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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

ROSH HASHANÁ - 2a manhã, 2 de Tishrê 5772 / 30 de setembro de 2011
Congregação Israelita Paulista (CIP)
Prédica/Drashá: Uri Lam
MÃO FORTE E BRAÇO ESTENDIDO
Todo dia importante, que gera grandes expectativas, que podem levar a grandes vitórias ou a grandes frustrações, a grandes alegrias ou a grandes tristezas, todo dia com o potencial de servir como divisor de águas em nossas vidas, parece ser mais longo que os outros dias. Rosh Hashaná tem todas estas características. É Iom Hadin, o Dia do Julgamento. Sempre que somos expostos a julgamento, a críticas, parece que os minutos não passam.
Rosh Hashaná, o Dia do Julgamento, não ocorre num tribunal comum. Diante de nós, como se estivesse numa bimá celestial, está Deus. E aqui na Terra, estamos nós. Alguns de nós pode pensar: como Deus pode nos avaliar, estando Ele lá, e nós aqui? No dia 12 de abril de 1961, há 50 anos, a bordo da nave Vostok 1, o cosmonauta Iuri Gagarin, primeiro cosmonauta a viajar pelo espaço, a dar uma volta completa em órbita ao redor do planeta, afirmou lá de cima: “A Terra é azul”. Se a visão de Deus for parecida com a de Iuri Gagarin, como Ele pode nos julgar, se tudo o que Ele vê é que a Terra é azul?
Por outro lado, conta-nos o Midrash Devarim Rabá, que embora Deus tenha colocado os céus nos céus e a terra na terra, veio o homem e, por obra de suas mãos, colocou tudo de cabeça para baixo.
Deus, que estava no céu, desceu para a terra, até o Monte Sinai. Por sua vez, Moisés, que estava na terra, subiu aos céus, até o Monte Sinai. Impossível não nos lembrarmos do afresco de Michelângelo, em que a “mão” de Deus quase toca a mão do Homem. Quase, mas não toca.
Nunca, jamais imaginamos Deus a segurar a Torá e a entregá-la para Moisés “em mãos”. A Mishná, no tratado Avot, com os ditos dos nossos antepassados, diz que Moisés recebeu a Torá no Sinai e a transmitiu para os demais líderes numa corrente intermitente. Al Pi Adonai, beiad Moshé – pela boca de Deus, pelas mãos de Moisés. Esta corrente de transmissão chegou até nós, hoje, início de 5772. Pelas mãos de Deus? Não! Pelos ditos de Deus, mas a obrigação de transmitir a Torá é, e deve ser, feita pelas nossas próprias mãos, pelos nossos próprios atos. Uma das principais mensagens contidas, na transmissão da Torá por Moisés, até chegar a nós é: hevú metunim badin – sejam moderados no julgamento. Bom saber. Afinal, hoje é Iom Hadin, o Dia do Julgamento.
Lemos na Torá, e também na Hagadá de Pessach, e nas nossas rezas diárias no sidur, e também em nossos machzorim de Rosh Hashaná e Iom Kipur, que Deus nos retirou do Egito beiad chazacá uvizeroá netuiá, com mão forte e braço estendido. Esta foi a frase que ecoou nos meus ouvidos nos últimos dias, e que inspirou as palavras desta manhã: Mão forte e braço estendido. O Êxodo do Egito nos remete a Pessach ─ mas este mesmo êxodo é lembrado também em Rosh Hashaná. Avinu, Malkenu, nosso Deus bondoso como um pai, e nosso Deus firme como um rei, nos tirou do Egito, com mão forte e braço estendido. A imagem da mão forte é clara: a mão poderosa de um rei. E o braço estendido? Lembro-me dos desenhos de hagadot de Pessach antigas, com um looongo braço de Deus.
Mas hoje, Rosh Hashaná, quero propor a vocês outra imagem deste looongo braço: um braço acolhedor, um braço de abraço. Enquanto Deus, nosso Rei, atua com mão forte, o mesmo Deus, nosso Pai, nos abraça e nos acolhe com o braço estendido.
Quando lemos, nesta manhã de Rosh Hashaná, que Deus ordena a Avraham Avinu para levar o seu filho Itschac, que tanto ama, para ser sacrificado, se nos colocamos no lugar de Abrahão e de Sara, podemos sentir a mão forte de Deus a esmagar o nosso pescoço, a ponto de não termos ar nem para responder um “sim”, nem um “por que, Deus?”. Por que amarrar e sacrificar o próprio filho???
Neste Iom Hadin alguns de nós podemos pensar se no ano que passou agimos como Abrahão, que se calou diante da ordem Divina de sacrificar o próprio filho. Até que ponto sacrificamos nossos filhos, nossos pais, nossos irmãos, nossos amigos, nossos funcionários, nossos colegas? Até que ponto nos calamos? Até que ponto? Até que ponto, depois de criá-los, festejá-los, alimentá-los, cuidarmos deles, rirmos junto com eles, estimulá-los, até que ponto depois nós os amarramos aos nossos próprios valores e os sacrificamos? Até que ponto estamos à beira de sacrificarmos alguém neste ano que se inicia?
Deus ordenou que Abrahão amarrasse Isaac e o sacrificasse, mas foi o próprio Abrahão quem amarrou o próprio filho, com as próprias mãos. Alguns podem dizer: “Abrahão foi fiel a Deus! Abrahão demonstrou até onde pode ir, em nome de Deus!” Mas será isso o que Deus queria de Abrahão? Será que é isso o que Deus espera de nós, neste Dia de Julgamento? Que não importa o que Ele nos diga, que não interessa o que Ele nos ordene, o importante é que façamos valer a palavra de Deus? Nem que seja matar o próprio filho?
Nós nos acostumamos a destacar, na história do sacrifício de Isaac, o fato de, no último segundo, um anjo ter impedido a mão de Abrahão de matar o próprio filho. Este teria sido o divisor de águas entre o recém-nascido povo de Israel e os demais povos da região, acostumados a sacrifícios humanos. Nós não fazemos sacrifícios humanos!!! Nós somos um povo ético! Nós não matamos à toa!!!
Quero propor hoje um outro foco, uma outra maneira de ver o sacrifício de Isaac. Vamos nos lembrar da cena: Abrahão e Isaac chegaram ao lugar que Deus ordenou que fosse feito o sacrifício. Abrahão ergueu ali um altar, preparou a lenha, amarrou seu próprio filho, com suas próprias mãos, e fez Isaac se deitar sobre o altar. Abrahão estendeu sua mão e pegou a faca para sacrificar o filho. Mão forte e braço estendido. A mão pronta para uma ação forte. O braço estendido para quê?
Neste Iom Hadin, de Rosh Hashaná, quando Deus, Nosso Pai e Nosso Rei, começa a fase final do nosso julgamento, lembramos que Ele usou a Sua mão forte para nos livrar do Faraó e da escravidão, e que nos abraçou com Seu braço estendido, como um pai e com uma mãe fazem com seus filhos.
A história de Isaac nos leva para um grande dilema: a quem estendermos o braço? Contra quem usarmos a mão forte? Um anjo de Deus aparece a Abrahão e lhe diz, lá do céu: “Abrahão, Abrahão!” E ele responde: “Hineni, estou aqui!”. O anjo está lá no céu. Abrahão está aqui, na terra. Os anjos estão tão próximos do homem que, às vezes, nos momentos críticos, podemos ouvi-los. Mas não tocá-los. E mais: eles não podem impedir nossas mãos. As obras de nossas mãos são nossa responsabilidade. Se vamos usar a nossa mão forte para nos defendermos ou para nos boicotarmos, para produzir obras de arte ou para puxar o gatilho, a decisão e o ato em si mesmo é só nosso. Mas os anjos podem falar e até gritar com a gente para pensarmos melhor antes de fazermos alguma bobagem. E na nossa história, o anjo gritou com Abrahão: “Não estenda o seu braço sobre o moço e não lhe faça nada; agora sei que você teme a Deus”. O anjo sabe, afinal, que Abrahão é temente a Deus e que faria qualquer coisa por Ele. Mas não é isso o que Deus espera de Abrahão!!!
Quanta gente, hoje em dia, faz qualquer coisa em nome de Deus? Quanta gente, hoje em dia, mata, chantageia, mente, engana, em nome de Deus? É isso o que Deus espera de nós?
O anjo impede Abrahão de sacrificar o próprio filho porque o braço estendido de um pai não serve para matar, porque o braço estendido de um pai e de uma mãe servem para abraçar!!! É como se Deus dissesse: Abrahão, eu sei que você é temente a Mim, afinal, eu sou o Seu Rei. Mas o que Eu espero de você é que você use a sua mão forte para se defender, e que você estenda o seu braço para abraçar o seu filho, não para amarrá-lo, e jamais para matá-lo! Abaixe a mão Abrahão!
Ser temente a Deus, ser religioso, acreditar em Deus é fácil. Mas é pouco. Não é isso o que Deus espera de nós. Deus espera de nós ações práticas, braços estendidos para acolher, para abraçar, para ensinar, para indicar o caminho para os nossos filhos, para os nossos amigos, para quem pudermos ajudar a seguir pelo caminho do bem. Usar somente de mão forte com nossos filhos pode significar amarrá-los aos nossos próprios valores e temores. Estender-lhes a mão e abrir espaço para que escolham seus próprios caminhos, ainda que não sejam os nossos, e abraça-los nos momentos de dificuldade, com um abraço estendido, gostoso e protetor ─ pode ser uma boa dica de o que Deus espera de nós para o ano 5772.
Shaná Tová
Uri Lam

