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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Que tipos de carne não podem ser cozidas com leite?
Hullin 116b - Daf Iomi do dia 20/10/2011
Rabino Adin Steinsaltz
Trad.: Uri Lam
A Torá ensina que carne e leite não podem ser cozidos juntos, baseada em três ocasiões distintas: “Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe” (Êxodo 23:19, 34:26, Deuteronômio 14:21).
Duas opiniões na Mishná (daf 113 ou pág. 113) limita os tipos de carne que não podem ser cozidos com leite. Segundo Rabi Akiva, dada a ênfase em “uma criança”, nem aves nem animais selvagens com leite são proibidos pela Torá, somente animais domésticos estão incluídos na proibição. Rabi Yossi haGalili determina que as aves estão excluídas da proibição, uma vez que não são mamíferos e não podem ser cozidas no leite de sua mãe.
Na daf de hoje, a Guemará oferece duas possíveis diferenças entre estas opiniões.
Rabi Yossi haGalili acredita que os animais selvagens estão incluídos na proibição bíblica, enquanto Rabi Akiva acredita que eles são proibidos apenas pelos Sábios.
Rabi Akiva acredita que ambos os animais selvagens e as aves são proibidos pelos Sábios, enquanto rabi Yossi haGalili acredita que as aves podem ser cozidas com leite ─ não há proibição alguma.
Para apoiar a segunda explicação, a Guemará relata a seguinte história:
Na região de Rabi Yossi haGalili costumava-se comer carne de aves cozida no leite. Certa vez,
Levi visitou a casa de Iossef, criador de pássaros, foi-lhe servido cabeça de pavão cozida no leite, mas não disse nada a eles sobre isso. Quando ele foi até o rabino e contou o ocorrido, o rabino lhe disse: “Por que você não os coibiu?” Ele respondeu: “Porque era a região de Rabi Yehudah ben Beteira e imagino que ele deve ter ensinado a eles a visão de Rabi Yossi haGalili, que dizia: a ave está excluída, uma vez que tem não tem leite materno.”
Em sua responsa, o Rivash (Rabi Itschac ben Sheshet Perfet, 1326 -1408) escreve que podemos aprender uma importante lição dessa história. Parece que ambos, Levi e o rabino, tinham sólidas tradições que não seguem a regra de Rabi Yossi haGalili e que, portanto, aves não podem ser cozidas com leite. Além disso, como as principais figuras rabínicas daquela geração, se eles tivessem se oposto à prática, é provável que a comunidade tivesse evitado cozinhar aves com leite. No entanto, estes rabinos reconheceram que a comunidade pode ter seguido uma posição válida ─ ainda que rejeitada ─, por isso ambos se abstiveram de objeção ou repreensão. Isso vale ainda mais em nossa geração: quando há uma variedade de tradições e muitas vezes a decisão correta não é clara, devemos hesitar em reprovar outros cujas tradições não seguem a nossa.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O Mistério do Guefilte Fish
Uri Lam

Conta-se no Talmud (Horaiot 10a) que Rabi Gamliel e Rabi Iehoshua estavam navegando juntos. Gamliel levou a quantidade exata de pão para a viagem, mas Iehoshua levou além do pão, uma porção extra de farinha. A viagem durou mais do que o esperado, a provisão de pão de Rabi Gamliel acabou e o que manteve os dois sábios foi a farinha extra de Rabi Iehoshua.
Gamliel perguntou: “Como você sabia que teríamos um contratempo?”
Iehoshua respondeu: “Eu verifiquei que há um astro no céu que aparece a cada setenta anos, e que se aparecesse agora, poderia nos desviar da rota.”
Surpreso, Gamliel perguntou novamente: “Você é tão sábio, por que precisava subir neste navio para obter seu sustento?”
Rabi Iehoshua respondeu: “Antes que fale de mim, conheça dois alunos meus que estão em terra firme, Rabi Elazar e Rabi Iochanan. Eles sabem dimensionar exatamente quantas gotas existem no mar, mas não têm o que comer e nem roupas para vestir.”

Os rabinos do Talmud viveram cerca de 1.500 anos depois que o Povo de Israel entrou no meio do mar, por terra seca, naquele dia que separou os tempos de escravidão dos tempos de liberdade.
Rabi Gamliel levou para sua viagem a mesma quantidade de mantimentos que levaria para qualquer viagem. Rabi Iehoshua, por sua vez, entrou no mar prevenido: conforme a historia, levou em conta a configuração do céu, tão importante para todo navegador quanto o mar, como nos diz Fernando Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”.

