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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

ROSH HASHANÁ - 2a manhã, 2 de Tishrê 5772 / 30 de setembro de 2011
Congregação Israelita Paulista (CIP)
Prédica/Drashá: Uri Lam
MÃO FORTE E BRAÇO ESTENDIDO
Todo dia importante, que gera grandes expectativas, que podem levar a grandes vitórias ou a grandes frustrações, a grandes alegrias ou a grandes tristezas, todo dia com o potencial de servir como divisor de águas em nossas vidas, parece ser mais longo que os outros dias. Rosh Hashaná tem todas estas características. É Iom Hadin, o Dia do Julgamento. Sempre que somos expostos a julgamento, a críticas, parece que os minutos não passam.
Rosh Hashaná, o Dia do Julgamento, não ocorre num tribunal comum. Diante de nós, como se estivesse numa bimá celestial, está Deus. E aqui na Terra, estamos nós. Alguns de nós pode pensar: como Deus pode nos avaliar, estando Ele lá, e nós aqui? No dia 12 de abril de 1961, há 50 anos, a bordo da nave Vostok 1, o cosmonauta Iuri Gagarin, primeiro cosmonauta a viajar pelo espaço, a dar uma volta completa em órbita ao redor do planeta, afirmou lá de cima: “A Terra é azul”. Se a visão de Deus for parecida com a de Iuri Gagarin, como Ele pode nos julgar, se tudo o que Ele vê é que a Terra é azul?
Por outro lado, conta-nos o Midrash Devarim Rabá, que embora Deus tenha colocado os céus nos céus e a terra na terra, veio o homem e, por obra de suas mãos, colocou tudo de cabeça para baixo.
Deus, que estava no céu, desceu para a terra, até o Monte Sinai. Por sua vez, Moisés, que estava na terra, subiu aos céus, até o Monte Sinai. Impossível não nos lembrarmos do afresco de Michelângelo, em que a “mão” de Deus quase toca a mão do Homem. Quase, mas não toca.
Nunca, jamais imaginamos Deus a segurar a Torá e a entregá-la para Moisés “em mãos”. A Mishná, no tratado Avot, com os ditos dos nossos antepassados, diz que Moisés recebeu a Torá no Sinai e a transmitiu para os demais líderes numa corrente intermitente. Al Pi Adonai, beiad Moshé – pela boca de Deus, pelas mãos de Moisés. Esta corrente de transmissão chegou até nós, hoje, início de 5772. Pelas mãos de Deus? Não! Pelos ditos de Deus, mas a obrigação de transmitir a Torá é, e deve ser, feita pelas nossas próprias mãos, pelos nossos próprios atos. Uma das principais mensagens contidas, na transmissão da Torá por Moisés, até chegar a nós é: hevú metunim badin – sejam moderados no julgamento. Bom saber. Afinal, hoje é Iom Hadin, o Dia do Julgamento.
Lemos na Torá, e também na Hagadá de Pessach, e nas nossas rezas diárias no sidur, e também em nossos machzorim de Rosh Hashaná e Iom Kipur, que Deus nos retirou do Egito beiad chazacá uvizeroá netuiá, com mão forte e braço estendido. Esta foi a frase que ecoou nos meus ouvidos nos últimos dias, e que inspirou as palavras desta manhã: Mão forte e braço estendido. O Êxodo do Egito nos remete a Pessach ─ mas este mesmo êxodo é lembrado também em Rosh Hashaná. Avinu, Malkenu, nosso Deus bondoso como um pai, e nosso Deus firme como um rei, nos tirou do Egito, com mão forte e braço estendido. A imagem da mão forte é clara: a mão poderosa de um rei. E o braço estendido? Lembro-me dos desenhos de hagadot de Pessach antigas, com um looongo braço de Deus.
Mas hoje, Rosh Hashaná, quero propor a vocês outra imagem deste looongo braço: um braço acolhedor, um braço de abraço. Enquanto Deus, nosso Rei, atua com mão forte, o mesmo Deus, nosso Pai, nos abraça e nos acolhe com o braço estendido.
Quando lemos, nesta manhã de Rosh Hashaná, que Deus ordena a Avraham Avinu para levar o seu filho Itschac, que tanto ama, para ser sacrificado, se nos colocamos no lugar de Abrahão e de Sara, podemos sentir a mão forte de Deus a esmagar o nosso pescoço, a ponto de não termos ar nem para responder um “sim”, nem um “por que, Deus?”. Por que amarrar e sacrificar o próprio filho???
Neste Iom Hadin alguns de nós podemos pensar se no ano que passou agimos como Abrahão, que se calou diante da ordem Divina de sacrificar o próprio filho. Até que ponto sacrificamos nossos filhos, nossos pais, nossos irmãos, nossos amigos, nossos funcionários, nossos colegas? Até que ponto nos calamos? Até que ponto? Até que ponto, depois de criá-los, festejá-los, alimentá-los, cuidarmos deles, rirmos junto com eles, estimulá-los, até que ponto depois nós os amarramos aos nossos próprios valores e os sacrificamos? Até que ponto estamos à beira de sacrificarmos alguém neste ano que se inicia?
Deus ordenou que Abrahão amarrasse Isaac e o sacrificasse, mas foi o próprio Abrahão quem amarrou o próprio filho, com as próprias mãos. Alguns podem dizer: “Abrahão foi fiel a Deus! Abrahão demonstrou até onde pode ir, em nome de Deus!” Mas será isso o que Deus queria de Abrahão? Será que é isso o que Deus espera de nós, neste Dia de Julgamento? Que não importa o que Ele nos diga, que não interessa o que Ele nos ordene, o importante é que façamos valer a palavra de Deus? Nem que seja matar o próprio filho?
Nós nos acostumamos a destacar, na história do sacrifício de Isaac, o fato de, no último segundo, um anjo ter impedido a mão de Abrahão de matar o próprio filho. Este teria sido o divisor de águas entre o recém-nascido povo de Israel e os demais povos da região, acostumados a sacrifícios humanos. Nós não fazemos sacrifícios humanos!!! Nós somos um povo ético! Nós não matamos à toa!!!
Quero propor hoje um outro foco, uma outra maneira de ver o sacrifício de Isaac. Vamos nos lembrar da cena: Abrahão e Isaac chegaram ao lugar que Deus ordenou que fosse feito o sacrifício. Abrahão ergueu ali um altar, preparou a lenha, amarrou seu próprio filho, com suas próprias mãos, e fez Isaac se deitar sobre o altar. Abrahão estendeu sua mão e pegou a faca para sacrificar o filho. Mão forte e braço estendido. A mão pronta para uma ação forte. O braço estendido para quê?
Neste Iom Hadin, de Rosh Hashaná, quando Deus, Nosso Pai e Nosso Rei, começa a fase final do nosso julgamento, lembramos que Ele usou a Sua mão forte para nos livrar do Faraó e da escravidão, e que nos abraçou com Seu braço estendido, como um pai e com uma mãe fazem com seus filhos.
A história de Isaac nos leva para um grande dilema: a quem estendermos o braço? Contra quem usarmos a mão forte? Um anjo de Deus aparece a Abrahão e lhe diz, lá do céu: “Abrahão, Abrahão!” E ele responde: “Hineni, estou aqui!”. O anjo está lá no céu. Abrahão está aqui, na terra. Os anjos estão tão próximos do homem que, às vezes, nos momentos críticos, podemos ouvi-los. Mas não tocá-los. E mais: eles não podem impedir nossas mãos. As obras de nossas mãos são nossa responsabilidade. Se vamos usar a nossa mão forte para nos defendermos ou para nos boicotarmos, para produzir obras de arte ou para puxar o gatilho, a decisão e o ato em si mesmo é só nosso. Mas os anjos podem falar e até gritar com a gente para pensarmos melhor antes de fazermos alguma bobagem. E na nossa história, o anjo gritou com Abrahão: “Não estenda o seu braço sobre o moço e não lhe faça nada; agora sei que você teme a Deus”. O anjo sabe, afinal, que Abrahão é temente a Deus e que faria qualquer coisa por Ele. Mas não é isso o que Deus espera de Abrahão!!!
Quanta gente, hoje em dia, faz qualquer coisa em nome de Deus? Quanta gente, hoje em dia, mata, chantageia, mente, engana, em nome de Deus? É isso o que Deus espera de nós?
O anjo impede Abrahão de sacrificar o próprio filho porque o braço estendido de um pai não serve para matar, porque o braço estendido de um pai e de uma mãe servem para abraçar!!! É como se Deus dissesse: Abrahão, eu sei que você é temente a Mim, afinal, eu sou o Seu Rei. Mas o que Eu espero de você é que você use a sua mão forte para se defender, e que você estenda o seu braço para abraçar o seu filho, não para amarrá-lo, e jamais para matá-lo! Abaixe a mão Abrahão!
Ser temente a Deus, ser religioso, acreditar em Deus é fácil. Mas é pouco. Não é isso o que Deus espera de nós. Deus espera de nós ações práticas, braços estendidos para acolher, para abraçar, para ensinar, para indicar o caminho para os nossos filhos, para os nossos amigos, para quem pudermos ajudar a seguir pelo caminho do bem. Usar somente de mão forte com nossos filhos pode significar amarrá-los aos nossos próprios valores e temores. Estender-lhes a mão e abrir espaço para que escolham seus próprios caminhos, ainda que não sejam os nossos, e abraça-los nos momentos de dificuldade, com um abraço estendido, gostoso e protetor ─ pode ser uma boa dica de o que Deus espera de nós para o ano 5772.
Shaná Tová
Uri Lam