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Parashá da semana: Ki Tetsê
Lembre-se de Amalec para não ser como ele – seja você gente com as outras pessoas
Uri Lam, para o folheto Congregar, da CIP 
“Quem sai na chuva é prá se molhar”. Muitas vezes repetimos o conhecido ditado para quem se expôs a uma situação que por sua vez levou a consequências indesejáveis. A vida lá fora é arriscada, mas para que a vida faça sentido é preciso ir à luta e se expor ao risco.
“Chove lá fora - e aqui faz tanto frio”. Na canção do compositor Lobão, apesar da chuva lá fora, deixar de sair e de enfrentar as dificuldades é ainda mais difícil: é frio e angustiante. E conforme a nossa parashá da semana, a opção de ficar dentro de si mesmo ou dentro de casa e não ir à luta não existe. A Torá não diz “se você sair à guerra” e sim “quando você sair à guerra”. Não adianta fazer de conta que as suas dificuldades não estão lá fora, nem imaginar que se ficar quietinho dentro de si mesmo, elas irão desaparecer como num passe de mágica. A questão da Torá é: quando você for sair para a guerra, como você deve agir?
Ki Tetsê nos expõe a 72 situações nada fáceis de lidar – 72 mitsvot, segundo Maimônides. Estamos no mês de Elul, o último do ano judaico. Estamos perto do prazo final para enfrentarmos nossos fantasmas antes de nos encontrarmos com Deus em Iom Kipur. São 72 oportunidades de cultivar diversas qualidades dentro de nós: clareza, equilíbrio, integridade, bondade, compaixão, generosidade, honestidade e justiça, amor por Deus e amor pelo ser humano.
É mais fácil exigir tudo isso de outras pessoas: puxa vida, ele podia ter sido mais paciente comigo; ela deveria ter sido mais generosa com aquele senhor; não é justo o que eles fizeram com aquela gente...
No entanto, o que a Torá discute esta semana é como você deve se portar quando você estiver “por cima”, quando você estiver em vantagem diante de uma pessoa em situação de fragilidade. “Quando você sair à guerra contra os seus inimigos...”. é de você que a Torá fala, não dos outros. Quando você estiver diante de outras pessoas em posição que lhe favorece, a tentação de se vingar, de dar uma lição ou de provocá-las é muito grande. Mas o que a ética judaica nos ordena é justamente o contrário: devemos aproveitar a nossa vantagem para fazer uma boa ação. Ao encontrar algo que claramente alguém perdeu, não fazer de conta que não viu, mas sim recolher e aguardar que o dono reclame o que é dele e devolver. Não cobrar juros de um empréstimo feito ao amigo em dificuldades. Não aplicar dois pesos e duas medidas para a mesma situação.
Quando você sair à luta, seja gente com quem encontrar pelo caminho e estiver passando dificuldades. Seja caloroso. Ser gente é o que Deus espera de você.

terça-feira, 16 de agosto de 2011


Parashá da Semana: Ékev
E agora Israel, o que o Eterno, teu Deus, espera de você?
Uri Lam - originalmente para o folheto "Congregar" da CIP

Há quem diga que “se” é uma palavra que não existe. Ou as coisas são de um jeito ou de outro. Se fosse... mas não é. O “se” constrói um universo paralelo no qual, se assim fosse, o mundo seria perfeito, as pessoas se respeitariam e se amariam e o único trabalho de Deus seria contemplar a Sua bela obra coletiva de criação. O perdão seria uma prática inexistente, pois não haveria o que perdoar. O Iom Kipur não existiria, pois não haveria transgressões pelas quais pagar nem erros a se reconhecer.
Se todos cumprissem as leis e estatutos divinos, metade do nosso vocabulário jamais teria existido. Viveríamos em um mundo em que somente o bem prevaleceria, sem a contraposição do mal. Não haveria guerras nem mal-entendidos. As pessoas não falariam mal das outras por trás, filhos e pais sempre se respeitariam, casais viveriam em harmonia e sem crises conjugais. Se apenas cumpríssemos todas aquelas leis...
Conta um midrash que no início, quando Deus entregou os Dez Mandamentos a Moisés e o povo de Israel afirmou “Naassê venishmá”, “Faremos e ouviremos”, Deus acreditou em nós. No entanto, não demorou muito para que o Todo Poderoso percebesse as dificuldades daquela gente insubordinável, nas palavras Dele mesmo. O Eterno então baixou as expectativas e passou a exigir somente que cumpríssemos pelo menos a segunda parte do acordo: “Ouviremos”.
E agora, Israel, o que o Eterno teu Deus espera de nós - agora que Ele sabe que somos incapazes de cumprir tudo o que prometemos? Deus parece esperar que sejamos capazes de pelo menos escutar o que Ele tem a dizer e tentar seguir por Seus caminhos, amar e respeitar as Suas criaturas e valores, “e servir ao Eterno de todo coração e com toda a alma” (Deut. 10:12). Diferente do que nos foi ordenado no Shemá – amar a Deus de todo coração, com toda a alma e com todas as forças – agora se pede para servirmos a Deus (não necessariamente amá-Lo) de todo coração e com toda a alma, mas não com todas as forças ou posses. Por um lado Deus não espera mais que sejamos perfeitos, mas por outro passa a exigir que cada um confesse seus erros, peça perdão aos seus semelhantes e a Ele mesmo, e busque ser uma pessoa melhor a cada dia e a cada ano.
Na semana passada lemos o primeiro parágrafo do Shemá e nesta lemos o segundo parágrafo. O “plano A” de Deus era que o amássemos de todo coração, com toda a alma e com todas as forças. O “plano B” é nos dar a opção: se O escutarmos de todo coração e com toda a alma, teremos vida longa sobre a terra. Se não... temos ainda a oportunidade do arrependimento e do perdão. E agora Israel?

