilha lateral e pensou consigo mesmo: “Uma vez que eu tenho andado por tanto tempo pelo deserto e não pude encontrá-la, seguirei por esta trilha. Talvez alcance algum povoado.” E continuou andando por muito tempo.
Depois viu um castelo (que se chama Shlass) com alguns soldados em guarda permanente em torno dele.
O castelo era muito agradável, bem construído e organizado, com seus soldados. Ele temeu que estes não o permitissem entrar, mas pensou consigo mesmo: “Eu irei e tentarei.”
Deixou seu cavalo e seguiu até o castelo. Eles o deixaram entrar e nem foram ao seu encalço. O vice-rei andava de sala em sala e ninguém o seguia, até que alcançou um grande salão e observou que lá estava o rei e sua coroa, com tantos soldados lá e outros tantos cantores com instrumentos diante dele. Aquele lugar era muito agradável e bonito. Nem o rei nem ninguém o questionaram em nada.
Ali ele viu iguarias e boa comida. Levantou-se, comeu, saiu e deitou-se em um canto para ver o que aconteceria. Viu que o rei deu uma ordem para que trouxessem a rainha e eles a trouxeram. Houve muito estardalhaço e grande alegria ali. Os músicos tocavam e cantavam muito enquanto traziam a rainha. Colocaram para ela um trono e a fizeram sentar-se nele, junto ao rei. Era a princesa. E ele, o vice-rei, a viu e a reconheceu.
Depois a rainha observou e notou alguém deitado num canto e o reconheceu. Ela ergueu-se do trono, dirigiu-se até ali, tocou-o e perguntou: “Ei, você me conhece?”.
E ele respondeu: “Sim, eu lhe conheço. Você é a filha do rei que está perdida. Como você chegou até aqui?”.
“Foi quando meu pai, o rei, deixou escapar de sua boca aquelas palavras; e aqui, este lugar, é o lugar do Mal”.
Ele contou para ela que seu pai estava muito triste, que a procurava há muitos anos, e perguntou: “Como posso tirar você daqui?”.
Ela respondeu: “É impossível você me tirar daqui, a menos que escolha para si um lugar e fique lá por um ano. Durante o ano inteiro você sentirá saudades e desejará me tirar daqui. Por todo o tempo que você tiver livre, sentirá somente saudades, e pedirá, e ansiará para me tirar daqui. Você irá jejuar. No último dia deste ano você deve estar em jejum e sem dormir por nenhum instante.” Ele foi e assim o fez.
Ao passar um ano, no último dia, ele estava em jejum e não dormia. Então se levantou e foi até lá. No caminho viu uma árvore da qual cresciam maçãs belíssimas. A vista era muito tentadora e ele parou para comer uma delas. Assim que comeu a maçã, caiu em sono profundo. Ele dormiu durante muito tempo. Seu ajudante tentava acordá-lo, mas ele não acordava.
Finalmente despertou de seu sono e perguntou ao ajudante: “Onde estou eu no mundo?”
O ajudante contou ao vice-rei o que havia acontecido: “Você dormiu por muito tempo, por alguns anos, e eu me mantive com os frutos”.
O vice-rei ficou extremamente entristecido consigo mesmo. Partiu para lá e a encontrou, mas ela estava muito triste com ele: “Porque se você tivesse vindo naquele dia, teria me tirado daqui, e por causa de um único dia você fracassou! Verdade que não comer é algo muito difícil, especialmente no último dia, pois é quando o mau impulso se fortalece mais”.
A filha do rei lhe disse que agora faria uma exigência mais branda e que não mais o advertiria para não comer, porque isso é muito difícil de cumprir: “Assim sendo, volte a escolher um lugar para você, fique lá também por um ano, como antes, e no último dia você poderá comer; só não pode dormir nem beber vinho, para que não adormeça, porque o principal é o sono”. Ele foi e assim o fez. 

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Önibus Mehadrin 
"Aqui está uma descrição de um evento desagradável que me aconteceu há pouco tempo. Hoje, no final do horário de aula (em Tsur Hadassa), às seis e meia da noite mais ou menos, subi no “ônibus Mehadrin” (“Ônibus Mefagrin”) para Beitar Ilit, que fica nos territórios ocupados. Quando entrei no ônibus me dei conta de que não havia lugar para os homens se sentarem, então comecei a me preparar para ficar um bom tempo em pé. Enquanto me preparava, um dos “tsadikim” (homens “justos”) pede de algumas mulheres para que saiam de seus lugares a fim de que eu possa me sentar. Na hora recusei sua oferta. Por que as mulheres ficarão em pé e eu não? Alguns minutos depois, descobri que por milagre vagou um lugar no qual há apenas alguns minutos estava sentada uma mulher. Depois de olhar cuidadosamente para o ônibus percebi que aquelas que estavam sentadas ali passaram de algum modo mágico qualquer para outros lugares lotados de mulheres na parte de trás do ônibus. Enquanto minha consciência pesava, sentei-me no local vago. Quase comecei a chorar. Percebi imediatamente que naquela hora a mulher havia sido oprimida, que aparentemente fora reprimida desde o seu nascimento e seria reprimida até o fim de seus dias. Para descarregar a minha raiva e frustração, passei a escrever nas janelas embaçadas de vapor. Sobre as janelas escrevi pelo menos cinco vezes: “Dai ladicui hacharedi!”, “Basta da repressão charedi [ultra-ortodoxa]!”