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Parashá da semana: Ki Tetsê
Lembre-se de Amalec para não ser como ele – seja você gente com as outras pessoas
Uri Lam, para o folheto Congregar, da CIP 
“Quem sai na chuva é prá se molhar”. Muitas vezes repetimos o conhecido ditado para quem se expôs a uma situação que por sua vez levou a consequências indesejáveis. A vida lá fora é arriscada, mas para que a vida faça sentido é preciso ir à luta e se expor ao risco.
“Chove lá fora - e aqui faz tanto frio”. Na canção do compositor Lobão, apesar da chuva lá fora, deixar de sair e de enfrentar as dificuldades é ainda mais difícil: é frio e angustiante. E conforme a nossa parashá da semana, a opção de ficar dentro de si mesmo ou dentro de casa e não ir à luta não existe. A Torá não diz “se você sair à guerra” e sim “quando você sair à guerra”. Não adianta fazer de conta que as suas dificuldades não estão lá fora, nem imaginar que se ficar quietinho dentro de si mesmo, elas irão desaparecer como num passe de mágica. A questão da Torá é: quando você for sair para a guerra, como você deve agir?
Ki Tetsê nos expõe a 72 situações nada fáceis de lidar – 72 mitsvot, segundo Maimônides. Estamos no mês de Elul, o último do ano judaico. Estamos perto do prazo final para enfrentarmos nossos fantasmas antes de nos encontrarmos com Deus em Iom Kipur. São 72 oportunidades de cultivar diversas qualidades dentro de nós: clareza, equilíbrio, integridade, bondade, compaixão, generosidade, honestidade e justiça, amor por Deus e amor pelo ser humano.
É mais fácil exigir tudo isso de outras pessoas: puxa vida, ele podia ter sido mais paciente comigo; ela deveria ter sido mais generosa com aquele senhor; não é justo o que eles fizeram com aquela gente...
No entanto, o que a Torá discute esta semana é como você deve se portar quando você estiver “por cima”, quando você estiver em vantagem diante de uma pessoa em situação de fragilidade. “Quando você sair à guerra contra os seus inimigos...”. é de você que a Torá fala, não dos outros. Quando você estiver diante de outras pessoas em posição que lhe favorece, a tentação de se vingar, de dar uma lição ou de provocá-las é muito grande. Mas o que a ética judaica nos ordena é justamente o contrário: devemos aproveitar a nossa vantagem para fazer uma boa ação. Ao encontrar algo que claramente alguém perdeu, não fazer de conta que não viu, mas sim recolher e aguardar que o dono reclame o que é dele e devolver. Não cobrar juros de um empréstimo feito ao amigo em dificuldades. Não aplicar dois pesos e duas medidas para a mesma situação.
Quando você sair à luta, seja gente com quem encontrar pelo caminho e estiver passando dificuldades. Seja caloroso. Ser gente é o que Deus espera de você.

terça-feira, 16 de agosto de 2011


Parashá da Semana: Ékev
E agora Israel, o que o Eterno, teu Deus, espera de você?
Uri Lam - originalmente para o folheto "Congregar" da CIP