Muito se discute, a respeito da saída do Egito, sobre os motivos pelos quais os israelitas foram ordenados por Deus a levar tanto ouro, tanto gado, tanto tudo para a viagem. Afinal, era muito mais do que o necessário para uns poucos meses de caminhada pelo mar de areias. Talvez eles não soubessem, mas Deus sabia que algo poderia desviá-los da travessia comum. Era preciso mais do que matsot feitas às pressas se quisessem levar a maior das aventuras de Israel adiante, aquela que faria de nós o Povo de Israel.

Na continuação do relato do Talmud, Rabi Gamliel lembra-se que quando estavam para subir no navio para trabalhar, ele convidou os alunos de Rabi Iehoshua a virem com eles, mas eles não vieram. De que adiantava estudarem Torá, se não se dispunham a trabalhar? De nada. É inútil saber quantas gotas de água há no mar se não houver disposição para entrar no mar e trabalhar pelo próprio sustento.

O mistério do Guefilte Fish no Seder de Pessach
A mesa do seder é o nosso navio. Ao nos sentarmos nela, entramos no mar, em terra seca e segura, em direção à liberdade, exatamente como fizeram nossos antepassados quando cruzaram o Mar Vermelho. O peixe não nasceu em embalagens plásticas nos supermercados e mais ainda, precisamos trabalhar para comprá-lo. E ainda mais: é preciso entrar em ação para recolhê-lo das águas. De nada adianta se dedicar obsessivamente aos detalhes do que significa cada gota do mar se não nos arriscarmos a entrar nas águas do mar para pescar. A escravidão que precisa ser deixada para trás é a escravidão das teorias e das teologias, do planejamento excessivo, das ideias brilhantes que ocupam tanto espaço no papel ou na memória do computador. A Torá é um mar de ideias e valores, mas somos nós que devemos fazer o esforço de nadar e decidirmos como e em qual estilo nadar. Se não nos esforçarmos além de conhecer sobre, e sem nos dedicarmos a conhecer vivendo, teremos que escutar a ironia de Maimônides, o Rambam (1135-1204), quando disse no seu Guia dos Perplexos mais ou menos assim: "Tudo bem meu caro, não quer se esforçar? Solte o corpo nas águas - e logo afundará". 

Nossos sábios nos ensinaram que devemos nos dedicar à Torá, mas também devemos aprender a nadar. Quando a Hagadá de Pessach nos diz: “Quem tem fome, venha e sente-se conosco”, ela espera que cada um de nós cruze o mar e vá em direção a quem tem fome de comida, fome de conhecimento, fome de religiosidade, fome de idishkeit, fome de viver judaicamente, e convide-os todos para se juntarem a nós, ou em nossa metáfora, que subam para dentro do navio e cruzem o mar conosco.

Navegar é preciso, arregaçar as calças e saias, entrar no mar e se molhar é preciso – mesmo que a água às vezes esteja gelada ou bata no nariz − se quisermos em mais sete semanas nos encontrarmos no Monte Sinai para receber as novas instruções. Se quisermos renovar o  nosso pacto com Deus quando Ele novamente nos entregar a Torá, temos que mergulhar na água e ir em sua direção. A Torá no deserto não tem valor. Ela só faz sentido se nós formos na sua direção, a estudarmos e principalmente, a colocarmos em prática.

Chag Pessach Sameach e Shabat shalom.