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Um professor Waldorf judeu na Alemanha
Este texto foi publicado em uma revista voltada para Escolas Waldorf. Se interesse para mim está na postura franca do professor Samuel Ichmann, judeu alemão e professor Waldorf há mais de 30 anos, diante das acusações de antissemitismo nos meios antroposóficos e na própria educação Waldorf. Se, como visto anteriormente, em Israel a educação judaica me parece garantida em uma escola Waldorf, pelo meio judaico no qual está inserida, fora de Israel - em particular na Alemanha - as fronteiras entre as visões religiosas ficam muito porosas e, junto com elas, visões antissemitas clássicas vêm à tona. Este foi um texto que me deixou bastante incomodado.
Aqui a situação é outra: não se trata de uma escola Waldorf judaica, mas de um escola comum,  permeada por um ambiente cristão, onde leciona um professor judeu que tenta, de algum modo, transmitir algum valor judaico  - seus valores universais - a seus alunos; mas se depara com um antissemitismo clássico, para mim claro.
Não vejo o antissemitismo aqui como algo inerente à antroposofia nem à pedagogia Waldorf, mas ao ambiente que a permeia, como permeia provavelmente outros ambientes por lá.
Tampouco entendo que se deva generalizar este antissemitismo em toda a Alemanha dos dias atuais, um dos maiores defensores e parceiros de Israel, depois da barbárie nazista, onde a comunidade judaica cresce e se desenvolve a olhos vistos. Mas em oba parte este artigo me assusta, por expor claramente que as bases para o antissemitismo estão vivas, e muito vivas.
Uri Lam. 

O Que Deus É – ou o que também não  - 1a Parte 
A visão de um professor Waldorf judeu
Samuel Ichmann
Educação Viva – Revista para Escolas Steiner Waldorf
N.2 Primavera de 2007
Tradução: Uri Lam, fev. 2011
Samuel Ichmann reflete sobre a vida como um professor judeu que trabalha em uma escola Waldorf alemão, e sugere alguns pontos onde os caminhos do Judaísmo e da Antroposofia podem se cruzar

Costumamos escutar a acusação de “antissemitismo nas escolas Waldorf”, mas como é a experiência de um professor Waldorf com raízes judaicas? Depois de décadas de experiência, ele conclui que apenas citar princípios antroposóficos está longe de ser suficiente, se quisermos evitar as armadilhas da discriminação. Embora não haja tais atitudes antissemitas, os clichês sobre o Judaísmo - seja como produto do cristianismo tradicional, seja a partir de uma interpretação dogmática de Steiner - também aparecem nas escolas Waldorf.
Falar sobre ser judeu na Alemanha abre um campo minado! Estabelecem-se imediatamente desvios e armadilhas: de sentimentalismo nostálgico, do diálogo suprimido, do buraco negro da nossa resposta à crueldade praticada contra os judeus alemães, da resignação sentida em relação à destruição que a Shoá causou às esperanças de que a cultura alemã e judaica poderiam se unir novamente. Acima de tudo, há o constrangimento enorme que este tema desperta.
Mas além de todas as armadilhas e dificuldades, este ainda é um assunto à espera de uma resposta, com tudo o que ainda há para se apresentar.
Como um judeu que vive na Alemanha, na verdade, eu também percebo que aqui - e talvez só aqui - chegamos a esse ponto zero, como uma tabula rasa, de que um novo começo pode ser realmente possível. O choque do inimaginável, talvez, tenha criado um espaço onde podemos, e de fato devemos, abordar esse assunto de uma maneira completamente nova e diferente. Os estigmas de um desastre no corpo da história da Alemanha significa que cada desvio desse caminho leva diretamente ao escândalo. Seria possível o que foi relatado a partir de Hungria contemporânea acontecer aqui e agora, onde, em uma partida de futebol no estádio de Budapeste envolvendo um clube que os judeus sempre apoiaram, desde que se possa lembrar, que hooligans do outro lado começaram a gritar: “Morra, escória judaica”? Ou será que algo assim só não acontece na Alemanha porque de fato não há um time de futebol apoiado pelos judeus, e porque a maioria dos alemães nunca viu um “judeu vivo de fato”?

