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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Dezoito ou Dezenove Bênçãos? A Bircat haMinim
Uri Lam 
Há diversas orações que compõem o sidur, o livro judaico de orações, que muitos israelenses dizem que se os judeus que vivem fora de Israel - e que porventura não compreendam bem o hebraico - entendessem o que estão rezando, deixariam de rezar certas passagens.
Isso faz sentido em várias orações, mas na minha opinião, não é o caso da polêmica "Benção (contra) os "maldosos". Tanta polêmica que em muitas versões censuradas do Talmud (pelos que perseguiam os judeus) ela aparece como "Benção (contra) os Tsadukim (saduceus)", tradicionais adversários dos Prushim (fariseus) nos tempos talmúdicos, há cerca de 2 mil anos.
Mas é bem provável que esta oração tenha se dirigido à seita cristã que surgia no período ao redor da destruição do 2o Templo de Jerusalém. Hoje há um diálogo saudável e próspero entre lideranças do povo judeu e de diversos setores da religião cristã, que entendem que judaísmo e cristianismo têm crenças diferentes e os últimos não buscam mais, em boa parte (com raras e triste exceções) querer converter judeus ao cristianismo nem buscar convencer os judeus que é possível ser judeu e acreditar em Jesus como o Messias.
E não era esta a realidade nos tempos imediatamente posteriores à destruição do Templo Sagrado. para a então recém-criada seita cristã (que anos mais tarde se constituiria numa religião organizada), segundo o rabino Beniamin Lau (em seu livro "Chachamim"- Os Sábios, vol. 2, em hebraico), a destruição do Templo, centro da vida judaica de então, era um sinal mais do que claro de que o "povo de Israel terreno" havia sido abandonado por Deus graças aos seus pecados. E que deveriam espalhar as "boas novas"  de que uma "nova Israel" surgira, e Jesus era seu Messias.
Embora a maioria dos cristãos pós-Templo nada tenha a ver com o povo judeu - adotaram o cristianismo através do trabalho missionario de Paulo de Tarso entre diversos povos nos arredores - uma parcela bem menor de judeus havia adotado as novas crenças e tinha, segundo o rabino Lau, constrangiam e ameaçavam os valores judaicos preservados a duras penas pela geração de Iavne. Rabi Gamliel, com o intuito de deixar claro o quanto a presença daqueles não era bem vista nos novos centros de estudos e sinagogas, bem como para que os judeus não fossem confundidos com os Maaminê Ieshu haNotsri (os crentes em Jesus, o Nazareno) pelos romanos - era época também de perseguição romana aos cristãos, que só mais tarde se converteriam ao cristianismo, dando origem ao Catolicismo -  propôs a instituição de uma nova benção, a ser integrada às tradicionais Dezoito Bênçãos que formavam a principal oração judaica até então.
Conforme o rabino B. Lau, esta oração deixava bem claro a todos os que vinham às sinagogas - não para visitar, mas para converter judeus à nova crença - que para isso eles não eram bem vindos.
Dezoito bênçãos falam de agradecimento aos nossos antepassados, por terem nos legado uma tradição tão rica e bela, pedidos por saúde, prosperidade e paz. Mas como os rabinos não são bobos, a última benção acrescentada às demais dezoito da Amidá representa claramente que aqueles que nos querem mal - e querer nos fazer acreditar no que não acreditamos é nos fazer mal - não são bem vindos à nossa casa.
Bastante atual esta inclusão. Ainda hoje há aqueles que querem se passar por judeus  - e acham que estão nos fazendo um bem - para levar aos judeus uma mensagem que não é nossa. Para estes foi criada pelo modesto Shimon haKatan a Bircat HaMinim e só prá estes. Como diz o rabino B. Lau, continuam não sendo bem vindos.
abaixo uma tradução simplificada e informal da passagem do Talmud que conta um pouco desta historia. Quando tiver tempo, conto como um dos sábios abaixo, Rabi Eliezer, foi confundido com os "minim" (Maaminê Yeshu Hanotsri) e levado à "polícia" da época pelos romanos e de como ele escapou desta fria.
boa leitura! 

Talmud Bavli, Brachot 28b
versão informal e explicada: Uri Lam, fev. 2011
Eram os tempos da Mishná... (antes da destruição do 2o Templo)
Estavam reunidos, estudando juntos, um grupo de sábios. O tema do dia eram as Shemone Esre, as Dezoito Bênçãos, oração central dos serviços religiosos judaicos da semana.