Uri Lam, de Jerusalem

terça-feira, 1 de março de 2011

Parashat Pecudê
Uri Lam, de Jerusalém, para o boletim semanal Congregar, CIP
 
Este é o portal para o Eterno; os justos entrarão por ele
Nas próximas semanas comemoramos duas festas: Purim, quando os judeus se libertaram de Haman e da ameaça de extermínio na Pérsia; e Pessach, quando fomos libertados da escravidão no Egito. Como preparação para este período, temos, antes de Purim, Shabat Shecalim e Shabat Zachor; e antes de Pessach, Shabat Pará e Shabat Hachódesh.
Estamos em Shabat Shecalim. Lemos na Torá (Ex.30:11-16) quando Deus ordenou que Moisés recenseasse os israelitas: ao ser contado, cada um deve doar meio shekel para os serviços no Ohel Moêd, a Tenda da Reunião. Nem os ricos devem doar mais, nem os pobres devem doar menos. Cada pessoa tem o mesmo valor diante de Deus.
Construir ou não construir portões, eis a questão
Nos grandes centros urbanos, portões com guaritas fazem parte do dia a dia e nem nos questionamos mais sobre a sua necessidade. Guardas armados, câmeras internas e grades eletrificadas protegem casas e instituições 24 horas por dia. O motivo justificado é a segurança. Imaginamos que quanto mais vemos quem se aproxima, mais seguros estamos.
Por outro lado, os temores de assalto ao patrimônio aparentemente não eram uma preocupação para Moisés. A leitura da Torá desta semana, a última do livro de Shemot (Êxodo), relata a prestação de contas de uma riqueza de materiais para construção do Mishcán, O Santuário do Testemunho. Foram 29 talentos e 730 shecalim - uma tonelada, só de ouro puro; além de três toneladas de prata e mais uma infinidade de metais, madeiras e tecidos preciosos. Ao final, podemos imaginar que Moisés disporia centenas de guardas em suas guaritas para proteger o pátio em torno do santuário. Não. Foi colocada uma tela no portão do pátio e é só. Assim Moisés deu a obra por terminada.
O que se ganha ao construir um portão com guarita?
No Talmud (Baba Batra 7b) lemos uma história que mudará o nosso foco. Havia um bondoso homem que conversava todo dia com ninguém menos do que Eliahu, o Profeta Elias. Um dia ele construiu uma guarita no portão de sua casa - e desde então Eliahu deixou de falar com ele. Por quê? Eliahu não entendia que era mais seguro conversar em casa, protegido por um guarda? Não. Para Eliahu a guarita não servia para evitar ladrões, mas para impedir a vinda dos mais pobres. A guarita evitava o cumprimento da tsedacá, ajudar ao próximo no momento de sua necessidade.
A Casa de Deus tinha diante de seu portão somente uma tela, sem guaritas nem guardas. Eram outros tempos... Mas enfim, terminada a obra, a glória de Deus preencheu o Santuário na forma de nuvem. Nem Moisés podia entrar lá nesta hora, porque o Divino não deixava lugar para mais nada. Deus nos deixou de fora. Talvez para sentirmos na pele o que é estar no lugar do outro que vem pedir auxílio no momento de necessidade, mas que fica do lado de fora de portões e guaritas. Somente quando o Divino, na forma de nuvem, eleva-se acima do espaço sagrado é que os filhos de Israel podem "entrar pelo portão" e seguir suas jornadas. O portão permite o encontro. Deus abre espaço para entrarmos, conversarmos com Eliahu e com todos, e seguirmos nossas jornadas. “Este é o portal para o Eterno; os justos entrarão por ele”. (Salmos 118:20)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Dezoito ou Dezenove Bênçãos? A Bircat haMinim
Uri Lam 
Há diversas orações que compõem o sidur, o livro judaico de orações, que muitos israelenses dizem que se os judeus que vivem fora de Israel - e que porventura não compreendam bem o hebraico - entendessem o que estão rezando, deixariam de rezar certas passagens.
Isso faz sentido em várias orações, mas na minha opinião, não é o caso da polêmica "Benção (contra) os "maldosos". Tanta polêmica que em muitas versões censuradas do Talmud (pelos que perseguiam os judeus) ela aparece como "Benção (contra) os Tsadukim (saduceus)", tradicionais adversários dos Prushim (fariseus) nos tempos talmúdicos, há cerca de 2 mil anos.
Mas é bem provável que esta oração tenha se dirigido à seita cristã que surgia no período ao redor da destruição do 2o Templo de Jerusalém. Hoje há um diálogo saudável e próspero entre lideranças do povo judeu e de diversos setores da religião cristã, que entendem que judaísmo e cristianismo têm crenças diferentes e os últimos não buscam mais, em boa parte (com raras e triste exceções) querer converter judeus ao cristianismo nem buscar convencer os judeus que é possível ser judeu e acreditar em Jesus como o Messias.
E não era esta a realidade nos tempos imediatamente posteriores à destruição do Templo Sagrado. para a então recém-criada seita cristã (que anos mais tarde se constituiria numa religião organizada), segundo o rabino Beniamin Lau (em seu livro "Chachamim"- Os Sábios, vol. 2, em hebraico), a destruição do Templo, centro da vida judaica de então, era um sinal mais do que claro de que o "povo de Israel terreno" havia sido abandonado por Deus graças aos seus pecados. E que deveriam espalhar as "boas novas"  de que uma "nova Israel" surgira, e Jesus era seu Messias.
Embora a maioria dos cristãos pós-Templo nada tenha a ver com o povo judeu - adotaram o cristianismo através do trabalho missionario de Paulo de Tarso entre diversos povos nos arredores - uma parcela bem menor de judeus havia adotado as novas crenças e tinha, segundo o rabino Lau, constrangiam e ameaçavam os valores judaicos preservados a duras penas pela geração de Iavne. Rabi Gamliel, com o intuito de deixar claro o quanto a presença daqueles não era bem vista nos novos centros de estudos e sinagogas, bem como para que os judeus não fossem confundidos com os Maaminê Ieshu haNotsri (os crentes em Jesus, o Nazareno) pelos romanos - era época também de perseguição romana aos cristãos, que só mais tarde se converteriam ao cristianismo, dando origem ao Catolicismo -  propôs a instituição de uma nova benção, a ser integrada às tradicionais Dezoito Bênçãos que formavam a principal oração judaica até então.
Conforme o rabino B. Lau, esta oração deixava bem claro a todos os que vinham às sinagogas - não para visitar, mas para converter judeus à nova crença - que para isso eles não eram bem vindos.
Dezoito bênçãos falam de agradecimento aos nossos antepassados, por terem nos legado uma tradição tão rica e bela, pedidos por saúde, prosperidade e paz. Mas como os rabinos não são bobos, a última benção acrescentada às demais dezoito da Amidá representa claramente que aqueles que nos querem mal - e querer nos fazer acreditar no que não acreditamos é nos fazer mal - não são bem vindos à nossa casa.
Bastante atual esta inclusão. Ainda hoje há aqueles que querem se passar por judeus  - e acham que estão nos fazendo um bem - para levar aos judeus uma mensagem que não é nossa. Para estes foi criada pelo modesto Shimon haKatan a Bircat HaMinim e só prá estes. Como diz o rabino B. Lau, continuam não sendo bem vindos.
abaixo uma tradução simplificada e informal da passagem do Talmud que conta um pouco desta historia. Quando tiver tempo, conto como um dos sábios abaixo, Rabi Eliezer, foi confundido com os "minim" (Maaminê Yeshu Hanotsri) e levado à "polícia" da época pelos romanos e de como ele escapou desta fria.
boa leitura! 