A.H., 13 anos, jovem judeu israelense, descrevendo sua viagem de ônibus a partir de Beitar Ilit, ao lado de sua cidade, Tsur Hadassa, logo após uma aula sobre “os desafios dos direitos humanos e dos princípios de igualdade” na escola, ontem, segunda-feira 13/12/2010.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Os 50 rabinos mais influentes dos EUA
Tradução: Uri Lam
A revista norte-americana NEWSWEEK publicou a primeira lista lista por volta de abril de 2007, durante o feriado de Pessach, com a seguinte ressalva: "É uma lista subjetiva? Sim.” Agora no seu quarto ano, a lista inclui oito novos nomes e um novo rabino em primeiro lugar.
1.Yehuda Krinsky: líder do movimento Chabad-Lubavitch, Krinsky é a face contemporânea desta corrente chassídica. (2009 No. 4)
2.Eric Yoffie: representa mais de 1,5 milhão de judeus e mais de 900 sinagogas como presidente da Union for Reform Judaism (URJ). (2009 No. 8)
 3.Marvin Hier: fundador do Centro Simon Wiesenthal em Los Angeles, Hier segue em seu trabalho incansável no combate a questões como o antissemitismo, o dogmatismo e ódio. As muitas conexões de Hier com importantes líderes políticos e com figurões da indústria do entretenimento dá a ele uma plataforma internacional para falar sobre diversas questões que afetam o povo judeu. (2009 No. 2)
4.Mark Charendoff: líder no campo do futuro da filantropia judaica, Charendoff é o presidente da Jewish Funders Network, organização internacional de fundações familiares, entidades filantrópicas públicas e doadores individuais. (2009 No. 3)
5.David Saperstein: acabou de concluir seu mandato como o único rabino a servir o presidente norte americano Obama na Casa Branca na pasta de crenças religiosas e parcerias afins, Saperstein continua a atuar como uma grande influência em Washington em seu papel como diretor do  Religious Action Center (RAC) do Judaísmo Reformista. (2009 No. 1)
6.Schmuley Boteach: Autodenominado “O Rabino da América”, Boteach continua a compartilhar seus ponto de vista sobre casamento, relações familiars e relacionamento com o mundo, com presence regular no  popular The Oprah Winfrey Show, conselheiro de diversas celebridades em seus momentos de crise e com a pulbicação de seu novo livro, “The Michael Jackson Tapes”. (2009 No. 7)
7.Irwin Kula: escritor best-seller que atua  como co-presidente da CLAL (Centro Nacional Judaico de Ensino e Liderança – nos EUA). Conhecido nos EUA por seu comprometimento em reconstruir o perfil espiritual norte-americano. (2009 No. 10)
8.David Ellenson: sob sua liderança como presidente, o Hebrew Union College (HUC), de orientação reformista/progressista, continua a desenvolver, formar e apoiar as dinâmicas lideranças judaicas para o futuro. (2009 No. 5)
9.Robert Wexler: continua a influenciar gerações de estudantes e acadêmicos judeus como presidente da American Jewish University. (2009 No. 6)
10.Morris Allen: director de programa da Magen Tzedek, o selo de cashrut ético, Allen está mudando o modo como o mundo pensa o conceito de cashrut e os temas éticos que envolvem a questão de hechsher – a concessão do selo de “casher”. (Novo)
11.Uri D. Herscher: fundador, president e director geral do Skirball Cultural Center em Los Angeles. (2009 No. 9)
12.Norman Lamm: chancellor da Yeshiva University na cidade de Nova York. (2009 No. 14)
13.David Wolpe: considerado por muitos como o maior rabino de pulpit dos EUA e um dos grandes líderes do movimento Conservador, é rabino do Sinai Temple em Los Angeles. (2009 No. 11)
14.Yehuda Berg: conhecido como a liderança mundial do Kabbalah Centre. (2009 No. 13)
15.Joseph Telushkin: escritor best-seller e palestrante internacionalmente conhecido. (2009 No. 15)
16.Menachem Genack: diretor geral da Divisão de Cashrut da Orthodox Union, supervisiona e mantem diligentemente  as rigorosas exigências de cashrut em meio à série de recentes escândalos envolvendo produtos casher nos EUA. (2009 No. 17)
17.Ellen Weinberg Dreyfus: president da CCAR (Central Conference of American Rabbis), representa cerca de 2 mil rabinos reformistas e progressistas. (2009 No. 18)
18.Avi Weis: um dos líderes do movimento conhecido como Modern Orthodox, comanda o Hebrew Institute de Riverdale, Nova York. Recentemente provocou polêmica na comunidade ortodoxa com sua controversa decisão de conceder à sua estudante, Sara Hurwitz, o título de Rabá (Rabina). (2009 No. 38)
19.Jeffrey Wohlberg: presidente da Rabbinical Assembly, a associação internacional dos rabinos Conservadores. (2009 No. 19)
20.Steve Gutow: presidente e diretor geral do Jewish Council for Public Affairs, a agência de gerenciamento e relações públicas da comunidade judaica norte-americana. (2009 No. 20)
21.Yehiel Eckstein: fundador e president da International Fellowship of Christians and Jews, é reconhecido como uma liderança judaica mundial na relação com cristãos evangélicos. (Novo)
22. J.Rolando Matalon: Rabino Senior da Congregação B’nai Jeshurun (BJ) na cidade de Nova York, congregação com mais de 1.800 famílias associadas. (2009 No. 16)
23.Dan Ehrenkrantz: como presidente do Reconstructionist Rabbinical College, é reoconhecido como um dos maiores especialistas em temas ligados ao movimento judaico Reconstrucionista na história do judaísmo norte-americano. (Novo)