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Dezoito ou Dezenove Bênçãos? A Bircat haMinim
Uri Lam 
Há diversas orações que compõem o sidur, o livro judaico de orações, que muitos israelenses dizem que se os judeus que vivem fora de Israel - e que porventura não compreendam bem o hebraico - entendessem o que estão rezando, deixariam de rezar certas passagens.
Isso faz sentido em várias orações, mas na minha opinião, não é o caso da polêmica "Benção (contra) os "maldosos". Tanta polêmica que em muitas versões censuradas do Talmud (pelos que perseguiam os judeus) ela aparece como "Benção (contra) os Tsadukim (saduceus)", tradicionais adversários dos Prushim (fariseus) nos tempos talmúdicos, há cerca de 2 mil anos.
Mas é bem provável que esta oração tenha se dirigido à seita cristã que surgia no período ao redor da destruição do 2o Templo de Jerusalém. Hoje há um diálogo saudável e próspero entre lideranças do povo judeu e de diversos setores da religião cristã, que entendem que judaísmo e cristianismo têm crenças diferentes e os últimos não buscam mais, em boa parte (com raras e triste exceções) querer converter judeus ao cristianismo nem buscar convencer os judeus que é possível ser judeu e acreditar em Jesus como o Messias.
E não era esta a realidade nos tempos imediatamente posteriores à destruição do Templo Sagrado. para a então recém-criada seita cristã (que anos mais tarde se constituiria numa religião organizada), segundo o rabino Beniamin Lau (em seu livro "Chachamim"- Os Sábios, vol. 2, em hebraico), a destruição do Templo, centro da vida judaica de então, era um sinal mais do que claro de que o "povo de Israel terreno" havia sido abandonado por Deus graças aos seus pecados. E que deveriam espalhar as "boas novas"  de que uma "nova Israel" surgira, e Jesus era seu Messias.
Embora a maioria dos cristãos pós-Templo nada tenha a ver com o povo judeu - adotaram o cristianismo através do trabalho missionario de Paulo de Tarso entre diversos povos nos arredores - uma parcela bem menor de judeus havia adotado as novas crenças e tinha, segundo o rabino Lau, constrangiam e ameaçavam os valores judaicos preservados a duras penas pela geração de Iavne. Rabi Gamliel, com o intuito de deixar claro o quanto a presença daqueles não era bem vista nos novos centros de estudos e sinagogas, bem como para que os judeus não fossem confundidos com os Maaminê Ieshu haNotsri (os crentes em Jesus, o Nazareno) pelos romanos - era época também de perseguição romana aos cristãos, que só mais tarde se converteriam ao cristianismo, dando origem ao Catolicismo -  propôs a instituição de uma nova benção, a ser integrada às tradicionais Dezoito Bênçãos que formavam a principal oração judaica até então.
Conforme o rabino B. Lau, esta oração deixava bem claro a todos os que vinham às sinagogas - não para visitar, mas para converter judeus à nova crença - que para isso eles não eram bem vindos.
Dezoito bênçãos falam de agradecimento aos nossos antepassados, por terem nos legado uma tradição tão rica e bela, pedidos por saúde, prosperidade e paz. Mas como os rabinos não são bobos, a última benção acrescentada às demais dezoito da Amidá representa claramente que aqueles que nos querem mal - e querer nos fazer acreditar no que não acreditamos é nos fazer mal - não são bem vindos à nossa casa.
Bastante atual esta inclusão. Ainda hoje há aqueles que querem se passar por judeus  - e acham que estão nos fazendo um bem - para levar aos judeus uma mensagem que não é nossa. Para estes foi criada pelo modesto Shimon haKatan a Bircat HaMinim e só prá estes. Como diz o rabino B. Lau, continuam não sendo bem vindos.
abaixo uma tradução simplificada e informal da passagem do Talmud que conta um pouco desta historia. Quando tiver tempo, conto como um dos sábios abaixo, Rabi Eliezer, foi confundido com os "minim" (Maaminê Yeshu Hanotsri) e levado à "polícia" da época pelos romanos e de como ele escapou desta fria.
boa leitura! 

Talmud Bavli, Brachot 28b
versão informal e explicada: Uri Lam, fev. 2011
Eram os tempos da Mishná... (antes da destruição do 2o Templo)
Estavam reunidos, estudando juntos, um grupo de sábios. O tema do dia eram as Shemone Esre, as Dezoito Bênçãos, oração central dos serviços religiosos judaicos da semana.
No meio da conversa, Raban Gamliel afirmou: “Deve-se rezar as Shemone Esre todos os dias”. Mas como a cada dois judeus há três opiniões, entre os rabinos não poderia ser diferente. Logo veio Rabi Iehoshua e contestou: “Não! Basta uma versão abreviada, a Meêin Shemone Esre”.
Rabi Akiva sorriu para os colegas e contemporizou: “Bem, se ele tiver a reza na ponta da língua, que recite as Dezoito Bênçãos completas. Mas se não souber tudo bem, reza a versão abreviada, qual é o problema?”. 
Rabi Eliezer aproximou-se e disse: “Não sei não... desconfio de que se uma pessoa reza todos os dias a mesma coisa de modo fixo, suas preces perdem o sentido...”.
Rabi Iehoshua veio defender sua posição e a contextualizou: “Queridos amigos, vivemos tempos perigosos. muitos de nós já fomos assassinados. E se um judeu estiver passando por um lugar perigoso, o que deve fazer? Parar e rezar todas as Dezoito Bênçãos?! Correrá risco de vida! Basta que reze a versão abreviada e no final diga: ‘Eterno, salve o Teu povo, os remanescentes de Israel. Em toda situação pela qual passarem, que suas necessidades sejam atendidas por Ti. Bendito sejas Eterno, que escutas a tefilá.” (...)

Um bom tempo depois, na época da Guemará... (depois da destruição do 2o Templo)

Estavam reunidos, estudando juntos, um grupo de sábios. O tema do dia eram as Shemone Esre, as Dezoito Bênçãos, oração central dos serviços religiosos judaicos da semana. O tempo passa, e os judeus continuam estudando o que lhes foi legado por herança pelas gerações passadas, desde os tempos de Moisés no Sinai... não! Desde Avraham Avinu! Não, desde sempre! Bom, esta é outra discussão... mas vamos ao tema do dia:
Pergunta: A que correspondem as Dezoito Bênçãos?
Rabi Hilel, filho de Rabi Shmuel bar Nachmani, disse: “Pelo que aprendi, corresponde às dezoito menções ao Nome de Deus feitas pelo Rei David no Salmo 29 (Havu L’Ad-nai, benê elim)".
Rabi Iossef contestou: “Aprendi outra coisa, e me parece que a minha tradição é mais antiga do que a sua. Elas correspondem na verdade às dezoito menções ao Nome de Deus feitas na leitura do Shemá”.
Rabi Tanchum aproximou-se e comentou, daquilo que aprendeu com Rabi Iehoshua bar Levi: Amigos, quando rezamos, aprendemos que devemos rezar com todos os nossos ossos, lembram-se? Corresponde às dezoito vértebras da coluna espinhal". E ele continuou: "Quando formos rezar as Dezoito Bênçãos, devemos movimentar toda a coluna e nos abaixarmos até a última vértebra!" 
Ula disse: “Não precisa. Basta se curvar até a altura do coração, de modo que possa ver, por exemplo, uma pequena moeda no chão”.
Rabi Chanina foi mais longe: “Basta curvar a cabeça”.
E Raba arrematou: “Sim, mas só se não lhe causar dores”.

E são mesmo Dezoito Bênçãos?!

Rabi Levi disse: "Tem mais uma, a Bircat haMinim. Mas ela só foi instituída em Iavne, depois da destruição do 2º Templo, quando as perseguições romanas aumentaram e, como se isso não bastasse, passamos a ter entre nós gente que vem e tenta nos convencer de que agora vivemos um novo tempo, em que não é preciso mais fazer brit milá (circuncisão ritual), nem mitsvot (mandamentos religiosos), nem nada. Basta acreditar que o Mashiach já veio! Meus colegas, nestes tempos cruciais, a Bircat haMinim é parte integrante de nossas orações. Que Deus nos proteja - destes e daqueles!" 
Os outros se olharam e perguntaram: "Mas ela corresponde a que?"
Rabi Hilel, filho de Rabi Shmuel bar Nachmani, disse: “Corresponde a “El hacavod hir’im, do Salmo 29 do Rei David".
Os demais se olharam novamente e entenderam o recado. Hir'im, se lido de outro modo, soava como "haraím", os maus. A benção buscava proteger os judeus daqueles que, de um modo ou de outro, não os queriam bem, ou não os aceitavam como eram, com suas crenças e tradições já milenares.
Rav Iossef reforçou o sentido e afirmou: "Ela corresponde ao “Echad” (Um) da leitura do Shemá! Para deixar claro a quem entrar em nossas sinagogas e centros de estudos que para Israel, o Eterno é nosso Deus - e nosso Deus é Um só".
Rabi Tanchum relembrou e reforçou o que dissera antes, daquilo que aprendeu com Rabi Iehoshua ben Levi: “Corresponde a uma pequena vertebra no fim da espinha. Devemos nos abaixar até lá, até a última. E se doer? é para nos lembrarmos de que existem dores piores que não estamos dispostos a suportar".