Talmud Bavli, Brachot 28b
versão informal e explicada: Uri Lam, fev. 2011
Eram os tempos da Mishná... (antes da destruição do 2o Templo)
Estavam reunidos, estudando juntos, um grupo de sábios. O tema do dia eram as Shemone Esre, as Dezoito Bênçãos, oração central dos serviços religiosos judaicos da semana.
No meio da conversa, Raban Gamliel afirmou: “Deve-se rezar as Shemone Esre todos os dias”. Mas como a cada dois judeus há três opiniões, entre os rabinos não poderia ser diferente. Logo veio Rabi Iehoshua e contestou: “Não! Basta uma versão abreviada, a Meêin Shemone Esre”.
Rabi Akiva sorriu para os colegas e contemporizou: “Bem, se ele tiver a reza na ponta da língua, que recite as Dezoito Bênçãos completas. Mas se não souber tudo bem, reza a versão abreviada, qual é o problema?”. 
Rabi Eliezer aproximou-se e disse: “Não sei não... desconfio de que se uma pessoa reza todos os dias a mesma coisa de modo fixo, suas preces perdem o sentido...”.
Rabi Iehoshua veio defender sua posição e a contextualizou: “Queridos amigos, vivemos tempos perigosos. muitos de nós já fomos assassinados. E se um judeu estiver passando por um lugar perigoso, o que deve fazer? Parar e rezar todas as Dezoito Bênçãos?! Correrá risco de vida! Basta que reze a versão abreviada e no final diga: ‘Eterno, salve o Teu povo, os remanescentes de Israel. Em toda situação pela qual passarem, que suas necessidades sejam atendidas por Ti. Bendito sejas Eterno, que escutas a tefilá.” (...)