24.Haskel Lookstein: é o principal rabino da Ramaz School em Nova York e rabino da Congregação Kehilath Jeshurun. (2009 No. 22)
25.Sharon Kleinbaum: Rabina Sênior da Congregação Beth Simchat Torah, a maior sinagoga do mundo para judeus GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros). (2009 No. 25)
26.Jack Moline: líder espiritual da Congregação Gauds Achim em Alexandria, Vancouver, é  também o novo diretor de política pública da Rabbinical Assembly, do movimento do judaísmo Conservador. (Novo)
27.Steven Wernick: foi indicado como o novo vice-presidente executive e director geral da United Synagogue of Conservative Judaism. (Novo)
28.Art Green: decano da Escola Rabínica do Hebrew College, é reconhecido internacionalmente como um autoridade  em pensamento e espiritualidade judaica. (2009 No. 27)
29.Peter J. Rubinstein: Rabino Sênior da Central Synagogue de Nova York, congregação com mais de 1.700 famílias. (2009 No. 12)
30.M. Bruce Lustig: Rabino Sênior da maior sinagoga de Washington, a Washington Hebrew Congregation, com mais  de 3 mil membros. (2009 No. 26)
31.Sharon Brous: Fundadora da comunidade espiritual progressista de Los Angeles IKAR, Brous tem recebido atenção e aclamação internacional por sua liderança e impacto na comunidade judaica. (2009 No. 31)
32.Michael Siegel: Rabino Sênior da Congregação Anshe Emet em Chicago, também conhecido nos EUA como co-diretor geral da Comissão Heksher Tzedek, que cuida do selo de cashrut ético. (Novo)
33.Abraham Cooper: Decano associado do Centro Simon Weisenthal e do seu Museu da Tolerância, é conhecido internacionalmente como um ativista pelos direitos humanos e pelos direitos judaicos. (2009 No. 29)
34.Arthur Schneier: conhecido como o primeiro rabino a receber o Papa em sua Park East Synagogue em Nova York, também é o fundador e president da Appeal of Conscience Foundation. (2009 No. 36)
35.Ephraim Buchwald: fundador do National Jewish Outreach Program (Programa Nacional de Alcance Judaico, nos EUA), que combate casamentos inter-religiosos e assimilação. (2009 Ranking No. 35)
36.Sara Hurwitz: recebeu atenção nacional e internacional quando o rabino Avi Weiss (No. 18) concedeu a ela o título de Rabá (Rabina). Ela é considerada a primeira rabina ortodoxa ordenada nos Estados Unidos, e vem causando grande impacto nas áreas consideradas aceitáveis por mulheres ortodoxas modernas. (Novo)
37.Kerry M. Olitzky: diretor executivo do Jewish Outreach Institute, é uma das maiores lideranças rabínicas em favor de aproximação de famílias inter-religiosas e não-afiliadas nos EUA. (2009 No. 34)
38.Bradley Shavit Artson: Decano da Ziegler School of Rabbinic Studies na American Jewish University. (2009 No. 40)
39.Naomi Levy: considerada uma líder no Movimento Conservador, escritora e palestrante nacionalmente reconhecida nos EUA e fundadora e dirigente do Nashuva em Los Angeles, Programa que busca reaproximar judeus afastados. (2009 No. 39)
40.Harold Schulweis: considerado uma das principais vozes do movimento Conservador. Conhecido internacionalmente como fundador do Jewish World Watch. (2009 No. 21)
41.Marc Schneier: president e fundador da Foundation for Ethnic Understanding, que busca fortalecer as relações entre comunidades étnicas nos Estados Unidos. (2009 No. 33)
42.Zalman Schacter-Shalomi: conhecido como o fundador do movimento Jewish Renewal nos EUA. (2009 No. 45)
43.Elliot Dorff: diretor-geral do Comitê da Assembleia Rabínica para Lei e Parâmetros Judaicos, é um dos maiores líderes da equipe que trata de Halachá no Judaísmo Conservador. (2009 Ranking No. 41)
44.Bradley Hirschfield: defensor nacionalmente conhecido nos EUA pelo diálogo inter-religioso e pluralismo, é co-presidentd of CLAL. (2009 No. 42)
45.Steven Leder: Rabino Sênior do  Wilshire Boulevard Temple em Los Angeles e escritor best-seller. (volta à lista, da qual fez parte em 2008)
46.Ed Feinstein: Rabino Sênior da Congregação Valley Beth Shalom em Encino, California. (2009 No. 44)
47.David Stern: Rabino Sênior do Temple Emanu-El em Dallas, a maior congregação do Sudoeste norte-americano. (2009 No. 30)
48.Michael Paley: academic-residente e diretor do Jewish Resource Center da United Jewish Appeal (UJA) – Federação de Nova York. (2009 No. 50)
49.Jill Jacobs: especialista líder em temas de justice social judaica, rabino-residente no Jewish Funds for Justice. (2009 No. 48)
50.Mark Dratch: fundador do JSafe (Instituto Judaico de Suporte ao Ambiente Livre de Abuso), palestrante nacionalmente conhecido nos EUA e consultor em temas de violência doméstica, abuso de menores e assédio profissional na comunidade judaica. (Novo)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Uma simpática entrevista com Alejandro Eliahu

Esta simpática entrevista com Alejandro foi realizada na sinagoga Birkat Shalom, no Kibutz Gezer, em Israel. Alejandro é judeu espanhol e vem de uma família de bnei anussim, do que tem muito orgulho. Até poucos meses atrás vivia em Barcelona, onde faz parte de uma comunidade judaica liberal. Ale pensa no futuro em tornar-se rabino. Que Deus (e os amigos) lhe dê forças e coragem para esta empreitada, para que possa contribuir muito com a comunidade judaica na Espanha ou onde quer que os ventos o levem. Precisamos de mais gente como Alejandro.