Nossos sábios ensinaram que Shimon HaPaculi foi quem organizou as Dezoito Bênçãos originais, diante de Raban Gamliel, em Iavne.
Raban Gamliel perguntou aos sábios: “Não tem ninguém que possa compor a Bircat haMinim? Ela não deve ser uma benção vinda de outro lugar que não seja do coração. Não queremos mal aos outros, somente queremos distância daqueles que não nos querem bem. Quem se voluntaria?"
Shmuel HaKatan, o Pequeno, levantou-se e se voluntariou a compor a Bircat haMinim.
Conta-se que no ano seguinte ele a esqueceu e não a pronunciou. mas isto é uma outra história. 
Parashá da Semana: Tetsavê - Entre Nós: O Sagrado está na Relação
Uri Lam, para o boletim Congregar, da CIP

Rabi Chanina disse: “Virá o santo, e entrará no que é santo, irá se aproximar do que é santo, e expiará em favor de todos os santos”. (Midrash Raba: Tetsavê 38, 7)

Impressionante a capacidade de certos sábios de resumir uma parashá inteira em uma única oração. Mais impressionante ainda é a capacidade de atiçar a nossa curiosidade para a leitura da Torá desta semana. Afinal, do que Rabi Chanina está falando? Desde quando temos santos no povo judeu? Isso não é um tema judaico!, dirão alguns.
A questão da kedushá, da santidade, é parte integrante da vida judaica. Nós rezamos todos os dias na Amidá, a grande oração de nossos serviços religiosos, a inserção da Kedushá: “Cadosh, Cadosh, Cadosh, Ad-nai...” – Santo, Santo, Santo, o Eterno... (Isaías 6:3).  Não é incomum escutarmos de certas pessoas que seu intuito pessoal é ter uma vida santa. Como se faz isso? Um grande amigo me disse uma vez que “os rabinos, quando escrevem seus comentários sobre a Torá, têm uma enorme capacidade de criar boas perguntas, mas em geral não têm boas respostas”.
Vejamos o que nos conta a Torá nesta semana. Deus diz a Moisés para que dê uma ordem aos israelitas: “Tragam o mais puro azeite para manter continuamente acesa a luz no Ohel Moed, a Tenda da Reunião.” Em seguida a nossa leitura se concentra nos cohanim, os sacerdotes. Quais devem ser suas vestimentas e ornamentos, como estes devem vesti-los, como devem se portar. Tudo parece centrado neles, como se coubesse apenas ao líder religioso a obrigação de levar uma vida inspirada pelo sagrado: “E as vestimentas de santidade de Aarão depois serão para seus filhos... e serão consagrados com elas” (Êxodo 29:29).
Em diversas tradições, o líder religioso é vestido e investido por sua comunidade de uma condição especial. Alguns o chamam de pastor, outros de homem de Deus, outros ainda de sábio, guru, mestre. Atribui-se a estes homens e mulheres uma espécie de poder mágico, a capacidade sobre-humana de intervir junto a Deus em favor dos demais. Também entre nós, no povo judeu, esta prática é largamente adotada.
Nesta hora surge Rabi Chanina e nos diz que ninguém é santo sozinho. O rabino da época do Talmud estende a condição do sagrado desde a terra até os céus: “Virá o santo – Aarão; e entrará no que é santo – o micdash, o espaço sagrado; irá se aproximar do que é santo – Deus; e expiará por todos os santos - Israel”. A condição do sagrado não é uma exclusividade do líder religioso. O sagrado é inclusivo, construído e instaurado na dinâmica das relações entre o indivíduo, o lugar em que vive, Deus, e sua comunidade.
No mesmo midrash conta-se que, ao observar o sacerdote em suas roupas no mais sagrado dos espaços e no mais sagrado dos dias, o Iom Kipur, Deus não se recorda dos próprios méritos, nem da santidade do local, tampouco dos méritos do sacerdote. Deus se recorda dos méritos das tribos, do povo.
Em seu comentário para a parashá Tetsavê, o livro do Zohar - que a tradição atribui a Shimon bar Iochai - praticamente não se refere aos cohanim. Entre suas diversas vozes, escutamos a de Rabi Itschac: “A luz do alto e a luz de baixo são uma só, e o seu nome é ‘Tu’” (Tetsavê, 1). O Zohar se antecipa por séculos à brilhante obra de Martin Buber, “Eu-Tu”, que estabelece que o sagrado não está em mim nem em você, mas no verdadeiro encontro entre nós, num instante e local precisos. O sagrado está na relação: “Morarei entre os filhos de Israel e serei para ele Deus (Êxodo 29:45).
A luz permanecerá acesa enquanto alimentarmos em nossas relações – entre a comunidade, lideranças religiosas, o espaço em que nos reunimos e Deus – o processo contínuo de construção e manutenção do sagrado.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Rabinos, professores e escritores israelenses: Projeto de lei que garanta verba para batê midrash (centros de estudos) judaicos pluralistas

Dezenas assinaram um documento que convoca comissão legislativa para permitir o reconhecimento de batê midrash democráticos e que recebam verbas estatais: “O objetivo é contribuir para reforçar a identidade judaica”

Kobi Nachshoni, 03/02/2011, jornal Yediot Acharonot

Trad.: Uri Lam

Dezenas de rabinos e líderes espirituais assinaram o documento que convoca o secretário de cultura Limor Livnat e membros da Comissão de Constituição para aprovar a proposta de lei que reconheça os batê midrash judaicos democráticos. A proposta, enviada pelo membro da Knesset Zevulun Orlev e a rede de Batê Midrash, destina-se à tarefa de fornecer verbas a estas instituições. Entre os signatários estão os professores Zeli Gurevich, Ariel Hirshfeld, Ioram Yuval, Iedidia Stern, Avigdor Sheinan e Iuli Tamir; os escritores Shimon Adaf, Chaim Beer, Iochi Brandes e Chaiota Deutsch; e os rabinos Beni Lau, Michael Melchior, Yuval Sharlev e Shai Peiron.