No meio da conversa, Raban Gamliel afirmou: “Deve-se rezar as Shemone Esre todos os dias”. Mas como a cada dois judeus há três opiniões, entre os rabinos não poderia ser diferente. Logo veio Rabi Iehoshua e contestou: “Não! Basta uma versão abreviada, a Meêin Shemone Esre”.
Rabi Akiva sorriu para os colegas e contemporizou: “Bem, se ele tiver a reza na ponta da língua, que recite as Dezoito Bênçãos completas. Mas se não souber tudo bem, reza a versão abreviada, qual é o problema?”. 
Rabi Eliezer aproximou-se e disse: “Não sei não... desconfio de que se uma pessoa reza todos os dias a mesma coisa de modo fixo, suas preces perdem o sentido...”.
Rabi Iehoshua veio defender sua posição e a contextualizou: “Queridos amigos, vivemos tempos perigosos. muitos de nós já fomos assassinados. E se um judeu estiver passando por um lugar perigoso, o que deve fazer? Parar e rezar todas as Dezoito Bênçãos?! Correrá risco de vida! Basta que reze a versão abreviada e no final diga: ‘Eterno, salve o Teu povo, os remanescentes de Israel. Em toda situação pela qual passarem, que suas necessidades sejam atendidas por Ti. Bendito sejas Eterno, que escutas a tefilá.” (...)

Um bom tempo depois, na época da Guemará... (depois da destruição do 2o Templo)

Estavam reunidos, estudando juntos, um grupo de sábios. O tema do dia eram as Shemone Esre, as Dezoito Bênçãos, oração central dos serviços religiosos judaicos da semana. O tempo passa, e os judeus continuam estudando o que lhes foi legado por herança pelas gerações passadas, desde os tempos de Moisés no Sinai... não! Desde Avraham Avinu! Não, desde sempre! Bom, esta é outra discussão... mas vamos ao tema do dia:
Pergunta: A que correspondem as Dezoito Bênçãos?
Rabi Hilel, filho de Rabi Shmuel bar Nachmani, disse: “Pelo que aprendi, corresponde às dezoito menções ao Nome de Deus feitas pelo Rei David no Salmo 29 (Havu L’Ad-nai, benê elim)".
Rabi Iossef contestou: “Aprendi outra coisa, e me parece que a minha tradição é mais antiga do que a sua. Elas correspondem na verdade às dezoito menções ao Nome de Deus feitas na leitura do Shemá”.
Rabi Tanchum aproximou-se e comentou, daquilo que aprendeu com Rabi Iehoshua bar Levi: Amigos, quando rezamos, aprendemos que devemos rezar com todos os nossos ossos, lembram-se? Corresponde às dezoito vértebras da coluna espinhal". E ele continuou: "Quando formos rezar as Dezoito Bênçãos, devemos movimentar toda a coluna e nos abaixarmos até a última vértebra!" 
Ula disse: “Não precisa. Basta se curvar até a altura do coração, de modo que possa ver, por exemplo, uma pequena moeda no chão”.
Rabi Chanina foi mais longe: “Basta curvar a cabeça”.
E Raba arrematou: “Sim, mas só se não lhe causar dores”.

E são mesmo Dezoito Bênçãos?!

Rabi Levi disse: "Tem mais uma, a Bircat haMinim. Mas ela só foi instituída em Iavne, depois da destruição do 2º Templo, quando as perseguições romanas aumentaram e, como se isso não bastasse, passamos a ter entre nós gente que vem e tenta nos convencer de que agora vivemos um novo tempo, em que não é preciso mais fazer brit milá (circuncisão ritual), nem mitsvot (mandamentos religiosos), nem nada. Basta acreditar que o Mashiach já veio! Meus colegas, nestes tempos cruciais, a Bircat haMinim é parte integrante de nossas orações. Que Deus nos proteja - destes e daqueles!" 
Os outros se olharam e perguntaram: "Mas ela corresponde a que?"
Rabi Hilel, filho de Rabi Shmuel bar Nachmani, disse: “Corresponde a “El hacavod hir’im, do Salmo 29 do Rei David".
Os demais se olharam novamente e entenderam o recado. Hir'im, se lido de outro modo, soava como "haraím", os maus. A benção buscava proteger os judeus daqueles que, de um modo ou de outro, não os queriam bem, ou não os aceitavam como eram, com suas crenças e tradições já milenares.