abraços a todos.

domingo, 6 de junho de 2010

Ana Luiza, a médica brasileira no Exército de Israel e a Flotilha
recebi na última sexta-feira um e-mail da amiga Ana Luiza Tapia, um doce de pessoa que fez aliá há cerca de 2,5 anos e atualmente está servindo no exército, na área médica. Ela conta com suas palavras um pouco do que se passou por lá, na semana passada, quando um dos seis barcos, recebeu os soldados israelenses a cacetete, canivete, e vontade de matar um por um - algo realmente pacífico. Ana Luiza viu tudo. Ana é uma pessoa doce, dedicada aos amigos, séria em seu trabalho, e que faz o que pode para ajudar quem seja - e sou prova pessoal disso. Ana é pacifista no sentido original do termo: pessoa que deseja a paz e luta pela paz. Repasso exatamente como recebi, sem mexer em nada, e com autorização da própria Ana Luiza.
Que tenhamos todos uma semana de paz,
Uri Lam

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Oi a todos!
Primeiro quero agradecer a todos os e-mails preocupados. Eu estou bem, ótima. Eu peço desculpas por não escrever mais frequentemente, mas no exército é assim. Não temos tempo para nada. Sei que todos já estão cansados de ouvir falar do que aconteceu em Gaza nesta semana, mas como ouvi muitas asneiras por aí, resolvi contar a vocês a minha versão da história. Eu não quero que pensem que virei alguma ativista ou algo do gênero. Eu continuo a mesma Ana de sempre. Mas por ter feito parte desse episódio, não posso me abster de falar a verdade dos fatos.
EU ESTAVA LÁ! NINGUÉM ME CONTOU. NÃO LI NO JORNAL. NÃO VI FOTOS NA INTERNET OU VÍDEOS NO YOUTUBE. VI TUDO COMO FOI MESMO, AO VIVO E COM MUITAS CORES.
Como vocês sabem, eu estou servindo com médica na medicina de emergência do exército de Israel, departamento de trauma. Isso significa: medicina em campo.
4:30h da manhã de segunda-feira: meu telefone do exército começa a tocar. Possíveis conflito em Gaza? Pedido de ajuda da força médica, garantir que não faltarão médicos. Minha ordem: aprontar-me rapidamente e pegar suprimentos, o helicóptero virá me buscar na base. No caminho, me explicam a situação. Há um navio da ONU tentando furar a barreira em Gaza. Li todos os registros fornecidos pela inteligência do exército (até para entender o tamanho da situação).
O navio se aproximou da costa a caminho de Gaza. O acordo entre Israel e a ONU é que TODOS os barcos devem ser inspecionados no porto de Ashdod em Israel e todos os suprimentos devem ser transportados pelo NOSSO exército a Gaza. Isso porque AINDA HOJE, cerca de 14 mísseis tem sido lançados de Gaza contra Israel diariamente. E não podemos permitir que mais armamento e material para construção de bombas seja enviado ao Hamas, grupo terrorista que controla gaza. Dessa forma, evitamos uma nova guerra. Ao menos por agora.
O navio se recusou a parar. Disseram que eles mesmo entregariam a carga a Gaza. Assim, diante de um navio com 95% de civis inocentes (os outros 5% são ativistas de grupos terroristas aliados ao Hamas, que tramaram toda essa confusão), Israel decidiu oferecer aos comandantes do navio que parassem para inspeção em alto mar. Mandaríamos soldados para inspecionar o navio e se não houvesse armamento ele poderia seguir rumo a Gaza.
ESSA FOI UMA ATITUDE EXTREMAMENTE PACIFISTA DO NOSSO EXÉRCITO, EM RESPEITO AOS CIVIS QUE ESTAVAM NO NAVIO. E, SE NÃO HÁ ARMAMENTO NO NAVIO, QUAL É O PROBLEMA DE QUE ELE SEJA INSPECIONADO?
Os comandantes do navio concordaram com a inspeção.