Os signatários concordam que “a finalidade dos centros de estudos é contribuir para reforçar a identidade judaica e o estabelecimento de valores israelenses comuns aos judeus em Israel e no mundo, ligados à cultura atual, à herança judaica e ao renascimento do povo judeu em sua terra”. No projeto de lei está escrito que os Batê Midrash atuam junto a um público diversificado – religioso, tradicional e laico – “dentro de uma riqueza capaz de ensinar a diversidade explícita da cultura do povo de Israel ao longo de suas gerações, através da comparação e da criatividade interpretativa, que geram a produção de uma relação pessoal entre aquele que aprende e as fontes de referência judaicas”.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Parashat Hashavua (leitura semanal da Torá): Terumá
originalmente publicado no semanário "Congregar" da CIP em 2010
Uri Lam 
Façam-me um Santuário, e lá estarei presente com vocês
Era uma vez um rei que tinha uma única filha. Certo dia um nobre veio visitá-lo e se apaixonou perdidamente por ela. Conversou com o rei, declarou sua intenção de casar-se e levá-la para sua casa. O rei respondeu: “Meu caro, a sua noiva é a minha única filha. Não posso me separar dela, mas também não posso lhe dizer que não a leve com você”.
E agora, a filha fica ou a filha vai? Este é um dilema comum no nosso dia a dia, em nossas vidas. Quando um casal se apaixona e decide se casar ou viver junto, é natural que queira construir o seu próprio lar fora da casa dos pais. Mas para o pai e para a mãe todo filho é filho único, mesmo que sejam muitos os filhos e filhas. E não é fácil separar-se de nenhum deles. Alguns psicólogos dizem que este é o motivo da emoção e do choro durante a cerimônia de casamento: o desejo de que o filho ou filha fique, e ao mesmo tempo o desejo que ele ou ela vá e construa a sua própria família.
E como o rei da nossa história solucionou o conflito? Ele propôs ao genro: “Você me fará um grande bem se, em todo lugar onde for morar, construir um quartinho para mim de modo que eu possa estar presente com vocês”. (Midrash Raba, Terumá) 
Aprendemos no Zohar que toda sinagoga é um santuário. Quando o povo de Israel se espalhou pelo mundo, cada um de nós foi visto por Deus como a filha única do rei. Ele sabia que tínhamos que partir, mas ao mesmo tempo não abria mão de ficar longe de nós. Não importa se fôssemos para a Babilônia no passado ou para algum país da Europa, para os Estados Unidos, Japão ou Índia, para a Argentina ou Brasil. Onde quer que criássemos nossas famílias, Deus só pediu que lá houvesse um quartinho para Ele, de modo que pudesse estar junto de nós.
A sinagoga é este quartinho. Mas não é o único aposento da casa. Nossa congregação, ao longo de seus quase 74 anos, construiu muitos outros espaços: a escola judaica, os movimentos juvenis, o Lar das Crianças, o departamento de pessoal e financeiro, a Idade de Ouro, a cozinha, salões de festas e de reuniões, a bolsa de empregos, a Chevra Kadisha, a sala da música, a biblioteca, a comunicação, o rabinato, o culto, a lojinha, uma casa no campo, até mesmo um site, o nosso espaço virtual na Internet. Deus tem o Seu quartinho, cujas portas estão abertas para todos os moradores e convidados, mas certamente circula por todos os demais cantos desta enorme Casa Israelita Paulista. 
No midrash, quando o rei propôs ao futuro genro que construísse um quartinho para ele no novo lar, a sua intenção era clara: ele não queria ficar sozinho, mas sim perto da família. O Zohar nos conta que quando a Shechiná se aproxima e vem à sinagoga mas as pessoas não vêm, Ela se pergunta: “Por que Eu vim e não tem ninguém?” De nada adianta uma casa linda, com um quarto de rei, se não houver gente circulando, rezando, estudando, conhecendo-se, doando-se, trabalhando. De nada adiantam os quadros mais lindos e a melhor infraestrutura se não houver crianças brincando, jovens dançando, música tocando – e tudo isso em harmonia, em uma mesma respiração de um único ser vivo: o povo de Israel.
Tudo o que esta congregação nos proporciona nos foi dado como o legado de uma tradição milenar que está à nossa disposição. Como diz um amigo querido, os direitos autorais do que temos aqui nos foram entregues por Deus e pertencem ao povo judeu. A terumá, a doação que Ele espera de nós, é a nossa presença nesta casa, é ocupar o espaço, homens e mulheres, crianças e adultos de todas as idades, para levarmos ao limite e colocarmos em prática todo o potencial colocado ao nosso dispor.
Deus nos deu a Sua Torá e nos pediu para não a abandonarmos. Nossa retribuição é dar à Presença Divina, à Shechiná, a nossa presença, as nossas ações. Se assim for, Deus estará sempre presente e feliz em viver na mesma casa que nós.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A Filha Perdida do Rei - parte final

O vice-rei continuou por muitos e muitos anos a procurar, até que encontrou um homem também imenso como os anteriores, que também carregava uma árvore enorme como os anteriores. O homem fez as mesmas perguntas que os outros e o vice-rei voltou a contar para ele tudo o que ocorrera como já fizera anteriormente. Também este o desencorajou, mas o vice-rei insistiu outra vez.
Então o terceiro homem disse para o vice-rei que por ele convocaria todos os ventos e os consultaria. Ele os convocou e todos os ventos vieram. Ele perguntou a todos eles, mas nenhum sabia de tal montanha nem castelo, como antes.
O terceiro homem disse para o vice-rei: “Você não percebe a bobagem que lhe contaram?”
O vice-rei começou a chorar muito, e disse: “Eu sei que existe, tenho certeza!” Enquanto isso, viu que outro vento havia chegado.
O capitão dos ventos estava muito irritado com este vento: “Porque você se atrasou em chegar? Eu não determinei que todos os ventos deveriam vir? E por que você não veio com eles?”
Ele respondeu: “Eu me atrasei porque precisava levar uma princesa até uma montanha de ouro e a um castelo de pérolas”. O vice-rei ficou muito feliz.
O capitão dos ventos perguntou ao vento: “O que há de precioso lá (ou seja, que coisas lá são consideradas valiosas e importantes)?”
O vento respondeu: “Tudo lá é muito precioso”.
O capitão dos ventos disse ao vice-rei: “Uma vez que você já há muito tempo tem procurado por ela e pelo tanto de esforços que você já fez, talvez agora esteja com dificuldades financeiras. Por isso eu lhe ofereço este recipiente; quando você colocar a sua mão dentro dele, receberá o dinheiro que precisar”.
E mandou que o vento o levasse até lá. O vento da tempestade veio, carregou-o até lá e o levou até o portão. Lá havia soldados que não permitiram a entrada na cidade, mas ele colocou a mão no recipiente, retirou algum dinheiro, subornou-os e assim entrou na cidade – e era uma cidade muito agradável.
O vice-rei chegou até um nobre e pagou pela estadia, pois era preciso ficar lá e seria necessário grande sabedoria e inteligência para tirar a filha do rei dali.
E como ele a tirou? Ele não contou. Mas no final a tirou.
(Releia desde o início e você irá perceber metáforas maravilhosas nesta história).