Um bom tempo depois, na época da Guemará... (depois da destruição do 2o Templo)

Estavam reunidos, estudando juntos, um grupo de sábios. O tema do dia eram as Shemone Esre, as Dezoito Bênçãos, oração central dos serviços religiosos judaicos da semana. O tempo passa, e os judeus continuam estudando o que lhes foi legado por herança pelas gerações passadas, desde os tempos de Moisés no Sinai... não! Desde Avraham Avinu! Não, desde sempre! Bom, esta é outra discussão... mas vamos ao tema do dia:
Pergunta: A que correspondem as Dezoito Bênçãos?
Rabi Hilel, filho de Rabi Shmuel bar Nachmani, disse: “Pelo que aprendi, corresponde às dezoito menções ao Nome de Deus feitas pelo Rei David no Salmo 29 (Havu L’Ad-nai, benê elim)".
Rabi Iossef contestou: “Aprendi outra coisa, e me parece que a minha tradição é mais antiga do que a sua. Elas correspondem na verdade às dezoito menções ao Nome de Deus feitas na leitura do Shemá”.
Rabi Tanchum aproximou-se e comentou, daquilo que aprendeu com Rabi Iehoshua bar Levi: Amigos, quando rezamos, aprendemos que devemos rezar com todos os nossos ossos, lembram-se? Corresponde às dezoito vértebras da coluna espinhal". E ele continuou: "Quando formos rezar as Dezoito Bênçãos, devemos movimentar toda a coluna e nos abaixarmos até a última vértebra!" 
Ula disse: “Não precisa. Basta se curvar até a altura do coração, de modo que possa ver, por exemplo, uma pequena moeda no chão”.
Rabi Chanina foi mais longe: “Basta curvar a cabeça”.
E Raba arrematou: “Sim, mas só se não lhe causar dores”.

E são mesmo Dezoito Bênçãos?!

Rabi Levi disse: "Tem mais uma, a Bircat haMinim. Mas ela só foi instituída em Iavne, depois da destruição do 2º Templo, quando as perseguições romanas aumentaram e, como se isso não bastasse, passamos a ter entre nós gente que vem e tenta nos convencer de que agora vivemos um novo tempo, em que não é preciso mais fazer brit milá (circuncisão ritual), nem mitsvot (mandamentos religiosos), nem nada. Basta acreditar que o Mashiach já veio! Meus colegas, nestes tempos cruciais, a Bircat haMinim é parte integrante de nossas orações. Que Deus nos proteja - destes e daqueles!" 
Os outros se olharam e perguntaram: "Mas ela corresponde a que?"
Rabi Hilel, filho de Rabi Shmuel bar Nachmani, disse: “Corresponde a “El hacavod hir’im, do Salmo 29 do Rei David".
Os demais se olharam novamente e entenderam o recado. Hir'im, se lido de outro modo, soava como "haraím", os maus. A benção buscava proteger os judeus daqueles que, de um modo ou de outro, não os queriam bem, ou não os aceitavam como eram, com suas crenças e tradições já milenares.
Rav Iossef reforçou o sentido e afirmou: "Ela corresponde ao “Echad” (Um) da leitura do Shemá! Para deixar claro a quem entrar em nossas sinagogas e centros de estudos que para Israel, o Eterno é nosso Deus - e nosso Deus é Um só".
Rabi Tanchum relembrou e reforçou o que dissera antes, daquilo que aprendeu com Rabi Iehoshua ben Levi: “Corresponde a uma pequena vertebra no fim da espinha. Devemos nos abaixar até lá, até a última. E se doer? é para nos lembrarmos de que existem dores piores que não estamos dispostos a suportar".