5:00h - Minha chegada em Gaza. Exatamente no momento em que os soldados estavam entrando nos barcos. E FORAM GRATUITAMENTE ATACADOS: tiveram suas armas roubadas, foram espancados e esfaqueados. Mais soldados foram enviados, desta vez para controlar o conflito. Cerca de 50 pessoas se envolveram no conflito, 9 morreram. Morreram aqueles que tentaram matar nossos soldados, aqueles que não eram civis pacifistas da ONU, mas sim militantes terroristas que comandavam o grupo. Todos os demais 22 feridos entre os tripulantes do navio, foram ATENDIDOS E RESGATADOS POR NÓS, EU E MINHA EQUIPE E ENVIADOS PARA OS MELHORES HOSPITAIS EM ISRAEL.
Entre nós, 9 feridos. Tiros, facadas e espancamento. Um deles ainda está em estado gravíssimo após concussão e 6 tiros no tronco. Meninos entre 18 e 22 anos, que tinham ordem para inspecionar um navio da ONU e não ferir ninguém. E não o fizeram. Israel não disparou nem o primeiro, nem o segundo tiro. Fomos punidos por confiar no suposto pacifismo da ONU. Se soubéssemos a intenção do grupo, jamais teríamos enviados nossos jovens praticamente desarmados para dentro do navio. Ele teria sim sido atacado pelo mar. E agora todos os que ainda levantam a voz contra Israel estariam no fundo mar.
Depois de atender os nossos soldados, me juntei a outra parte da nossa equipe que já cuidava dos tripulantes. Mesmo com braceletes dizendo MÉDICO em quatro línguas (inglês, turco, árabe e hebraico) e estetoscópios no pescoço, também a nós eles tentaram agredir. Um deles cuspiu no nosso cirurgião. Um outro deu um soco na enfermeira que tentava medicá-lo. ALÉM DE AGRESSORES, SÃO TAMBÉM INGRATOS.
Eu trabalhei por 6 horas seguidas atendendo somente tripulantes do navio. Todo o suprimento médico e ajuda foram oferecidos por Israel. Depois do final da confusão o navio foi finalmente inspecionado. LOTADO DE ARMAS BRANCAS E MATERIAL PARA CONFECÇÃO DE BOMBAS CASEIRAS. ONDE É QUE ESTÁ O PACIFISMO DA ONU???
Na terça-feira, fui visitar não só os nossos soldados, mas também os feridos do navio. Essa é a política que Israel tenta manter: nós não matamos civis como os terroristas árabes. Nós não nos recusamos a enviar ajuda a Gaza. Nós não queremos mais guerra. MAS JAMAIS VAMOS PERMITIR QUE MATEM OS NOSSOS SOLDADOS.
Só milionário idiota que acha lindo ser missionário da ONU não entende que guerra não é lugar para civis se meterem. Havia um bebê no barco (que saiu ileso, obviamente): alguém pode explicar por que uma mãe coloca um bebê em um navio a caminho de uma zona de guerra? Onde eles querem chegar com isso? ELES NÃO ENTENDEM QUE FORAM USADOS COMO FERRAMENTA CONTRA ISRAEL, E QUE A INTENÇÃO NUNCA FOI ENVIAR AJUDA A GAZA E SIM GERAR POLÊMICA E CRIAR AINDA MAIS OPOSIÇÃO INTERNACIONAL.
E CONTINUAM SEM ENTENDER QUE DAR FORÇA AO TERRORISMO DO HAMAS, DO HEZBOLLAH OU DO IRÃ SÓ SIGNIFICA MAIS PERIGO. NÃO SÓ A ISRAEL, MAS AO MUNDO TODO.
E o presidente Lula precisa também entender que desta guerra ele não entende. E QUE O BRASIL JÁ TEM PROBLEMAS DEMAIS SEM RESOLVER. TEM MAIS GENTE PASSANDO FOME QUE GAZA. TEM MUITO MAIS GENTE MORRENDO VÍTIMA DA VIOLÊNCIA URBANA NO RIO DO QUE MORTOS NAS GUERRAS DAQUI. E PASSAR A CUIDAR DOS PROBLEMAS DAÍ. DOS DAQUI, CUIDAMOS NÓS.
Eu sempre me orgulho de ser também brasileira. Mas nesta semana chorei. De raiva, de raiva de ver que especialmente no Brasil, muito mais do que em qualquer outro lugar, as notícias são absolutamente destorcidas. E isso é lamentável. Não me entendam mal. Eu não acho que todos os árabes são terroristas. MAS SEI QUE QUEM OS CONTROLA HOJE É. E que esta guerra não é só contra Israel. O Islamismo prega o EXTERMÍNIO de TODO o mundo não árabe. Nós só somos os primeiros da lista negra. Por favor encaminhem este e-mail aos que ainda não entendem que guerra é guerra e que os terroristas não são coitadinhos. Eu prometo escrever da próxima vez com melhores notícias e melhor humor. Tenho algumas boas aventuras pra contar.
Um beijo a todos
Shabat Shalom
Ana

terça-feira, 1 de junho de 2010

Senhores ou Escravos da Crise? 