Há quem diga que “se” é uma palavra que não existe. Ou as coisas são de um jeito ou de outro. Se fosse... mas não é. O “se” constrói um universo paralelo no qual, se assim fosse, o mundo seria perfeito, as pessoas se respeitariam e se amariam e o único trabalho de Deus seria contemplar a Sua bela obra coletiva de criação. O perdão seria uma prática inexistente, pois não haveria o que perdoar. O Iom Kipur não existiria, pois não haveria transgressões pelas quais pagar nem erros a se reconhecer.
Se todos cumprissem as leis e estatutos divinos, metade do nosso vocabulário jamais teria existido. Viveríamos em um mundo em que somente o bem prevaleceria, sem a contraposição do mal. Não haveria guerras nem mal-entendidos. As pessoas não falariam mal das outras por trás, filhos e pais sempre se respeitariam, casais viveriam em harmonia e sem crises conjugais. Se apenas cumpríssemos todas aquelas leis...
Conta um midrash que no início, quando Deus entregou os Dez Mandamentos a Moisés e o povo de Israel afirmou “Naassê venishmá”, “Faremos e ouviremos”, Deus acreditou em nós. No entanto, não demorou muito para que o Todo Poderoso percebesse as dificuldades daquela gente insubordinável, nas palavras Dele mesmo. O Eterno então baixou as expectativas e passou a exigir somente que cumpríssemos pelo menos a segunda parte do acordo: “Ouviremos”.
E agora, Israel, o que o Eterno teu Deus espera de nós - agora que Ele sabe que somos incapazes de cumprir tudo o que prometemos? Deus parece esperar que sejamos capazes de pelo menos escutar o que Ele tem a dizer e tentar seguir por Seus caminhos, amar e respeitar as Suas criaturas e valores, “e servir ao Eterno de todo coração e com toda a alma” (Deut. 10:12). Diferente do que nos foi ordenado no Shemá – amar a Deus de todo coração, com toda a alma e com todas as forças – agora se pede para servirmos a Deus (não necessariamente amá-Lo) de todo coração e com toda a alma, mas não com todas as forças ou posses. Por um lado Deus não espera mais que sejamos perfeitos, mas por outro passa a exigir que cada um confesse seus erros, peça perdão aos seus semelhantes e a Ele mesmo, e busque ser uma pessoa melhor a cada dia e a cada ano.
Na semana passada lemos o primeiro parágrafo do Shemá e nesta lemos o segundo parágrafo. O “plano A” de Deus era que o amássemos de todo coração, com toda a alma e com todas as forças. O “plano B” é nos dar a opção: se O escutarmos de todo coração e com toda a alma, teremos vida longa sobre a terra. Se não... temos ainda a oportunidade do arrependimento e do perdão. E agora Israel?

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Como as crianças judias rezavam no Holocausto?
Esta foi a pergunta que recebi de uma pessoa via e-mail. Perguntou-me se elas rezavam em pé, ajoelhadas, se inclinavam o corpo, etc.
Por algum motivo esta pergunta me levou longe, a imaginar como as crianças judias rezavam nos campos de concentração, nos guetos, nas ruas, nos bueiros, nos bosques, na neve, diante da entrada para a câmara de gás, durante a fome que a consumia por dentro.
Algo me doeu nos kishkes, como se diz, com esta pergunta.
E me lembrei da cena comovente de um homem no campo de concentração que, num dia que me parece que era Simchat Torá, o dia da alegria da Torá, na falta de rolos da Torá ergueu uma criança e ela foi a Torá. A criança não rezava. A criança era a reza, a oração, a benção em si mesma.

Minha resposta foi a seguinte: 
Cara XYZ,

Um milhão de crianças morreram nos campos de concentração.
Outras milhares delas sobreviveram Deus sabe como, diante do monstro nazista.
Como elas rezavam?
Certamente muitas rezavam. "Afinal, se algo de bom existir no mundo, deve estar para além desse sofrimento - deve ser Deus".
Certamente muitas não rezavam. "Afinal, se Deus existisse, não teria permitido que passássemos por isso".

Talvez rezassem em pé - se pudessem ficar em pé, dada a fome, o sono, as doenças, o sofrimento.Talvez rezassem na cama - se tivessem cama, e não fossem amontoadas às dezenas em estrados de cimento, umas sobre as outras.
Talvez rezassem para acordar no dia seguinte. Talvez rezassem para não acordar no dia seguinte.
Talvez rezassem murmurando - pois somente para isso tinham forças.
Talvez inclinassem o corpo que de tão fragilizado, era um milagre que se mantivesse em pé.


Certamente, toda certeza mesmo, é que as crianças judias jamais rezaram ajoelhadas - pois esta não é uma prática judaica.
 

A posição em que rezavam ou não tem muito menos importância sobre o por que rezavam.
Talvez por não entenderem o que se passava à sua volta, de tão absurdo de cruel.
Talvez por entenderem e rezarem para Deus para não entenderem.
Talvez pedissem para viver e contar sobre as atrocidades que passaram.
Talvez pedissem para morrer e assim abreviar o sofrimento.
Talvez rezassem para, por pelo menos alguns minutos, estarem com Deus, e não em meio àquele inferno.


Cara XYZ,
Um milhão de crianças foram exterminadas nos campos de concentração.
Talvez porque pouca gente rezou por elas,
Talvez porque pouca gente prestou atenção nelas,
Talvez porque quem rezou, não pensou nelas,
Talvez porque quem apoiou o mosntro nazista não rezava,
Talvez porque quem apoiou o monstro nazista rezava, mas não pensava nas crianças judias que rezavam nos campos de extermínio.
Seja na posição que for, da religião que for.


Espero ter respondido como as crianças judias rezavam na época do Holocausto.
Difícil foi continuar rezando depois do Holocausto. Depois de tanta crueldade.
Mas graças a Deus aqui estamos,

rezando em memória da alma de um milhão de crianças assassinadas no Holocausto.
Que a lembrança delas seja sempre uma benção para todos nós -
para que nunca mais uma besta faça isso com uma criança nem com qualquer ser humano.

despeço-me com um cordial shalom.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Oração para o povo do Japão
Rabino Yehoram Mazor
Trad.: Uri Lam
Rompida rompeu-se a terra, em pedaços despedaçou-se a terra, movida move-se a terra feito bêbado. (Isaías 24:19) Sua aflição passará para o mar cujas ondas serão atacadas e secarão todas as profundezas... (Zacarias 10:11)
Soberano do Universo, cujo espírito paira sobre tudo, que criou os céus com sabedoria e estendeu a terra sobre as águas. Tu concedeste o Teu arco-íris nas nuvens e nos informaste que não haveria mais inundações. As forças da terra a estremeceram, as ondas do mar quebraram amargamente e nossos irmãos japoneses foram acometidos pelas forças da natureza. O temor da ameaça nuclear somou mais sofrimento ao sofrimento deles. Nós nos enlutamos por seus mortos, nossos corações estão com os sobreviventes em suas dores.
Envie conforto aos familiares das vítimas de modo que possam retomar suas vidas. Cure seus corpos e envie restabelecimento para suas almas. Envie Tua sabedoria às forças de resgate, boa vontade e bom coração para todos os que tiverem condições de ajudar. Mostre a eles a Tua luz, orienta-os em seus caminhos, proteja-os. Juntamente com os japoneses, os filhos do Teu mundo se voltam a Ti:
Em nossa aflição clamamos ao Eterno e Ele nos respondeu. Gritamos, e Tu escutaste a nossa voz. Quando dentro de nós desfaleciam nossas almas, recordamo-nos do Eterno e nossas orações Te alcançaram. Expressaremos nossa gratidão ao oferecermos a Ti nossos sacrifícios e cumpriremos o que prometemos (conf. Jonas 2:8-9)