Rav Iossef reforçou o sentido e afirmou: "Ela corresponde ao “Echad” (Um) da leitura do Shemá! Para deixar claro a quem entrar em nossas sinagogas e centros de estudos que para Israel, o Eterno é nosso Deus - e nosso Deus é Um só".
Rabi Tanchum relembrou e reforçou o que dissera antes, daquilo que aprendeu com Rabi Iehoshua ben Levi: “Corresponde a uma pequena vertebra no fim da espinha. Devemos nos abaixar até lá, até a última. E se doer? é para nos lembrarmos de que existem dores piores que não estamos dispostos a suportar".

Nossos sábios ensinaram que Shimon HaPaculi foi quem organizou as Dezoito Bênçãos originais, diante de Raban Gamliel, em Iavne.
Raban Gamliel perguntou aos sábios: “Não tem ninguém que possa compor a Bircat haMinim? Ela não deve ser uma benção vinda de outro lugar que não seja do coração. Não queremos mal aos outros, somente queremos distância daqueles que não nos querem bem. Quem se voluntaria?"
Shmuel HaKatan, o Pequeno, levantou-se e se voluntariou a compor a Bircat haMinim.
Conta-se que no ano seguinte ele a esqueceu e não a pronunciou. mas isto é uma outra história. 
Parashá da Semana: Tetsavê - Entre Nós: O Sagrado está na Relação
Uri Lam, para o boletim Congregar, da CIP

Rabi Chanina disse: “Virá o santo, e entrará no que é santo, irá se aproximar do que é santo, e expiará em favor de todos os santos”. (Midrash Raba: Tetsavê 38, 7)

Impressionante a capacidade de certos sábios de resumir uma parashá inteira em uma única oração. Mais impressionante ainda é a capacidade de atiçar a nossa curiosidade para a leitura da Torá desta semana. Afinal, do que Rabi Chanina está falando? Desde quando temos santos no povo judeu? Isso não é um tema judaico!, dirão alguns.
A questão da kedushá, da santidade, é parte integrante da vida judaica. Nós rezamos todos os dias na Amidá, a grande oração de nossos serviços religiosos, a inserção da Kedushá: “Cadosh, Cadosh, Cadosh, Ad-nai...” – Santo, Santo, Santo, o Eterno... (Isaías 6:3).  Não é incomum escutarmos de certas pessoas que seu intuito pessoal é ter uma vida santa. Como se faz isso? Um grande amigo me disse uma vez que “os rabinos, quando escrevem seus comentários sobre a Torá, têm uma enorme capacidade de criar boas perguntas, mas em geral não têm boas respostas”.
Vejamos o que nos conta a Torá nesta semana. Deus diz a Moisés para que dê uma ordem aos israelitas: “Tragam o mais puro azeite para manter continuamente acesa a luz no Ohel Moed, a Tenda da Reunião.” Em seguida a nossa leitura se concentra nos cohanim, os sacerdotes. Quais devem ser suas vestimentas e ornamentos, como estes devem vesti-los, como devem se portar. Tudo parece centrado neles, como se coubesse apenas ao líder religioso a obrigação de levar uma vida inspirada pelo sagrado: “E as vestimentas de santidade de Aarão depois serão para seus filhos... e serão consagrados com elas” (Êxodo 29:29).
Em diversas tradições, o líder religioso é vestido e investido por sua comunidade de uma condição especial. Alguns o chamam de pastor, outros de homem de Deus, outros ainda de sábio, guru, mestre. Atribui-se a estes homens e mulheres uma espécie de poder mágico, a capacidade sobre-humana de intervir junto a Deus em favor dos demais. Também entre nós, no povo judeu, esta prática é largamente adotada.
Nesta hora surge Rabi Chanina e nos diz que ninguém é santo sozinho. O rabino da época do Talmud estende a condição do sagrado desde a terra até os céus: “Virá o santo – Aarão; e entrará no que é santo – o micdash, o espaço sagrado; irá se aproximar do que é santo – Deus; e expiará por todos os santos - Israel”. A condição do sagrado não é uma exclusividade do líder religioso. O sagrado é inclusivo, construído e instaurado na dinâmica das relações entre o indivíduo, o lugar em que vive, Deus, e sua comunidade.
No mesmo midrash conta-se que, ao observar o sacerdote em suas roupas no mais sagrado dos espaços e no mais sagrado dos dias, o Iom Kipur, Deus não se recorda dos próprios méritos, nem da santidade do local, tampouco dos méritos do sacerdote. Deus se recorda dos méritos das tribos, do povo.