Congregar CIP Parashá da semana: Shelach Lechá, Sivan 5770
Uri Lam 
Muitos anos haviam se passado desde o episódio em que o povo de Israel, prestes a receber as Tábuas da Lei, perdeu a paciência, não esperou Moisés descer do Sinai e passou a adorar o Bezerro de Ouro. Moisés, por outro lado, vinha de quarenta dias de isolamento, ele e Deus, no alto do Sinai, talvez no auge da realização de sua missão diante daquela multidão. Missão cumprida, poderia estar pensando. Sob o comando de Deus, aquele velho ex-pastor de cabras os retirou do Egito, das mãos do Faraó, da vida de escravos, e estava prestes a lhes entregar leis que estabeleciam direitos e deveres. Eles eram agora todos iguais, livres! Moisés estava pleno, seus olhos brilhavam, ele conseguira. Mas não. Ao olhar para baixo, lá estavam todos adorando a divindade egípcia. Uma onda de fúria tomou conta de Moisés. E lá se foram as tábuas, as leis, os direitos e deveres ao chão, estilhaçados. Enfurecer-se é mais do que ficar nervoso. É perder as estribeiras, descontrolar-se totalmente. Em vez de compartilhar da fúria de Moisés, Deus, que vê o que se passa de outro ângulo, chama à realidade, ordena que faça um novo par de tábuas e proclama: “O Eterno é um Deus piedoso e misericordioso, demora para se enfurecer...” (Êxodo 34:6)
Agora é chegado o momento de Deus sentir-se realizado. Ele retirou o povo do Egito, das mãos do Faraó, da vida de escravos, entregou-lhes leis e deveres, e agora estava prestes a lhes entregar a Terra de Canaã, que viria a ser a Terra de Israel. Antes ordena que sejam enviados dez dos maiores líderes do povo para irem à frente, a fim de conhecerem a nova terra. Assim como Moisés levara quarenta dias para descer do Sinai, eles levaram quarenta dias para retornarem de Canaã, e com eles cachos de uvas, romãs e figos. “A terra é fértil”, dizem eles a todos, “dela emana leite e mel, porém...” – e sempre tem um porém – “seus habitantes são fortes, suas cidades são muradas, e há filhos de gigantes”. E de uma hora para outra não havia mais leite nem mel. O povo só via gigantes e muros à sua frente e se desesperou. O desespero é outro lado da fúria. “Oxalá tivéssemos morrido no Egito ou no deserto!”
Furioso, Deus se volta para Moisés: “Até quando este povo me irritará, quando acreditará em mim? Vou feri-lo de morte e o exterminarei.” Esta é a vez de Moisés, vendo a situação de fora, chamar Deus à realidade e puxar por Sua memória: “Deus, faça como me disse: o Eterno demora para se enfurecer e é grande em misericórdia”. E Deus respondeu: “Salachti kidevarêcha, perdoarei, conforme tuas palavras”.
Vejamos agora a cena em um diálogo imaginado pelos sábios do Midrash.
Deus: Vou consumi-los na minha frente!
Moisés: Soberano do Universo, Você está furioso. Um escravo − se suas ações fossem boas e escutasse o seu senhor, e este o tratasse com bondade e serenidade − não respeitaria o seu senhor. Porém um escravo de cultura deficiente, ao agir mal, respeitaria o seu senhor quando este o tratasse com bondade e serenidade, conforme está escrito: “Não ligue para a teimosia deste povo, para a sua maldade” (Deut. 9:27).
Deus: Eu os perdoarei graças a você, Moisés.
Há momentos de crise que tiram até Deus do sério. Mas a fúria é como o fogo: descontrolada, não vê nada à sua frente. Consome e acaba com tudo, o que é bom junto com o que não é. A fúria não é a melhor resposta para os momentos de crise, ao contrário, só aprofunda as dificuldades.
A Torá nos ensina que antes de “quebrar as tábuas” ou de botar fogo em tudo, é aconselhável escutar um parceiro de confiança que esteja vendo a situação de fora. A uma certa distância do calor da crise, muitas vezes é possível enxergar onde há água para apagar o fogo, encontrar uma alternativa melhor e perdoar. E o que é perdoar: esquecer? Não. Perdoar é ser capaz de buscar uma solução justa para a crise. É agir como senhor da situação, não como seu escravo, com bondade e serenidade.

sexta-feira, 9 de abril de 2010


Torá, substantivo feminino
Uri Lam
Há poucos minutos recebi uma mensagem de Wendy Graff, diretora do WTP, Projeto Mulheres da Torá. Trata-se de um seleto grupo de mulheres do mundo inteiro que se dedica nos últimos anos a escrever um Sefer Torá. Entre elas há uma brasileira, Rachel Reichardt, da Comunidade Shalom, de São Paulo. Também fui informado há pouco pelo amigo Natan Freller que sua mãe, Elka Freller, também uma grande amiga e sócia, com toda a sua família, da Congregação Israelita Paulista (CIP), participa do projeto como artista - ver no link http://www.womenstorah.com/scribes_artists.html, o último nome à esquerda. Uma honra para a CIP e para o Brasil, que conta portanto com duas brasileiras no Projeto Women`s Torah.
Não preciso falar aqui das conquistas femininas em diversos campos da sociedade nos últimos 150 anos pelo menos e que se aceleram nas últimas décadas. Alguns homens, meio perdidos, tentam ainda preservar velhos hábitos e costumes, mas outros, ainda que com alguma dificuldade, resolveram conversar com as mulheres e com elas redimensionar o espaço de cada um em cada situação.