Nossos sábios ensinaram que Shimon HaPaculi foi quem organizou as Dezoito Bênçãos originais, diante de Raban Gamliel, em Iavne.
Raban Gamliel perguntou aos sábios: “Não tem ninguém que possa compor a Bircat haMinim? Ela não deve ser uma benção vinda de outro lugar que não seja do coração. Não queremos mal aos outros, somente queremos distância daqueles que não nos querem bem. Quem se voluntaria?"
Shmuel HaKatan, o Pequeno, levantou-se e se voluntariou a compor a Bircat haMinim.
Conta-se que no ano seguinte ele a esqueceu e não a pronunciou. mas isto é uma outra história. 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Quem não viu o Templo de Herodes, não viu tão belo edifício em sua vida
Este ano faço um curso de extensão em Modiin (entre Jerusalem e Tel Aviv) prá lá de interessante. Nele estudamos, uma vez por semana, o dia inteiro, passagens do Talmud, textos do Rebe Nachman de Breslav e textos de Nachman Bialik, que vem ainda acompanhados de uma abordagem psicológica que eu diria ser existencialista, voltada para a orientação de grupos. Parece complicado... e é. Mas na prática, o encontro semanal estabelece um diálogo delicioso entre estas diversas fontes judaicas, clássicas, modernas e contemporâneas - e aqui incluo a abordagem psicológica também. Em outras oportunidades espero falar mais deste estudo em grupo.
Na semana passada nos deparamos com um texto difícil. Não tanto de ler, mas principalmente de compreender, de sentir. Esta suguiá (passagem do Talmud) conta sobre Herodes e termina com a frase que dá o título deste post: "Quem não viu o Templo de Herodes, não viu tão belo edifício em sua vida". Veremos a que preço este "belo templo" foi construído, na visão dos sábios do Talmud.
O texto dialoga com outra passagem do Talmud, onde se faz uma comparação entre diversos princípios, por dizer assim, tão importantes para a vida judaica: a sinagoga, o Sefer Torá, a libertação de pessoas feitas prisioneiras. O que tem mais valor, um edifício? ou  a vida dos cativos? Impossível não pensar, para quem está em Israel, nos mais de 4 anos em que o jovem soldado Guilad Shalit está sequestrado e cativo nas mãos do Hamas, em Gaza. Qual preço se deve pagar por sua libertação? Alguns entendem que a vida é o maior valor do judaísmo e que tudo deve ser feito para pagar por sua liberdade. Outros dizem que o preço pedido é muito alto: a libertação de mais de mil prisioneiros palestinos em Israel, entre os quais há um número significativo de terroristas, pessoas que planejaram ou cometeram atentados terroristas, levando consigo a vida de tantos civis israelenses. E qual o preço para resgatar os sobreviventes da tragédia no Rio de Janeiro, bem como resgatar os corpos de mais de 630 pessoas mortas em meio a desabamentos e enchentes? Quanto valem estas vidas - para o governo, para as famílias, para os amigos, para as próprias pessoas que estão sofrendo tanto?
Uma das questões que o Talmud levanta é: o que é mais importante, a construção de uma sinagoga ou a libertação dos cativos? o que é mais importante, a construção de templos e igrejas gigantescas, ou com tanto dinheiro resgatar vidas de condições miseráveis? Sãop questões que ficam em aberto.
Vale à pena ler o texto abaixo (na minha opinião, claro) para ver a que preço foi levantado o Templo de Herodes.
Boa leitura e uma ótima semana.
Quem não viu o Templo de Herodes, não viu tão belo edifício em sua vida...