תפילה למען בני יפן / הרב יהורם מזור
פּוֹר הִתְפּוֹרְרָה אֶרֶץ, מוֹט הִתְמוֹטְטָה אָרֶץ, נוֹעַ תָּנוּעַ אֶרֶץ כַּשִּׁכּוֹר. (עפ"י ישעיה כד)
וְעָבַר בַּיָּם צָרָה וְהִכָּה בַיָּם גַּלִּים וְהֹבִישׁוּ כֹּל מְצוּלוֹת ...: (זכריה י)
רבונו של עולם שרוחך מרחפת על הכל
עֹשֵׂה הַשָּׁמַיִם בִּתְבוּנָה ... רֹקַע הָאָרֶץ עַל הַמָּיִם
את קשתך נתת בענן והודעתנו כי לא יהיה עוד מבול.
איתני הארץ רעשו, משברי ים היכו בחורמה ואחינו בני יפן הוכרעו בידי איתני טבע.
פחד האימה הגרעינית הוסיף עוד סבל לסבלם.
על מתיהם אנו מתאבלים, לבנו עם הניצולים הדואבים.
שלח נחמה לקרובי הנספים למען יצליחו לשקם את חייהם.
רפא את גופם ושלח מזור לנפשם.
שלח תבונתך לכוחות ההצלה, שלח רצון טוב ולב טוב לכל המסוגלים לעזור.
הראם את אורך, היישר את דרכם, היה להם למגן.
יחד עם בני יפן, בני עולמך אליך פונים:
קָרָאנוּ מִצָּרָה אֶל ה' וַיַּעֲנֵנוּ, שִׁוַּעְנוּ שָׁמַעְתָּ קוֹלֵנוּ.
בְּהִתְעַטֵּף עָלֵינוּ נַפְשֵׁנוּ אֶת ה' זָכָרְנוּ וַתָּבוֹא אֵלֶיךָ תְּפִלָּתֵינוּ.
וַאֲנַחְנוּ בְּקוֹל תּוֹדָה נִזְבְּחָה לָּךְ. אֲשֶׁר נָדַרְנוּ נֶשַׁלֵּמָה. (עפ"י יונה ב')
"העבודה שבלב – המרכז להתחדשות בתפילה"

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Educação Judaica e Pedagogia Waldorf - será possível?
Esta é a pergunta que me fiz durante o curso de Educação Judaica em minha formação rabínica, motivado por uma observação do ex-ministro da educação de Israel Yossi Sarid, em uma palestra no HUC, de que a Pedagogia Waldorf poderia ser uma boa opção como parte do sistema educacional em Israel. Estou pesquisando o tema - não de forma totalmente abrangente nem conclusiva. Visitei uma escola Waldorf em Jerusalem, que me causou impressões as mais diversas. Meu olhar foi basicamente focado em educação judaica, e não em outra coisa.
O que encontrei?  Uma escola na qual, naturalmente, todos falam hebraico, alunos e educadores são judeus. Consideram-se religiosos, não no sentido estrito do termo, mas no sentido o mais universal: a re-ligação com o Divino. O judaísmo permeia o ambiente, mas minha impressão é que não se destaca de outros aspectos. A expressão do judaísmo se dá por sua cultura, pelas histórias bíblicas, pela música israelense, que abrem espaço para a expressão dos alunos. As orações e ritos tradicionais, porém, estão à margem, e se podem ser sentidos, é como se fosse muito de leve. Falta mais clima judaico, para mim.
Não há como não ser uma escola judaica, por ser em Israel - esta foi a minha impressão inicial. Este é o meio onde estão situados, no coração de Jerusalem. Mas fiquei confuso: por um lado, achei lindo o modo como as crianças dialogam com os textos bíblicos, como se colocam no lugar das personagens bíblicas, como falam com Deus, o modo delicado como são alfabetizadas, conforme as bases da educação antroposófica. Por outro, há também a incômoda sensação de tudo vir de uma tradição importada, algo de fora, que envolve, mas não alimenta o judaísmo na alma.
As orações, conhecidas de cor por alunos e professores, são traduções de orações criadas por Rudolf Steiner, que fundou o movimento antroposófico e deu as bases para a educação Waldorf. Uma professora me disse que se deve desvinvular a antroposofia da educação waldorf, e que o que Steiner escreveu em um dado contexto deve ganhar nova conotação de acordo com a cultura na qual se está inserido. Isso seria a justificativa para se entender que em Israel, em uma população judaica, tais orações e práticas ganham conteúdo e espírito judaicos. Mas não sei - se eu não conhecesse a motivação religiosa e espiritual destas orações, diria que elas são universais e bastante atuais, em sintonia com aspirações e preocupações com a ecologia e com a harmonia entre o ser humano, o planeta em que vive e o mundo espiritual. Mas é difícil para mim desvencilhar certos simbolismos das orações de Steiner de uma origem cristã esotérica, em que o sol, por exemplo, representa mais do que simplesmente o sol, mas uma "energia crística" que nutriria o mundo. Os professores não me pareceram conscientes nem cientes das origens das orações que cantam, mas para mim me soou nada judaico e muito desconfortável. Como se algo subliminar de um espírito que não é judaico pudesse ser passado aos alunos, sem que se dessem conta. Numa filosofia que preza tanto a liberdade e a consciência, esta falta de consciência me parece cercear a liberdade de escolha, até da escolha de permanecer ou não judeu. Ao estarem em Israel, a escolha pelo judaísmo me parece a mais óbvia. Mas uma educação waldorf que se pretendesse judaica fora de Israel teria que incluir algo, digamos, mais judaico.
Por outro lado, a acusação de certos grupos fundamentalistas de que seria uma escola que oferece educação cristã a seus alunos me parece leviana. Se por um lado o espírito judaico não me parece devidamente alimentado - ou, numa metáfora, a alimentação está desbalanceada - por outro não vi em nenhum lugar algo que denotasse educação não judaica. 
O que me parece garantir, portanto, que estas crianças estão sendo formadas a partir de um espírito judaico é o fato de viverem em Israel, terem outras influências em suas vidas além da formação escolar tão singular que recebem, e estarem permeadas, na própria escola, pelo hebraico, pelo espírito de solidariedade próprio do judaísmo, pelo amor ao próximo. os valores universais do judaísmo estão preservados. os valores particulares me pareceram deixados à margem. Estão lá - mas em muito menor intensidade. 
Claro, esta é uma visão particular minha, e deve haver outros aspectos que não pude perceber em período tão curto de observação e leitura de algum material judaico em relação a uma educação Waldorf ao qual tive acesso.
Há outras escolas em Israel que utilizam parcialmente certos aspectos da educação Waldorf. por exemplo, em Modiin há um colégio de método "Tali" - criado pelo movimento conservador/masorti - cuja professora de artes trabalha segundo a Waldorf; mas no restante, a escola inspira nos alunos o espírito judaico, através de suas orações e símbolos tão familiares e dentro de uma visão judaica progressista e igualitária. Me parece uma combinação mais razoável. o que a formação Waldorf não oferece, é oferecido pelos rabinos e professores da escola Tali. Assim, vejo como possível, sim, que haja uma contribuição da pedagogia Waldorf para a educação judaica, mas não que venha a ser a única contribuição. 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Dezoito ou Dezenove Bênçãos? A Bircat haMinim
Uri Lam 
Há diversas orações que compõem o sidur, o livro judaico de orações, que muitos israelenses dizem que se os judeus que vivem fora de Israel - e que porventura não compreendam bem o hebraico - entendessem o que estão rezando, deixariam de rezar certas passagens.
Isso faz sentido em várias orações, mas na minha opinião, não é o caso da polêmica "Benção (contra) os "maldosos". Tanta polêmica que em muitas versões censuradas do Talmud (pelos que perseguiam os judeus) ela aparece como "Benção (contra) os Tsadukim (saduceus)", tradicionais adversários dos Prushim (fariseus) nos tempos talmúdicos, há cerca de 2 mil anos.
Mas é bem provável que esta oração tenha se dirigido à seita cristã que surgia no período ao redor da destruição do 2o Templo de Jerusalém. Hoje há um diálogo saudável e próspero entre lideranças do povo judeu e de diversos setores da religião cristã, que entendem que judaísmo e cristianismo têm crenças diferentes e os últimos não buscam mais, em boa parte (com raras e triste exceções) querer converter judeus ao cristianismo nem buscar convencer os judeus que é possível ser judeu e acreditar em Jesus como o Messias.
E não era esta a realidade nos tempos imediatamente posteriores à destruição do Templo Sagrado. para a então recém-criada seita cristã (que anos mais tarde se constituiria numa religião organizada), segundo o rabino Beniamin Lau (em seu livro "Chachamim"- Os Sábios, vol. 2, em hebraico), a destruição do Templo, centro da vida judaica de então, era um sinal mais do que claro de que o "povo de Israel terreno" havia sido abandonado por Deus graças aos seus pecados. E que deveriam espalhar as "boas novas"  de que uma "nova Israel" surgira, e Jesus era seu Messias.
Embora a maioria dos cristãos pós-Templo nada tenha a ver com o povo judeu - adotaram o cristianismo através do trabalho missionario de Paulo de Tarso entre diversos povos nos arredores - uma parcela bem menor de judeus havia adotado as novas crenças e tinha, segundo o rabino Lau, constrangiam e ameaçavam os valores judaicos preservados a duras penas pela geração de Iavne. Rabi Gamliel, com o intuito de deixar claro o quanto a presença daqueles não era bem vista nos novos centros de estudos e sinagogas, bem como para que os judeus não fossem confundidos com os Maaminê Ieshu haNotsri (os crentes em Jesus, o Nazareno) pelos romanos - era época também de perseguição romana aos cristãos, que só mais tarde se converteriam ao cristianismo, dando origem ao Catolicismo -  propôs a instituição de uma nova benção, a ser integrada às tradicionais Dezoito Bênçãos que formavam a principal oração judaica até então.
Conforme o rabino B. Lau, esta oração deixava bem claro a todos os que vinham às sinagogas - não para visitar, mas para converter judeus à nova crença - que para isso eles não eram bem vindos.
Dezoito bênçãos falam de agradecimento aos nossos antepassados, por terem nos legado uma tradição tão rica e bela, pedidos por saúde, prosperidade e paz. Mas como os rabinos não são bobos, a última benção acrescentada às demais dezoito da Amidá representa claramente que aqueles que nos querem mal - e querer nos fazer acreditar no que não acreditamos é nos fazer mal - não são bem vindos à nossa casa.
Bastante atual esta inclusão. Ainda hoje há aqueles que querem se passar por judeus  - e acham que estão nos fazendo um bem - para levar aos judeus uma mensagem que não é nossa. Para estes foi criada pelo modesto Shimon haKatan a Bircat HaMinim e só prá estes. Como diz o rabino B. Lau, continuam não sendo bem vindos.
abaixo uma tradução simplificada e informal da passagem do Talmud que conta um pouco desta historia. Quando tiver tempo, conto como um dos sábios abaixo, Rabi Eliezer, foi confundido com os "minim" (Maaminê Yeshu Hanotsri) e levado à "polícia" da época pelos romanos e de como ele escapou desta fria.
boa leitura! 