Mas um dos campos de maior dificuldade de inserção feminina ainda é o religioso. Outro dia uma amiga dos tempos de Colégio Renascença me escreveu: “Uri, você acha certo mulher colocar tefilin?” Independente da minha resposta, ela continuará, ao que parece, achando certo ou errado - provavelmente errado - de acordo com o modo como foi educada, como se tefilin fosse algo tão masculino como as calças - que diga-se de passagem, há tempos faz parte do vestuário feminino, com raras exceções. Talvez de nada adiante estimulá-la a estudar as fontes judaicas clássicas para perceber que não se trata de certo ou errado, mas de costumes e tradições. E vejam, falamos de costumes e tradições, não de um único costume e de uma única tradição. A única tradição judaica digna deste nome é debater diversas tradições. Este é o costume, que alguns tentam sufocar.
Todo judeu e judia aprende um dia na vida, em casa, na escola, na sinagoga, nos clubes judaicos ou nos livros, que a mulher é fundamental para a continuidade do povo judeu, pois é ela quem dá à luz a uma criança judia – literalmente a “produção independente”, pois se depende do homem para dar à luz, independe do homem para trazer ao mundo um ser humano judeu. Mesmo que no movimento reformista americano se considere judeu também quem é filho(a) apenas de um homem judeu (e mãe não judia) [o movimento reformista israelense continua a considerar isto uma prerrogativa exclusivamente da mulher], isto só ocorre sob condição de que este filho(a) seja educado em escola judaica, frequente a comunidade e, atualmente, estimula-se a mãe não judia a participar junto e a converter-se ao judaísmo - o filho de uma mãe judia é considerado judeu, sem pré-condições. Mas tamanha importância ainda não se reverte no reconhecimento por alguns do direito pleno das mulheres vivenciarem sua religiosidade comunitária. Esta resistência não é somente de homens, mas também de muitas mulheres, inclusive não praticantes. Por que este receio?
Como homem, sei e sinto o fascínio e perplexidade que as mulheres causam em nós. Também a Torá nos causa fascínio e perplexidade. Suas belas histórias, suas personagens multifacetadas tanto nos preenchem de belos valores éticos quanto escancaram o lado sombrio que há em todos nós. No entanto, tanto a Torá como as mulheres trazem dentro de si o sod, o mistério que os homens nunca poderão desvendar, por mais que se esforcem.
Os homens criaram muitas justificativas para desencorajar e impedir as mulheres de realizarem uma circuncisão, colocarem Talit e Tefilin, lerem na Torá, participarem de um minián, dirigirem uma cerimônia judaica de casamento.
Vejamos então: Tsipora, mulher de Moisés, circuncidou o próprio filho (Êxodo 4:25). Em nenhum lugar do Talmud se afirma que as mulheres estão proibidas de colocar Talit ou Tefilin – não falo da Torá pois os homens não usavam talit, tefilin nem kipá na Torá; foram apetrechos criados posteriormente, comprovando mais uma vez como o judaísmo se desenvolve de modo progressivo. Seja como for, segundo as fontes judaicas as mulheres estão isentas das obrigações religiosas com horários fixos, que poderiam entrar em conflito com seus compromissos domésticos – e hoje em dia, podemos falar de compromissos domésticos exclusivamente femininos? Em caso negativo, o outro lado da moeda também é verdadeiro: não podemos mais falar em horários fixos de cumprimento de mitsvot como uma prerrogativa exclusivamente masculina.
O Talmud (Menachot 43a) nos conta que a mulher de Rabi Yehuda Hanassí, ninguém menos que o compilador da Mishná, no século 2, colocava tsitsit sob o avental. Ainda no Talmud (Eruvin 96) conta-se que Michal, filha do rei Saul, usava Tefilin, há mais de 3 mil anos – embora isso me pareça mais uma metáfora talmúdica que reforça o quanto não há proibições de mitsvot com horário fixo às mulheres desde os tempos bíblicos. Esta prática somente foi “desaconselhada” a partir do século 16, cerca de 500 anos atrás. Ou seja, talvez por pelo menos 2 mil anos o judaísmo foi igualitário e certas recomendações rituais às mulheres foram sendo criadas para garantir seu bem estar diário, aumentando seus direitos e não diminuindo, de acordo com a época em que se vivia. Mas todos sabemos que o que funciona em determinado momento pode não ser adequado para outro. Assim foi que certos favorecimentos à mulher acabaram por se tornar amarras e proibições, segundo alguns manuais religiosos medievais.
Com a Idade Média deixada para trás e o início da era moderna e contemporânea, desde o século 18 muitas “proibições” relativas às mulheres passaram a ser rediscutidas. Um ícone é a jovem Yentl, a clássica personagem de Barbra Streisand no cinema que começa estudando nossas fontes clássicas com o pai dentro de casa, de cortinas fechadas, e chega ao extremo de se vestir de homem para poder estudar numa Yeshivá, tal era o anseio de sua alma por se conectar com a sabedoria de seu povo.