Em seu comentário para a parashá Tetsavê, o livro do Zohar - que a tradição atribui a Shimon bar Iochai - praticamente não se refere aos cohanim. Entre suas diversas vozes, escutamos a de Rabi Itschac: “A luz do alto e a luz de baixo são uma só, e o seu nome é ‘Tu’” (Tetsavê, 1). O Zohar se antecipa por séculos à brilhante obra de Martin Buber, “Eu-Tu”, que estabelece que o sagrado não está em mim nem em você, mas no verdadeiro encontro entre nós, num instante e local precisos. O sagrado está na relação: “Morarei entre os filhos de Israel e serei para ele Deus (Êxodo 29:45).
A luz permanecerá acesa enquanto alimentarmos em nossas relações – entre a comunidade, lideranças religiosas, o espaço em que nos reunimos e Deus – o processo contínuo de construção e manutenção do sagrado.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Parashat Hashavua (leitura semanal da Torá): Terumá
originalmente publicado no semanário "Congregar" da CIP em 2010
Uri Lam 
Façam-me um Santuário, e lá estarei presente com vocês
Era uma vez um rei que tinha uma única filha. Certo dia um nobre veio visitá-lo e se apaixonou perdidamente por ela. Conversou com o rei, declarou sua intenção de casar-se e levá-la para sua casa. O rei respondeu: “Meu caro, a sua noiva é a minha única filha. Não posso me separar dela, mas também não posso lhe dizer que não a leve com você”.
E agora, a filha fica ou a filha vai? Este é um dilema comum no nosso dia a dia, em nossas vidas. Quando um casal se apaixona e decide se casar ou viver junto, é natural que queira construir o seu próprio lar fora da casa dos pais. Mas para o pai e para a mãe todo filho é filho único, mesmo que sejam muitos os filhos e filhas. E não é fácil separar-se de nenhum deles. Alguns psicólogos dizem que este é o motivo da emoção e do choro durante a cerimônia de casamento: o desejo de que o filho ou filha fique, e ao mesmo tempo o desejo que ele ou ela vá e construa a sua própria família.
E como o rei da nossa história solucionou o conflito? Ele propôs ao genro: “Você me fará um grande bem se, em todo lugar onde for morar, construir um quartinho para mim de modo que eu possa estar presente com vocês”. (Midrash Raba, Terumá) 
Aprendemos no Zohar que toda sinagoga é um santuário. Quando o povo de Israel se espalhou pelo mundo, cada um de nós foi visto por Deus como a filha única do rei. Ele sabia que tínhamos que partir, mas ao mesmo tempo não abria mão de ficar longe de nós. Não importa se fôssemos para a Babilônia no passado ou para algum país da Europa, para os Estados Unidos, Japão ou Índia, para a Argentina ou Brasil. Onde quer que criássemos nossas famílias, Deus só pediu que lá houvesse um quartinho para Ele, de modo que pudesse estar junto de nós.
A sinagoga é este quartinho. Mas não é o único aposento da casa. Nossa congregação, ao longo de seus quase 74 anos, construiu muitos outros espaços: a escola judaica, os movimentos juvenis, o Lar das Crianças, o departamento de pessoal e financeiro, a Idade de Ouro, a cozinha, salões de festas e de reuniões, a bolsa de empregos, a Chevra Kadisha, a sala da música, a biblioteca, a comunicação, o rabinato, o culto, a lojinha, uma casa no campo, até mesmo um site, o nosso espaço virtual na Internet. Deus tem o Seu quartinho, cujas portas estão abertas para todos os moradores e convidados, mas certamente circula por todos os demais cantos desta enorme Casa Israelita Paulista. 
No midrash, quando o rei propôs ao futuro genro que construísse um quartinho para ele no novo lar, a sua intenção era clara: ele não queria ficar sozinho, mas sim perto da família. O Zohar nos conta que quando a Shechiná se aproxima e vem à sinagoga mas as pessoas não vêm, Ela se pergunta: “Por que Eu vim e não tem ninguém?” De nada adianta uma casa linda, com um quarto de rei, se não houver gente circulando, rezando, estudando, conhecendo-se, doando-se, trabalhando. De nada adiantam os quadros mais lindos e a melhor infraestrutura se não houver crianças brincando, jovens dançando, música tocando – e tudo isso em harmonia, em uma mesma respiração de um único ser vivo: o povo de Israel.