Talmud Bavli, Brachot 28b
versão informal e explicada: Uri Lam, fev. 2011
Eram os tempos da Mishná... (antes da destruição do 2o Templo)
Estavam reunidos, estudando juntos, um grupo de sábios. O tema do dia eram as Shemone Esre, as Dezoito Bênçãos, oração central dos serviços religiosos judaicos da semana.
No meio da conversa, Raban Gamliel afirmou: “Deve-se rezar as Shemone Esre todos os dias”. Mas como a cada dois judeus há três opiniões, entre os rabinos não poderia ser diferente. Logo veio Rabi Iehoshua e contestou: “Não! Basta uma versão abreviada, a Meêin Shemone Esre”.
Rabi Akiva sorriu para os colegas e contemporizou: “Bem, se ele tiver a reza na ponta da língua, que recite as Dezoito Bênçãos completas. Mas se não souber tudo bem, reza a versão abreviada, qual é o problema?”. 
Rabi Eliezer aproximou-se e disse: “Não sei não... desconfio de que se uma pessoa reza todos os dias a mesma coisa de modo fixo, suas preces perdem o sentido...”.
Rabi Iehoshua veio defender sua posição e a contextualizou: “Queridos amigos, vivemos tempos perigosos. muitos de nós já fomos assassinados. E se um judeu estiver passando por um lugar perigoso, o que deve fazer? Parar e rezar todas as Dezoito Bênçãos?! Correrá risco de vida! Basta que reze a versão abreviada e no final diga: ‘Eterno, salve o Teu povo, os remanescentes de Israel. Em toda situação pela qual passarem, que suas necessidades sejam atendidas por Ti. Bendito sejas Eterno, que escutas a tefilá.” (...)

Um bom tempo depois, na época da Guemará... (depois da destruição do 2o Templo)

Estavam reunidos, estudando juntos, um grupo de sábios. O tema do dia eram as Shemone Esre, as Dezoito Bênçãos, oração central dos serviços religiosos judaicos da semana. O tempo passa, e os judeus continuam estudando o que lhes foi legado por herança pelas gerações passadas, desde os tempos de Moisés no Sinai... não! Desde Avraham Avinu! Não, desde sempre! Bom, esta é outra discussão... mas vamos ao tema do dia:
Pergunta: A que correspondem as Dezoito Bênçãos?
Rabi Hilel, filho de Rabi Shmuel bar Nachmani, disse: “Pelo que aprendi, corresponde às dezoito menções ao Nome de Deus feitas pelo Rei David no Salmo 29 (Havu L’Ad-nai, benê elim)".
Rabi Iossef contestou: “Aprendi outra coisa, e me parece que a minha tradição é mais antiga do que a sua. Elas correspondem na verdade às dezoito menções ao Nome de Deus feitas na leitura do Shemá”.
Rabi Tanchum aproximou-se e comentou, daquilo que aprendeu com Rabi Iehoshua bar Levi: Amigos, quando rezamos, aprendemos que devemos rezar com todos os nossos ossos, lembram-se? Corresponde às dezoito vértebras da coluna espinhal". E ele continuou: "Quando formos rezar as Dezoito Bênçãos, devemos movimentar toda a coluna e nos abaixarmos até a última vértebra!" 
Ula disse: “Não precisa. Basta se curvar até a altura do coração, de modo que possa ver, por exemplo, uma pequena moeda no chão”.
Rabi Chanina foi mais longe: “Basta curvar a cabeça”.
E Raba arrematou: “Sim, mas só se não lhe causar dores”.