Em vez de criarem-se novas práticas, o que vem ocorrendo progressivamente, de fato, é o resgate de antigas práticas. Hoje a cerimônia de Bat-Mitsvá é uma realidade estabelecida em todos os movimentos judaicos, ainda que com variações importantes e raras exceções. A leitura da Torá por mulheres — antes “proibida” — vem avançando e já é fato estabelecido há decadas em quase todas as instituições judaicas reformistas e conservadoras ao redor do mundo,  às quais nos últimos 20 anos se somam comunidades ortodoxas, como as  ortodoxas modernas Iedidia e Shirá Chadashá, em Jerusalém. Hoje em dia milhares de mulheres já leem diretamente do Sefer Torá todas as semanas, em centenas de sinagogas no mundo inteiro. Mulheres publicam livros com comentários da Torá, mulheres hoje até escrevem Sifrê Torá, figuras como Neshama Lejbowitz são extremamente respeitadas e surgem novas autoras, como Iochi Brandes, jovem autora israelense de obras de temática bíblica em Israel cujos livros somem das prateleiras das livrarias israelenses assim que são lançados – não, não são proibidos, mas vão para as mãos de leitores ávidos de conhecer uma perspectiva feminina sobre nossas tradições. Leitores de todo tipo, de ortodoxos a seculares. 
As mudanças na sociedade judaica, que presenciamos hoje, não acontecem do dia para a noite, mas devagar, progressivamente. Parece ser este o modo feminino de estabelecer mudanças: que seja devagar para se estabelecer, mas que se estabeleça de verdade e com firmeza. Assim ocorre uma vez por mês em Jerusalém, há 21 anos, no nascimento da lua, no início do mês judaico, quando dezenas de mulheres do grupo Mulheres do Kotel se reúnem junto ao Muro Ocidental para rezarem juntas e lerem na Torá. Há quem jogue cadeiras plásticas sobre elas, há quem xingue e amaldiçoe desde o lado esquerdo da mechitsá que separa homens de mulheres e faz do Kotel na prática uma sinagoga ortodoxa - mas enfim, elas continuam e provocam uma discussão mundial sobre o papel religioso da mulher no judaísmo e sobre o lugar de Jerusalem no coração e nas práticas de todos os judeus, e não apenas de uma parte deles nem apenas sob a jurisdição de um núcleo religioso.
Vejo que mesmo alguns homens que compreendem este velho-novo papel das mulheres na sociedade ainda querem, eles mesmos, estabelecer a dimensão do novo modelo de relações e a velocidade em que este deve ser instalado. Isto só demonstra a nossa ainda incapacidade de compreender os mistérios mais profundos das mulheres. Demonstra o quanto ainda não aprendemos a nos elevar para escutá-las, em vez de nos curvarmos sobre elas para repreendê-las e restringi-las.
Todas as semanas, a Torá nos desafia, a cada estudo da porção semanal, com novos mistérios e novas formas de leitura. Também gostaríamos de lê-la e compreendê-la mais rapidamente; deveríamos nos erguer, subir à Torá para escutá-la com cuidado, pois a absorção dos valores da Torá acontece devagar, dia a dia, ano após ano, a vida inteira.
Pode ser que um dos temores de alguns homens esteja no encontro entre a mulher e a Torá. A Torá e a mulher são Torat Chaim, a fonte da vida, a base fundamental de onde nascem as flores e frutos da vida judaica. Ao se encontrarem, as duas podem se dar tão bem e se reconhecerem tanto uma na outra, que nos deixem de fora deste diálogo... será este o medo?
Uma crítica à ordenação rabínica de mulheres – entre as quais há hoje rabinas ortodoxas que se unem às suas colegas reformistas, reconstrucionistas e conservadoras – é que logo haverá mais mulheres que homens exercendo funções rabínicas, o que afastará os homens deste papel, como já ocorreria em comunidades nas quais as mulheres contam para o minián e leem da Torá, em muitas das quais as mulheres já são maioria. Mas então, meu caro Moishale, o problema não está nas mulheres; elas têm compromisso, quando ela diz que irá à sinagoga ela irá - e você?
Felizes daqueles que já partilharam do prazer de ver uma mulher dirigir um estudo de Torá, ler da Torá, dirigir um serviço religioso e cantar Col Nidrê na abertura de Iom Kipur, porque descobrem que suas vozes nos elevam, não nos enfeitiçam. A voz da mulher não expõe a nudez do corpo, mas a nudez da alma.
Felizes daqueles que escutam as vozes de Sara, Rivka, Lea, Rachel, da parteiras que permitiram o nascimento de Moisés, de Neshama Leibowitz, Iochi Brandes e Ruchama Weiss, entre tantas outras de todos os tempos. Felizes daqueles que acompanham as iniciativas das mulheres para rezar, seja no Kotel ou no campo, que recebe todas as semanas há 5 anos os e-mails da Angelina com comentários da Torá como preparação para os estudos todas as segundas-feiras na CIP, que escutam o que tem a dizer a Rachel Reinhardt ou a rabina Luciana na Comunidade Shalom ou o trabalho da rabina Judith com pessoas portadoras de deficiência em Israel, e por aí vai.
A nós homens, cabe estarmos juntos, estimularmos, participarmos, estarmos juntos e à altura. A dedicação das mulheres no estudo e na prática dos valores judaicos deve nos provocar positivamente a uma dedicação maior também da nossa parte. Deste modo demonstraremos a nossa capacidade de amar tanto a Torá quanto as mulheres, e a nossa disposição em aprender a conviver com o mistério que se guarda dentro delas.
Shabat Shalom