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Parashá da Semana: Vaishlach
Uri Lam 
(para o folheto semanal Congregar, CIP, www.cip.org.br)
Pra lá deste quintal era uma noite que não tem mais fim. Pois você sumiu no mundo sem me avisar e agora eu era um louco a perguntar: o que é que a vida vai fazer de mim? (Chico Buarque) 
Jacob finalmente deixa a casa de seu sogro Lavan para trás, mas ao por o pé na estrada é literalmente atingido por mensageiros de Deus. Já na estrada, agora é ele quem envia mensageiros até Esaú. Os mensageiros retornam e relatam: “Fomos até seu irmão. Ele também vem na sua direção – e vem muita gente com ele.” Ciente de que, sendo o filho caçula, trapaceou e tomou de Esaú os direitos de filho mais velho, mesmo após tantos anos sem se encontrarem, Jacob teme a vingança como certa e sente muito, muito medo. Não que Esaú tenha lhe feito algum mal ao longo destes anos. Nem os mensageiros de Jacob dão a entender, objetivamente, que o irmão vem ao seu encontro para atingi-lo, feri-lo, matá-lo. Por enquanto, Jacob só foi atingido mesmo por anjos de Deus. De que forma? Só ele e Deus sabem. 
Contudo, certo de que o pior está por vir, Jacob rearranja todo o seu acampamento e o divide em dois. Ileso não escapará, isso é certeza. Tudo - assim parece acreditar - está nas mãos de Esaú, vingativo, sedento para devolver com juros pelo dano que ele Jacob, o queridinho da mamãe, o trapaceiro, lhe causou no passado.
Por que Jacob sente tanto medo? Outra forma de perguntar é: de que Jacob sente tanta culpa? Ele já havia sido atingido pelos mensageiros de Deus ao sair da casa do sogro. Teriam sido estes os mesmos mensageiros que ele próprio enviou até Esaú com mensagens de paz e amor para apaziguá-lo? E se nem anjos de Deus foram capazes de tamanha proeza? E se Esaú de verdade quiser mesmo é matá-lo e lhe arrancar a cabeça pelo pescoço com os próprios dentes?
Tenho a clara sensação de que Jacob projetava em Esaú as suas próprias culpas. Ele se sente a mais insignificante das criaturas, incapaz até mesmo, ao fazer suas preces, de dizer “Meu Deus”. Deus é o Deus de Abrahão e de Isaac, que foram dignos disso, mas não é o Deus dele, Jacob. “Eu diminuí”, diz. Ele se dá conta de que seus atos do passado não oferecem ameaça somente a si mesmo nem apenas ao seu patrimônio material, mas também à sua família, aos seus filhos, ao seu nome e ao de sua descendência no futuro. “Eu diminuí, dentre todas as bondades e dentre toda a verdade que Tu fizeste...” Jacob intui que falhou no aspecto legal, pois não fez o era justo; e no aspecto moral, ao não agir de acordo com o que se pode chamar de bondoso. Jacob, através dos próprios atos, excluiu a si mesmo de dois acampamentos: o da justiça e o da bondade. “Eu diminuí”.
Há conserto para nossas culpas? Há conserto para os erros do passado, mesmo aqueles cometidos em um passado distante? A resposta é difícil: nem sempre. Há aqueles que simplesmente deixam para lá, na esperança de que as lembranças sejam aos poucos apagadas pelo tempo. Há aqueles que, conscientes ou não, dirigem suas vidas por caminhos que, mais cedo ou mais tarde, os levarão ao encontro com pessoas a quem atingiram no passado – e tanto temem o encontro quanto o aguardam. E há aqueles que se dão conta de que há dois acampamentos nos quais o acerto de contas com o passado precisa ser travado; no mundo externo e no mundo interno - e partem para o enfrentamento.Conta-nos o Midrash: “[Jacob] os fez cruzar o rio” (Gênesis 32:24) – ele fez de si mesmo uma ponte que pegava daqui e entregava ali.” [Bereshit Raba] No caminho em direção a Esaú, Jacob fez de si mesmo uma ponte entre seu passado e seu futuro; entre o reconhecimento da culpa diante de Deus e diante de seu irmão; entre o reconhecimento e o enfrentamento da culpa; entre os tempos de irresponsabilidade e os de assumir a responsabilidade por seus atos.
“O mundo inteiro é como uma ponte estreita: o principal é não ter medo”, dizia Rebe Nachman de Breslav. Jacob tinha diante de si um rio caudaloso de muitos medos, mas fez de si mesmo uma ponte, cruzou o rio e enfrentou seus medos. Ele saiu ferido, é verdade. Mas foi assim que Jacob tornou-se Israel: aquele que enfrentou [seus medos diante de] Deus e [diante dos] outros seres humanos – e os venceu.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Congregar (CIP) Parashát Balac
A Torá do lado de fora e nós do lado de dentro? 
Uri Lam