E são mesmo Dezoito Bênçãos?!

Rabi Levi disse: "Tem mais uma, a Bircat haMinim. Mas ela só foi instituída em Iavne, depois da destruição do 2º Templo, quando as perseguições romanas aumentaram e, como se isso não bastasse, passamos a ter entre nós gente que vem e tenta nos convencer de que agora vivemos um novo tempo, em que não é preciso mais fazer brit milá (circuncisão ritual), nem mitsvot (mandamentos religiosos), nem nada. Basta acreditar que o Mashiach já veio! Meus colegas, nestes tempos cruciais, a Bircat haMinim é parte integrante de nossas orações. Que Deus nos proteja - destes e daqueles!" 
Os outros se olharam e perguntaram: "Mas ela corresponde a que?"
Rabi Hilel, filho de Rabi Shmuel bar Nachmani, disse: “Corresponde a “El hacavod hir’im, do Salmo 29 do Rei David".
Os demais se olharam novamente e entenderam o recado. Hir'im, se lido de outro modo, soava como "haraím", os maus. A benção buscava proteger os judeus daqueles que, de um modo ou de outro, não os queriam bem, ou não os aceitavam como eram, com suas crenças e tradições já milenares.
Rav Iossef reforçou o sentido e afirmou: "Ela corresponde ao “Echad” (Um) da leitura do Shemá! Para deixar claro a quem entrar em nossas sinagogas e centros de estudos que para Israel, o Eterno é nosso Deus - e nosso Deus é Um só".
Rabi Tanchum relembrou e reforçou o que dissera antes, daquilo que aprendeu com Rabi Iehoshua ben Levi: “Corresponde a uma pequena vertebra no fim da espinha. Devemos nos abaixar até lá, até a última. E se doer? é para nos lembrarmos de que existem dores piores que não estamos dispostos a suportar".

Nossos sábios ensinaram que Shimon HaPaculi foi quem organizou as Dezoito Bênçãos originais, diante de Raban Gamliel, em Iavne.
Raban Gamliel perguntou aos sábios: “Não tem ninguém que possa compor a Bircat haMinim? Ela não deve ser uma benção vinda de outro lugar que não seja do coração. Não queremos mal aos outros, somente queremos distância daqueles que não nos querem bem. Quem se voluntaria?"
Shmuel HaKatan, o Pequeno, levantou-se e se voluntariou a compor a Bircat haMinim.
Conta-se que no ano seguinte ele a esqueceu e não a pronunciou. mas isto é uma outra história. 
Parashá da Semana: Tetsavê - Entre Nós: O Sagrado está na Relação
Uri Lam, para o boletim Congregar, da CIP

Rabi Chanina disse: “Virá o santo, e entrará no que é santo, irá se aproximar do que é santo, e expiará em favor de todos os santos”. (Midrash Raba: Tetsavê 38, 7)

Impressionante a capacidade de certos sábios de resumir uma parashá inteira em uma única oração. Mais impressionante ainda é a capacidade de atiçar a nossa curiosidade para a leitura da Torá desta semana. Afinal, do que Rabi Chanina está falando? Desde quando temos santos no povo judeu? Isso não é um tema judaico!, dirão alguns.
A questão da kedushá, da santidade, é parte integrante da vida judaica. Nós rezamos todos os dias na Amidá, a grande oração de nossos serviços religiosos, a inserção da Kedushá: “Cadosh, Cadosh, Cadosh, Ad-nai...” – Santo, Santo, Santo, o Eterno... (Isaías 6:3).  Não é incomum escutarmos de certas pessoas que seu intuito pessoal é ter uma vida santa. Como se faz isso? Um grande amigo me disse uma vez que “os rabinos, quando escrevem seus comentários sobre a Torá, têm uma enorme capacidade de criar boas perguntas, mas em geral não têm boas respostas”.
Vejamos o que nos conta a Torá nesta semana. Deus diz a Moisés para que dê uma ordem aos israelitas: “Tragam o mais puro azeite para manter continuamente acesa a luz no Ohel Moed, a Tenda da Reunião.” Em seguida a nossa leitura se concentra nos cohanim, os sacerdotes. Quais devem ser suas vestimentas e ornamentos, como estes devem vesti-los, como devem se portar. Tudo parece centrado neles, como se coubesse apenas ao líder religioso a obrigação de levar uma vida inspirada pelo sagrado: “E as vestimentas de santidade de Aarão depois serão para seus filhos... e serão consagrados com elas” (Êxodo 29:29).
Em diversas tradições, o líder religioso é vestido e investido por sua comunidade de uma condição especial. Alguns o chamam de pastor, outros de homem de Deus, outros ainda de sábio, guru, mestre. Atribui-se a estes homens e mulheres uma espécie de poder mágico, a capacidade sobre-humana de intervir junto a Deus em favor dos demais. Também entre nós, no povo judeu, esta prática é largamente adotada.
Nesta hora surge Rabi Chanina e nos diz que ninguém é santo sozinho. O rabino da época do Talmud estende a condição do sagrado desde a terra até os céus: “Virá o santo – Aarão; e entrará no que é santo – o micdash, o espaço sagrado; irá se aproximar do que é santo – Deus; e expiará por todos os santos - Israel”. A condição do sagrado não é uma exclusividade do líder religioso. O sagrado é inclusivo, construído e instaurado na dinâmica das relações entre o indivíduo, o lugar em que vive, Deus, e sua comunidade.
No mesmo midrash conta-se que, ao observar o sacerdote em suas roupas no mais sagrado dos espaços e no mais sagrado dos dias, o Iom Kipur, Deus não se recorda dos próprios méritos, nem da santidade do local, tampouco dos méritos do sacerdote. Deus se recorda dos méritos das tribos, do povo.
Em seu comentário para a parashá Tetsavê, o livro do Zohar - que a tradição atribui a Shimon bar Iochai - praticamente não se refere aos cohanim. Entre suas diversas vozes, escutamos a de Rabi Itschac: “A luz do alto e a luz de baixo são uma só, e o seu nome é ‘Tu’” (Tetsavê, 1). O Zohar se antecipa por séculos à brilhante obra de Martin Buber, “Eu-Tu”, que estabelece que o sagrado não está em mim nem em você, mas no verdadeiro encontro entre nós, num instante e local precisos. O sagrado está na relação: “Morarei entre os filhos de Israel e serei para ele Deus (Êxodo 29:45).
A luz permanecerá acesa enquanto alimentarmos em nossas relações – entre a comunidade, lideranças religiosas, o espaço em que nos reunimos e Deus – o processo contínuo de construção e manutenção do sagrado.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Rabinos, professores e escritores israelenses: Projeto de lei que garanta verba para batê midrash (centros de estudos) judaicos pluralistas

Dezenas assinaram um documento que convoca comissão legislativa para permitir o reconhecimento de batê midrash democráticos e que recebam verbas estatais: “O objetivo é contribuir para reforçar a identidade judaica”

Kobi Nachshoni, 03/02/2011, jornal Yediot Acharonot

Trad.: Uri Lam

Dezenas de rabinos e líderes espirituais assinaram o documento que convoca o secretário de cultura Limor Livnat e membros da Comissão de Constituição para aprovar a proposta de lei que reconheça os batê midrash judaicos democráticos. A proposta, enviada pelo membro da Knesset Zevulun Orlev e a rede de Batê Midrash, destina-se à tarefa de fornecer verbas a estas instituições. Entre os signatários estão os professores Zeli Gurevich, Ariel Hirshfeld, Ioram Yuval, Iedidia Stern, Avigdor Sheinan e Iuli Tamir; os escritores Shimon Adaf, Chaim Beer, Iochi Brandes e Chaiota Deutsch; e os rabinos Beni Lau, Michael Melchior, Yuval Sharlev e Shai Peiron.