Tudo o que esta congregação nos proporciona nos foi dado como o legado de uma tradição milenar que está à nossa disposição. Como diz um amigo querido, os direitos autorais do que temos aqui nos foram entregues por Deus e pertencem ao povo judeu. A terumá, a doação que Ele espera de nós, é a nossa presença nesta casa, é ocupar o espaço, homens e mulheres, crianças e adultos de todas as idades, para levarmos ao limite e colocarmos em prática todo o potencial colocado ao nosso dispor.
Deus nos deu a Sua Torá e nos pediu para não a abandonarmos. Nossa retribuição é dar à Presença Divina, à Shechiná, a nossa presença, as nossas ações. Se assim for, Deus estará sempre presente e feliz em viver na mesma casa que nós.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Quem não viu o Templo de Herodes, não viu tão belo edifício em sua vida
Este ano faço um curso de extensão em Modiin (entre Jerusalem e Tel Aviv) prá lá de interessante. Nele estudamos, uma vez por semana, o dia inteiro, passagens do Talmud, textos do Rebe Nachman de Breslav e textos de Nachman Bialik, que vem ainda acompanhados de uma abordagem psicológica que eu diria ser existencialista, voltada para a orientação de grupos. Parece complicado... e é. Mas na prática, o encontro semanal estabelece um diálogo delicioso entre estas diversas fontes judaicas, clássicas, modernas e contemporâneas - e aqui incluo a abordagem psicológica também. Em outras oportunidades espero falar mais deste estudo em grupo.
Na semana passada nos deparamos com um texto difícil. Não tanto de ler, mas principalmente de compreender, de sentir. Esta suguiá (passagem do Talmud) conta sobre Herodes e termina com a frase que dá o título deste post: "Quem não viu o Templo de Herodes, não viu tão belo edifício em sua vida". Veremos a que preço este "belo templo" foi construído, na visão dos sábios do Talmud.
O texto dialoga com outra passagem do Talmud, onde se faz uma comparação entre diversos princípios, por dizer assim, tão importantes para a vida judaica: a sinagoga, o Sefer Torá, a libertação de pessoas feitas prisioneiras. O que tem mais valor, um edifício? ou  a vida dos cativos? Impossível não pensar, para quem está em Israel, nos mais de 4 anos em que o jovem soldado Guilad Shalit está sequestrado e cativo nas mãos do Hamas, em Gaza. Qual preço se deve pagar por sua libertação? Alguns entendem que a vida é o maior valor do judaísmo e que tudo deve ser feito para pagar por sua liberdade. Outros dizem que o preço pedido é muito alto: a libertação de mais de mil prisioneiros palestinos em Israel, entre os quais há um número significativo de terroristas, pessoas que planejaram ou cometeram atentados terroristas, levando consigo a vida de tantos civis israelenses. E qual o preço para resgatar os sobreviventes da tragédia no Rio de Janeiro, bem como resgatar os corpos de mais de 630 pessoas mortas em meio a desabamentos e enchentes? Quanto valem estas vidas - para o governo, para as famílias, para os amigos, para as próprias pessoas que estão sofrendo tanto?
Uma das questões que o Talmud levanta é: o que é mais importante, a construção de uma sinagoga ou a libertação dos cativos? o que é mais importante, a construção de templos e igrejas gigantescas, ou com tanto dinheiro resgatar vidas de condições miseráveis? Sãop questões que ficam em aberto.
Vale à pena ler o texto abaixo (na minha opinião, claro) para ver a que preço foi levantado o Templo de Herodes.
Boa leitura e uma ótima semana.
Quem não viu o Templo de Herodes, não viu tão belo edifício em sua vida...

Talmud Bavli, Baba Batra 3b, 4a
trad.: Uri Lam, Tevet 5771, jan. de 2011 
Herodes, escravo da Casa dos Chasmonaim (hasmoneus), teve seus olhos atraídos para uma certa menina. Um dia este homem escutou a Bat Kol (a “voz divina”) dizer: “Todo escravo que se rebelar agora será bem sucedido”. Ele foi e assassinou todos os seus senhores, deixando somente a menina. Ao ver que ele pretendia se casar com ela, a menina subiu no telhado e gritou: “Quem vier e disser ‘Eu sou da Casa dos Chasmonaim’ [na verdade] é um escravo!” - pois ninguém sobrou deles a não ser a menina – e ela caiu do telhado até o chão. Ele preservou seu corpo em mel durante sete anos.
Há quem diga: “Ele manteve relações sexuais com [o corpo d]ela”; e há quem diga: “Ele não manteve relações sexuais com ela”. De acordo com quem diz que ele manteve relações sexuais com ela, o motivo de embalsamá-la foi satisfazer seus desejos. De acordo com quem diz que ele não manteve relações sexuais com ela, o motivo foi para que dissessem: “Casou-se com a filha do rei”.