Durante uma aula de Talmud nos foi pedido para escrever, na língua materna, o que viesse à mente sobre a frase: “A Torá do lado de fora e nós do lado de dentro”. Ao apresentar o que escrevi, em vez da ‘tradução simultânea’ para o hebraico, me foi pedido para ler... em português. Eu falava aos colegas numa língua que eles não entendiam. A sensação era perturbadora, pois por um lado me senti dono de uma informação à qual eles só teriam acesso se eu quisesse. Mas também me senti sozinho dentro de mim, com a Torá do lado de fora.
Foi quando me deparei com esta estranha passagem do Talmud: “Moisés escreveu o seu livro [a Torá] e a parashat Bilam” (Baba Batra 70b). Afinal, o relato de Bilam está dentro ou fora da Torá? Mas se nesta semana lemos na Torá que Bilam foi assediado por Balac, rei de Moav, para amaldiçoar o povo de Israel e no fim o abençoou com “Quão boas são as tuas tendas, Jacob, as tuas moradas, Israel”, o Ma Tovu que cantamos quando entramos na sinagoga!
Conta-se que Rabi Meir e Rabi Natan, desgostosos com Raban Shimon ben Gamliel, tramaram derrubá-lo do cargo de presidente do Bet Midrash (casa de estudos), mas o golpe fracassou e Shimon ben Gamliel ordenou que fossem expulsos, colocados para fora. No entanto, os dois contribuíam tanto para a compreensão da Torá que Rabi Iossei protestou: “A Torá fica do lado de fora e nós do lado de dentro?!” Shimon ben Gamliel decidiu que eles poderiam retornar ao Bet Midrash, mas de agora em diante os ensinamentos de Rabi Meir seriam citados como “acherim” (os outros) e os de Rabi Natan como “iesh omrim” (há quem diga) (Talmud, Horaiot 13b). Foi o modo encontrado para que a Torá deles permanecesse dentro da sabedoria judaica.
Mas e Bilam, o que alguém como ele, pronto para nos amaldiçoar, faz dentro da Torá? Ele é um profeta à altura de Moisés, o que levou Balac a convocá-lo como a derradeira chance de derrotar Israel. Onde está a diferença? Moisés faz o que Deus ordena, às vezes concorda, outras vezes discute ou se cala, mas age com integridade: ele faz o que pensa que deve ser feito. Bilam faz o que Deus ordena, mas o que faz nem sempre é o que pensa que deveria ser feito. Moisés ama os animais; o amor por seu rebanho o leva a encontrar Deus. Bilam maltrata o burro que só faz servi-lo, a ponto do animal ter que falar “o que eu te fiz para você me bater três vezes?” para Bilam entender que este salvara a sua vida. Em outras palavras: a Torá de Moisés − a sua relação com Deus, com os seres humanos e com as criaturas – é completamente diferente da Torá de Bilam.
Mesmo assim, lemos esta semana o relato sobre Bilam. Dentro da Torá. Mesmo que o Talmud diga que Moisés escreveu a sua Torá e o relato de Bilam em separado, é fato que Moisés não deixou a “Torá de Bilam” de fora da sua Torá. Que bom. O mesmo Bilam que poderia ter sido um pesadelo para Israel foi quem nos brindou com o Ma Tovu.
Conta-se que quando Amimar, Mar Zutra e Rav Ashi estavam juntos, foi proposto que cada um dissesse aos demais algo que jamais haviam escutado antes. Um deles falou: “Quem tiver tido um sonho e não souber dizer o sonhou, levante-se e diga: “Senhor do Universo... entre os sonhos que tive, dos que precisarem de cura, que sejam curados como pelas águas amargas das mãos de Moisés... e assim como Você fez com que a maldição de Bilam se tornasse uma benção, faça com que meus sonhos venham para o bem.” (Talmud, Brachot 55b)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Senhores ou Escravos da Crise? 
Congregar CIP Parashá da semana: Shelach Lechá, Sivan 5770
Uri Lam 
Muitos anos haviam se passado desde o episódio em que o povo de Israel, prestes a receber as Tábuas da Lei, perdeu a paciência, não esperou Moisés descer do Sinai e passou a adorar o Bezerro de Ouro. Moisés, por outro lado, vinha de quarenta dias de isolamento, ele e Deus, no alto do Sinai, talvez no auge da realização de sua missão diante daquela multidão. Missão cumprida, poderia estar pensando. Sob o comando de Deus, aquele velho ex-pastor de cabras os retirou do Egito, das mãos do Faraó, da vida de escravos, e estava prestes a lhes entregar leis que estabeleciam direitos e deveres. Eles eram agora todos iguais, livres! Moisés estava pleno, seus olhos brilhavam, ele conseguira. Mas não. Ao olhar para baixo, lá estavam todos adorando a divindade egípcia. Uma onda de fúria tomou conta de Moisés. E lá se foram as tábuas, as leis, os direitos e deveres ao chão, estilhaçados. Enfurecer-se é mais do que ficar nervoso. É perder as estribeiras, descontrolar-se totalmente. Em vez de compartilhar da fúria de Moisés, Deus, que vê o que se passa de outro ângulo, chama à realidade, ordena que faça um novo par de tábuas e proclama: “O Eterno é um Deus piedoso e misericordioso, demora para se enfurecer...” (Êxodo 34:6)
Agora é chegado o momento de Deus sentir-se realizado. Ele retirou o povo do Egito, das mãos do Faraó, da vida de escravos, entregou-lhes leis e deveres, e agora estava prestes a lhes entregar a Terra de Canaã, que viria a ser a Terra de Israel. Antes ordena que sejam enviados dez dos maiores líderes do povo para irem à frente, a fim de conhecerem a nova terra. Assim como Moisés levara quarenta dias para descer do Sinai, eles levaram quarenta dias para retornarem de Canaã, e com eles cachos de uvas, romãs e figos. “A terra é fértil”, dizem eles a todos, “dela emana leite e mel, porém...” – e sempre tem um porém – “seus habitantes são fortes, suas cidades são muradas, e há filhos de gigantes”. E de uma hora para outra não havia mais leite nem mel. O povo só via gigantes e muros à sua frente e se desesperou. O desespero é outro lado da fúria. “Oxalá tivéssemos morrido no Egito ou no deserto!”
Furioso, Deus se volta para Moisés: “Até quando este povo me irritará, quando acreditará em mim? Vou feri-lo de morte e o exterminarei.” Esta é a vez de Moisés, vendo a situação de fora, chamar Deus à realidade e puxar por Sua memória: “Deus, faça como me disse: o Eterno demora para se enfurecer e é grande em misericórdia”. E Deus respondeu: “Salachti kidevarêcha, perdoarei, conforme tuas palavras”.
Vejamos agora a cena em um diálogo imaginado pelos sábios do Midrash.
Deus: Vou consumi-los na minha frente!
Moisés: Soberano do Universo, Você está furioso. Um escravo − se suas ações fossem boas e escutasse o seu senhor, e este o tratasse com bondade e serenidade − não respeitaria o seu senhor. Porém um escravo de cultura deficiente, ao agir mal, respeitaria o seu senhor quando este o tratasse com bondade e serenidade, conforme está escrito: “Não ligue para a teimosia deste povo, para a sua maldade” (Deut. 9:27).
Deus: Eu os perdoarei graças a você, Moisés.
Há momentos de crise que tiram até Deus do sério. Mas a fúria é como o fogo: descontrolada, não vê nada à sua frente. Consome e acaba com tudo, o que é bom junto com o que não é. A fúria não é a melhor resposta para os momentos de crise, ao contrário, só aprofunda as dificuldades.
A Torá nos ensina que antes de “quebrar as tábuas” ou de botar fogo em tudo, é aconselhável escutar um parceiro de confiança que esteja vendo a situação de fora. A uma certa distância do calor da crise, muitas vezes é possível enxergar onde há água para apagar o fogo, encontrar uma alternativa melhor e perdoar. E o que é perdoar: esquecer? Não. Perdoar é ser capaz de buscar uma solução justa para a crise. É agir como senhor da situação, não como seu escravo, com bondade e serenidade.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Preserve e Aprenda - Midrash baseado no livro de Devarim (Deuteronômio)
tradução: Uri Lam
Midrash Halachá - Sifrê (sobre Deuteronômio, Parashát Reê)
Shamor veshamata – preserve e escute (aprenda)
Se escutar um pouco, no final você escutará muito.
Se preservar um pouco, no final você preservará muito.
Se preservar o que escutar, no final você preservará o que ainda não escutou.
Ao preservar o que você tem, no final você preservará para o futuro vindouro.
Outra coisa: quem tiver o mérito de estudar Torá, este mérito é seu e de todas as suas gerações por todos os tempos.
Outra coisa:  “Preserve e escute” – todo aquele que não se dedicar aos estudos não terá como agir; "Estas palavras que Eu te ordeno” – que você tenha por uma mitsvá simples a mesma afeição que tem por uma mitsvá difícil (Talmud, Avot 2)
Você fará o que é bom e o que é correto
“O que é bom aos olhos de Deus e o que é correto aos olhos das pessoas” - palavras de Rabi Akiva.
Rabino Ishmael diz: “O que é correto aos olhos das pessoas e o que é bom aos olhos de Deus”. E ele continua: “E é considerado bom e bem compreendido, aos olhos de Deus e do ser humano” (Provérbios 3).