Os signatários concordam que “a finalidade dos centros de estudos é contribuir para reforçar a identidade judaica e o estabelecimento de valores israelenses comuns aos judeus em Israel e no mundo, ligados à cultura atual, à herança judaica e ao renascimento do povo judeu em sua terra”. No projeto de lei está escrito que os Batê Midrash atuam junto a um público diversificado – religioso, tradicional e laico – “dentro de uma riqueza capaz de ensinar a diversidade explícita da cultura do povo de Israel ao longo de suas gerações, através da comparação e da criatividade interpretativa, que geram a produção de uma relação pessoal entre aquele que aprende e as fontes de referência judaicas”.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Guma Aguiar - de volta a Israel

O judeu americano de origem brasileira Guma Aguiar voltou para Israel.
por algum motivo que nao sei qual é, quase todos os dias alguém visita meu blog em busca de informações sobre este que é um dos maiores patrocinadores de iniciativas esportivas, beneficentes, sociais e judaicas - em especial o programa Taglit e o Beit Chabad.
Pois encontrei um video recente sobre Guma Aguiar, saudável, e aparentemente de volta com alegria e com seu apoio incondicional às instituiçoes com as quais se identifica.
Já visto como "o salvador da Pátria" por alguns, como figura excêntrica e ideias megalomaníacas por outros, Guma passou por tantas pressões que acabou, ao que parece, tendo surtos psicóticos que o levaram a afirmar, por exemplo, que havia entrado em Gaza e libertado o soldado Guilad Shalit - até hoje cativo nas mãos do Hamas, em Gaza.
Seja o que for, sem conhecê-lo, tenho grande simpatia por Guma Aguiar. Ele realmente ama Israel, ama o clube Betar de Jerusalém, que segue apoiando, ama o Beit Chabad, que o acolheu nos momentos mais difíceis.
Para quem for que visita o site em busca de informações, eis um belo vídeo, mostrando o Guma que Israel aprendeu a gostar, por sua simpatia e pelo apoio, com todas as suas forças, em favor das causas que lhe falam ao coração.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A Filha Perdida do Rei - Parte 1
Rebe Nachman de Breslav,  do livro Sipure Maassiot, Primeira História
tradução: Uri Lam, jan. 2011/ Shevat 5771

Respondeu e disse: No caminho contei um caso, e todo aquele que escutou, refletiu sobre se voltar a Deus. Esta é a história:
Era uma vez um rei que tinha seis filhos e uma filha – e esta filha lhe era muito importante. Ele a considerava muito querida e tinha muito prazer em estar com ela.
Certa vez, quando estava junto dela em um determinado dia, ficou irritado com ela e da sua boca escaparam estas palavras: “Der Nit Guter zal dich nemen - O Mal que lhe carregue!” À noite ela foi para o seu quarto e pela manhã ninguém sabia onde estava. Seu pai ficou muito triste e saiu para procurá-la lá e acolá.
Ao ver o quanto o rei estava entristecido, o vice-rei levantou-se e pediu para que lhe dessem um ajudante, um cavalo e dinheiro para as despesas - e partiu em sua busca. Ele a procurou muito, por muito e muito tempo, até que a encontrou (agora eu conto como ele a procurou até encontrá-la).
Ele andou de um lugar para outro por muito tempo – nos desertos, nos campos e nos bosques - e continuou a procurá-la por muito tempo mesmo. Ao caminhar pelo deserto, viu uma trilha lateral e pensou consigo mesmo: “Uma vez que eu tenho andado por tanto tempo pelo deserto e não pude encontrá-la, seguirei por esta trilha. Talvez alcance algum povoado.” E continuou andando por muito tempo.
Depois viu um castelo (que se chama Shlass) com alguns soldados em guarda permanente em torno dele.
O castelo era muito agradável, bem construído e organizado, com seus soldados. Ele temeu que estes não o permitissem entrar, mas pensou consigo mesmo: “Eu irei e tentarei.”
Deixou seu cavalo e seguiu até o castelo. Eles o deixaram entrar e nem foram ao seu encalço. O vice-rei andava de sala em sala e ninguém o seguia, até que alcançou um grande salão e observou que lá estava o rei e sua coroa, com tantos soldados lá e outros tantos cantores com instrumentos diante dele. Aquele lugar era muito agradável e bonito. Nem o rei nem ninguém o questionaram em nada.
Ali ele viu iguarias e boa comida. Levantou-se, comeu, saiu e deitou-se em um canto para ver o que aconteceria. Viu que o rei deu uma ordem para que trouxessem a rainha e eles a trouxeram. Houve muito estardalhaço e grande alegria ali. Os músicos tocavam e cantavam muito enquanto traziam a rainha. Colocaram para ela um trono e a fizeram sentar-se nele, junto ao rei. Era a princesa. E ele, o vice-rei, a viu e a reconheceu.
Depois a rainha observou e notou alguém deitado num canto e o reconheceu. Ela ergueu-se do trono, dirigiu-se até ali, tocou-o e perguntou: “Ei, você me conhece?”.
E ele respondeu: “Sim, eu lhe conheço. Você é a filha do rei que está perdida. Como você chegou até aqui?”.
“Foi quando meu pai, o rei, deixou escapar de sua boca aquelas palavras; e aqui, este lugar, é o lugar do Mal”.
Ele contou para ela que seu pai estava muito triste, que a procurava há muitos anos, e perguntou: “Como posso tirar você daqui?”.
Ela respondeu: “É impossível você me tirar daqui, a menos que escolha para si um lugar e fique lá por um ano. Durante o ano inteiro você sentirá saudades e desejará me tirar daqui. Por todo o tempo que você tiver livre, sentirá somente saudades, e pedirá, e ansiará para me tirar daqui. Você irá jejuar. No último dia deste ano você deve estar em jejum e sem dormir por nenhum instante.” Ele foi e assim o fez.
Ao passar um ano, no último dia, ele estava em jejum e não dormia. Então se levantou e foi até lá. No caminho viu uma árvore da qual cresciam maçãs belíssimas. A vista era muito tentadora e ele parou para comer uma delas. Assim que comeu a maçã, caiu em sono profundo. Ele dormiu durante muito tempo. Seu ajudante tentava acordá-lo, mas ele não acordava.
Finalmente despertou de seu sono e perguntou ao ajudante: “Onde estou eu no mundo?”
O ajudante contou ao vice-rei o que havia acontecido: “Você dormiu por muito tempo, por alguns anos, e eu me mantive com os frutos”.
O vice-rei ficou extremamente entristecido consigo mesmo. Partiu para lá e a encontrou, mas ela estava muito triste com ele: “Porque se você tivesse vindo naquele dia, teria me tirado daqui, e por causa de um único dia você fracassou! Verdade que não comer é algo muito difícil, especialmente no último dia, pois é quando o mau impulso se fortalece mais”.
A filha do rei lhe disse que agora faria uma exigência mais branda e que não mais o advertiria para não comer, porque isso é muito difícil de cumprir: “Assim sendo, volte a escolher um lugar para você, fique lá também por um ano, como antes, e no último dia você poderá comer; só não pode dormir nem beber vinho, para que não adormeça, porque o principal é o sono”. Ele foi e assim o fez. 
A Filha Perdida do Rei - Parte 2