[Pensou Herodes] “Quem foi que disse que ‘dentre teus irmãos porás um rei sobre ti’ (Deut. 17:15)? Os Sábios!” Ele foi e matou todos os Sábios, deixando Baba ben Buta, para ter com quem se aconselhar.
[Herodes] Colocou na cabeça [de Baba ben Buta] uma coroa de espinhos de ouriço que lhe arrancou os olhos. Um dia Herodes veio [sem se identificar], sentou-se diante dele e disse: “Veja só, meu senhor, este escravo maldoso [Herodes], o que ele faz!” Disse-lhe [Baba ben Buta]: “O que posso fazer para ele?” Respondeu-lhe [Herodes]: “Amaldiçoe-o, meu senhor!” [Baba ben Buta] respondeu: “Está escrito: ‘Nem mesmo em teus pensamentos você dever amaldiçoar um rei’ (Eclesiastes 10:20)”. Disse-lhe [Herodes]: “Ele não é rei!” [Baba ben Buta] respondeu: “Mesmo que ele seja apenas um homem rico, está escrito ‘e nem mesmo no seu dormitório amaldiçoe os ricos’ (idem); e ainda que ele não seja mais do que um governante, está escrito: ‘e não amaldiçoe um governante do teu povo’(Êxodo 22:27)”.  Disse-lhe [Herodes]: “No caso de quem age como um de seu povo, mas este não age como alguém do seu povo!” Respondeu-lhe [Baba ben Buta]: “Eu tenho medo dele”. [Herodes] respondeu: “Mas ninguém virá e dirá a ele sobre eu e você estamos sentados aqui [sozinhos]”. [Baba ben Buta] Respondeu: “Está escrito: ‘Pois uma ave no céu levará a voz - e quem tem asas contará tudo’ (Eclesiastes 10:20)” Disse-lhe [Herodes]: “Eu sou este homem [Herodes]. Se eu soubesse que os Sábios eram tão cuidadosos, não os teria matado. Agora, como posso consertar o que fez aquele homem?” [Baba ben Buta] Respondeu-lhe: “Ele extinguiu a luz do mundo [ao matar os Sábios], conforme está escrito: ‘Pois a mitsvá [mandamento divino] é a vela e a Torá é a luz’ (Provérbios 6:23). Ele deve ir e se ocupar da luz do mundo, conforme está escrito: ‘E fluirão para [serão iluminadas por] ele todas as nações’ (Isaías 2:2) [Baba ben Buta interpreta “naharu” (fluirão) a partir do termo “nehorá” (luz)]. Há quem diga que [Baba ben Buta] lhe respondeu assim: “Ele cegou o olho do mundo, conforme está escrito: ‘E será que, por causa do olho da Congregação’ (Números 15:24). Ele deve ir e se ocupar do olho do mundo, conforme está escrito: ‘Aqui estou a profanar o Meu Mikdash [o Templo Sagrado], o orgulho do seu poder, o deleite dos seus olhos’ (Ezequiel 24:21)”. [Herodes] Respondeu: “Temo o Governo [de Roma]”. [Baba ben Buta] Respondeu-lhe: “Mande um enviado por um ano até lá [Roma], deixe-o lá por um ano, e que retorne por um ano -  durante este período derrube [o Templo] e reconstrua-o”. Assim o fez. Enviaram-lhe [a Herodes, de Roma, a seguinte mensagem]: “Se você ainda não o derrubou, não o faça. Se você o derrubou, não o reconstrua. Se você o derrubou e o reconstruiu, você é um desses servos ruins que primeiro fazem e depois pedem permissão. Se as armas estão com você, conte de quem você descende; você não é recha [rei] nem descende de um rei, Herodes, escravo que libertou a si mesmo”. O que significa “recha”? Realeza, conforme está escrito: “E eu hoje sou Rach (Rei) e ungido Rei” (2 Samuel 3:39). E caso queira, daqui se depreende [do que foi dito de José, após ocupar o segundo posto de poder, só abaixo do Faraó]: “E diante dele o chamavam de Avrech [termo egípcio que significa “governante”, que os Sábios do Talmud interpretaram como Av Rech, “Pai do Rei”] (Gênesis 41:43). Dizem: Quem não viu a construção [o Templo] de Herodes, não viu tão belo edifício em sua vida.