Talmud Bavli, Baba Batra 3b, 4a
trad.: Uri Lam, Tevet 5771, jan. de 2011 
Herodes, escravo da Casa dos Chasmonaim (hasmoneus), teve seus olhos atraídos para uma certa menina. Um dia este homem escutou a Bat Kol (a “voz divina”) dizer: “Todo escravo que se rebelar agora será bem sucedido”. Ele foi e assassinou todos os seus senhores, deixando somente a menina. Ao ver que ele pretendia se casar com ela, a menina subiu no telhado e gritou: “Quem vier e disser ‘Eu sou da Casa dos Chasmonaim’ [na verdade] é um escravo!” - pois ninguém sobrou deles a não ser a menina – e ela caiu do telhado até o chão. Ele preservou seu corpo em mel durante sete anos.
Há quem diga: “Ele manteve relações sexuais com [o corpo d]ela”; e há quem diga: “Ele não manteve relações sexuais com ela”. De acordo com quem diz que ele manteve relações sexuais com ela, o motivo de embalsamá-la foi satisfazer seus desejos. De acordo com quem diz que ele não manteve relações sexuais com ela, o motivo foi para que dissessem: “Casou-se com a filha do rei”.
[Pensou Herodes] “Quem foi que disse que ‘dentre teus irmãos porás um rei sobre ti’ (Deut. 17:15)? Os Sábios!” Ele foi e matou todos os Sábios, deixando Baba ben Buta, para ter com quem se aconselhar.
[Herodes] Colocou na cabeça [de Baba ben Buta] uma coroa de espinhos de ouriço que lhe arrancou os olhos. Um dia Herodes veio [sem se identificar], sentou-se diante dele e disse: “Veja só, meu senhor, este escravo maldoso [Herodes], o que ele faz!” Disse-lhe [Baba ben Buta]: “O que posso fazer para ele?” Respondeu-lhe [Herodes]: “Amaldiçoe-o, meu senhor!” [Baba ben Buta] respondeu: “Está escrito: ‘Nem mesmo em teus pensamentos você dever amaldiçoar um rei’ (Eclesiastes 10:20)”. Disse-lhe [Herodes]: “Ele não é rei!” [Baba ben Buta] respondeu: “Mesmo que ele seja apenas um homem rico, está escrito ‘e nem mesmo no seu dormitório amaldiçoe os ricos’ (idem); e ainda que ele não seja mais do que um governante, está escrito: ‘e não amaldiçoe um governante do teu povo’(Êxodo 22:27)”.  Disse-lhe [Herodes]: “No caso de quem age como um de seu povo, mas este não age como alguém do seu povo!” Respondeu-lhe [Baba ben Buta]: “Eu tenho medo dele”. [Herodes] respondeu: “Mas ninguém virá e dirá a ele sobre eu e você estamos sentados aqui [sozinhos]”. [Baba ben Buta] Respondeu: “Está escrito: ‘Pois uma ave no céu levará a voz - e quem tem asas contará tudo’ (Eclesiastes 10:20)” Disse-lhe [Herodes]: “Eu sou este homem [Herodes]. Se eu soubesse que os Sábios eram tão cuidadosos, não os teria matado. Agora, como posso consertar o que fez aquele homem?” [Baba ben Buta] Respondeu-lhe: “Ele extinguiu a luz do mundo [ao matar os Sábios], conforme está escrito: ‘Pois a mitsvá [mandamento divino] é a vela e a Torá é a luz’ (Provérbios 6:23). Ele deve ir e se ocupar da luz do mundo, conforme está escrito: ‘E fluirão para [serão iluminadas por] ele todas as nações’ (Isaías 2:2) [Baba ben Buta interpreta “naharu” (fluirão) a partir do termo “nehorá” (luz)]. Há quem diga que [Baba ben Buta] lhe respondeu assim: “Ele cegou o olho do mundo, conforme está escrito: ‘E será que, por causa do olho da Congregação’ (Números 15:24). Ele deve ir e se ocupar do olho do mundo, conforme está escrito: ‘Aqui estou a profanar o Meu Mikdash [o Templo Sagrado], o orgulho do seu poder, o deleite dos seus olhos’ (Ezequiel 24:21)”. [Herodes] Respondeu: “Temo o Governo [de Roma]”. [Baba ben Buta] Respondeu-lhe: “Mande um enviado por um ano até lá [Roma], deixe-o lá por um ano, e que retorne por um ano -  durante este período derrube [o Templo] e reconstrua-o”. Assim o fez. Enviaram-lhe [a Herodes, de Roma, a seguinte mensagem]: “Se você ainda não o derrubou, não o faça. Se você o derrubou, não o reconstrua. Se você o derrubou e o reconstruiu, você é um desses servos ruins que primeiro fazem e depois pedem permissão. Se as armas estão com você, conte de quem você descende; você não é recha [rei] nem descende de um rei, Herodes, escravo que libertou a si mesmo”. O que significa “recha”? Realeza, conforme está escrito: “E eu hoje sou Rach (Rei) e ungido Rei” (2 Samuel 3:39). E caso queira, daqui se depreende [do que foi dito de José, após ocupar o segundo posto de poder, só abaixo do Faraó]: “E diante dele o chamavam de Avrech [termo egípcio que significa “governante”, que os Sábios do Talmud interpretaram como Av Rech, “Pai do Rei”] (Gênesis 41:43). Dizem: Quem não viu a construção [o Templo] de Herodes, não viu tão belo edifício em sua vida.