No último dia, quando seguia para lá, viu um líquido fluindo pela terra cuja coloração era avermelhada e seu aroma era de vinho.
O ajudante lhe perguntou: “Você viu este líquido fluindo? Imagina-se que dela flua água, mas de cor vermelha e aroma de vinho?!”
Ele foi, provou da fonte e caiu imediatamente em sono profundo, por muitos anos, por setenta anos! Muitos soldados passaram por lá, com suas carroças de pertences (que se chamam obazin) logo atrás deles. O ajudante escondeu-se dos soldados. Depois veio uma carruagem e outras carroças, e lá se sentava a filha do rei. Ela parou perto dele, desceu, sentou-se ao seu lado e o reconheceu. Ela o agitou muito, mas ele nem se mexeu.
A princesa passou a se lamentar: “Por tantas tentativas e empecilhos enormes que ele teve, por tantos e tantos anos, para me tirar daqui, e por causa deste mesmo dia em que poderia ter me tirado, ele fracassou”.
Ela chorou muito por isso, “mas que pena dele e de mim, pois estou tanto tempo aqui e não posso sair.” Em seguida a princesa retirou o fátsheile (lenço) de sua cabeça, escreveu sobre ele com suas lágrimas, deixou ao lado dele, subiu e sentou-se em sua carruagem - e seguiu viagem.
Algum tempo depois o vice-rei despertou e perguntou ao ajudante: “Onde eu estou no mundo?”.
O ajudante lhe contou todo o ocorrido – que muitos soldados haviam passado por lá, que uma carruagem estivera ali, e que ela chorava muito por ele e gritava de pena por ele e por ela, e que logo depois disso ele despertou.
O vice-rei viu o fátsheile, o lenço, colocado ao seu lado, e perguntou: “De quem é isso?”.
Respondeu-lhe que ela escrevera sobre ele com suas lágrimas. Ele pegou o lenço, ergueu-o contra o sol, passou a enxergar as letras, leu o que lá estava escrito, todas as suas queixas e lamentações - e que neste momento ela já não estava lá naquele castelo. Em vez disso, que ele procurasse por uma montanha de ouro com um castelo de pérolas – “Lá você me encontrará!”.
Ele liberou o ajudante, deixou-o partir - e seguiu sozinho a procurar pela filha do rei. Andou muitos anos procurando por ela. Pensou consigo mesmo que logicamente a montanha de ouro com o castelo de pérolas não podem ser encontrados em nenhum povoado – pois ele era especialista em Mapa Mundi (que se chama Land Kart): “Por isso irei aos desertos”. E saiu a procurá-la pelos desertos por muitos e muitos anos.
Em seguida viu um homem enorme, que por definição não poderia ser humano de tão grande que era. O homem carregava uma grande árvore – em nenhum povoado havia árvore que se comparasse àquela.
O homem perguntou: “Quem é você?”.
Respondeu-lhe: “Eu sou um homem”.
O outro se surpreendeu e disse: “Porque faz tanto tempo que estou no deserto, e nunca vi um homem por aqui”. Então lhe contou todo o ocorrido anteriormente e que procurava por uma montanha de ouro com um castelo de pérolas.
Disse-lhe: “É lógico que isso não existe”, desencorajando-o. E seguiu dizendo que ele havia sido enganado por uma bobagem, pois era óbvio que uma coisa assim não existia em lugar nenhum.
O vice-rei começou a chorar muito: “Com certeza ele existe em algum lugar!”
O homem estranho que o machucou ao desencorajá-lo com suas palavras disse: “Não há dúvidas de que o que lhe disseram é uma bobagem”.
Mas o vice-rei respondeu: “Estou certo de que existe”.
O homem estranho disse para o vice-rei: “Em minha opinião isso é uma bobagem. Mas já que você é tão teimoso... Veja, eu sou o capitão de todos os animais. Por você eu convocarei a todos, pois eles se movem ao redor do mundo inteiro. Talvez um deles saiba algo desta montanha e deste castelo!” Convocou todos, do menor ao maior – todos os tipos de animais – e lhes perguntou - e todos responderam que nada viram. Então lhe disse: “Veja a bobagem que lhe contaram. Escute-me, volte de onde veio, é óbvio que você não irá encontrar, porque isso não existe no mundo”.
Mas o vice-rei insistiu muito e disse que este lugar obrigatoriamente deve existir, com certeza.
O homem estranho respondeu para o vice-rei: “Veja, lá no deserto está meu irmão. Ele é o capitão de todas as aves. Talvez elas saibam, porque elas voam alto no ar. Talvez tenham visto a montanha com o castelo. Vá e diga que eu mandei você até ele”.
O vice-rei continuou a procurá-la por muitos e muitos anos. Então outra vez encontrou um homem tão imenso quanto encontrara antes, carregando uma árvore tão enorme quanto antes. O homem lhe fez as mesmas perguntas feitas anteriormente, o vice-rei tornou a contar tudo o que ocorrera e que fora o irmão dele o enviara. Mas também este o desencorajou, porque era óbvio que este lugar não existia. Porém o vice-rei insistiu.
Então este segundo homem disse ao vice-rei: “Veja, eu sou o capitão de todas as aves. Irei chamá-las, talvez elas saibam.” Ele chamou todas as aves e perguntou a todas elas, da menor até a maior. Elas responderam que nada sabiam sobre uma montanha como um castelo, como antes.
O homem disse ao vice-rei: “Você não percebe o quanto é óbvio que este lugar não existe em canto algum do mundo? Se quiser me escutar, volte de onde veio, porque com certeza isso não existe.”
Mas o vice-rei insistiu e disse: “É claro que ele existe no mundo”.
Então este segundo homem disse para o vice-rei: “Mais adiante no deserto está meu irmão, que é o responsável por todos os ventos – e eles percorrem o mundo inteiro. Talvez eles saibam”.