terça-feira, 18 de outubro de 2011

Declaração da WUPJ (World Union for Progressive Judaism) sobre a libertação de Guilad Shalit
tradução: Uri Lam

A World Union fro Progressive Judaism, que representa 1,8 milhão de judeus em todo o mundo, está extremamente feliz em dar as boas vindas a Guilad Shalit de volta para casa, para Israel e para sua família.
Após cinco anos de cativeiro, o pesadelo finalmente passou e a WUPJ deseja a Guilad Shalit e à sua família e amigos uma passagem tranquila de volta à normalidade.
Muitos países e muita gente esteve envolvida nas negociações que levaram à libertação de Shalit e que, nesse espírito de cooperação, possamos rezar para que seja gerada a boa vontade na direção de uma futura estabilidade na região.
Neste tempo de alegria, no entanto, devemos fazer uma pausa para refletir sobre o enorme preço que Israel pagou para obter a libertação de Guilad Shalit. Nossos pensamentos se voltam para as famílias das vítimas de alguns dos terroristas que foram soltos nesta troca de prisioneiros. A WUPJ entende suas dúvidas, mas esperamos que este gesto simbólico possa superar seus medos e preocupações.
Que nós possamos ver, neste novo ano judaico de 5772, esperança e recomeço.

Rabino Stephen Lewis Fuchs 
Presidente da World Union for Progressive Judaism

Michael Grabiner 
Chair da World Union for Progressive Judaism

Somado a esta declaração, o rabino Stephen Fuchs juntou-se à declaração feita por líderes da Comunidade Judaica Reformista Norte Americana:

Every bee that brings the honey
Needs a sting to be complete
And we all must learn to taste the bitter with the sweet.

Cada abelha que traz o mel
Precisa de uma picada para ser completa
E devemos todos aprender a sentir o amargo com o doce.

Estas palavras da cantora israelense Naomi Shemer expressam nossas emoções hoje após a libertação de Guilad Shalit. Nós sempre devemos manter junto a nós com carinho aqueles cujas vidas foram prematuramente interrompidas por aqueles que foram libertados da prisão neste mesmo dia em que nos alegramos com a família Shalit, com Israel e com o Povo Judeu pelo retorno de Guilad.

Rabino Eric Yoffie
Presidente da URJ (Union for Reform Judaism)

Rabino David Ellenson
Presidente do HUC-JIR (Hebrew Union College-Jewish Institute of Religion)

Rabino Steven Fox
Chefe Executivo da CCAR (Central Conference of American Rabbis)

Rabino Daniel Allen
Diretor Executivo da ARZA (Association of Reform Zionists of America)

Rabino Stephen Lewis Fuchs
Presidente da WUPJ (World Union for Progressive Judaism)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

ROSH HASHANÁ - 2a manhã, 2 de Tishrê 5772 / 30 de setembro de 2011
Congregação Israelita Paulista (CIP)
Prédica/Drashá: Uri Lam
MÃO FORTE E BRAÇO ESTENDIDO
Todo dia importante, que gera grandes expectativas, que podem levar a grandes vitórias ou a grandes frustrações, a grandes alegrias ou a grandes tristezas, todo dia com o potencial de servir como divisor de águas em nossas vidas, parece ser mais longo que os outros dias. Rosh Hashaná tem todas estas características. É Iom Hadin, o Dia do Julgamento. Sempre que somos expostos a julgamento, a críticas, parece que os minutos não passam.
Rosh Hashaná, o Dia do Julgamento, não ocorre num tribunal comum. Diante de nós, como se estivesse numa bimá celestial, está Deus. E aqui na Terra, estamos nós. Alguns de nós pode pensar: como Deus pode nos avaliar, estando Ele lá, e nós aqui? No dia 12 de abril de 1961, há 50 anos, a bordo da nave Vostok 1, o cosmonauta Iuri Gagarin, primeiro cosmonauta a viajar pelo espaço, a dar uma volta completa em órbita ao redor do planeta, afirmou lá de cima: “A Terra é azul”. Se a visão de Deus for parecida com a de Iuri Gagarin, como Ele pode nos julgar, se tudo o que Ele vê é que a Terra é azul?
Por outro lado, conta-nos o Midrash Devarim Rabá, que embora Deus tenha colocado os céus nos céus e a terra na terra, veio o homem e, por obra de suas mãos, colocou tudo de cabeça para baixo.
Deus, que estava no céu, desceu para a terra, até o Monte Sinai. Por sua vez, Moisés, que estava na terra, subiu aos céus, até o Monte Sinai. Impossível não nos lembrarmos do afresco de Michelângelo, em que a “mão” de Deus quase toca a mão do Homem. Quase, mas não toca.
Nunca, jamais imaginamos Deus a segurar a Torá e a entregá-la para Moisés “em mãos”. A Mishná, no tratado Avot, com os ditos dos nossos antepassados, diz que Moisés recebeu a Torá no Sinai e a transmitiu para os demais líderes numa corrente intermitente. Al Pi Adonai, beiad Moshé – pela boca de Deus, pelas mãos de Moisés. Esta corrente de transmissão chegou até nós, hoje, início de 5772. Pelas mãos de Deus? Não! Pelos ditos de Deus, mas a obrigação de transmitir a Torá é, e deve ser, feita pelas nossas próprias mãos, pelos nossos próprios atos. Uma das principais mensagens contidas, na transmissão da Torá por Moisés, até chegar a nós é: hevú metunim badin – sejam moderados no julgamento. Bom saber. Afinal, hoje é Iom Hadin, o Dia do Julgamento.
Lemos na Torá, e também na Hagadá de Pessach, e nas nossas rezas diárias no sidur, e também em nossos machzorim de Rosh Hashaná e Iom Kipur, que Deus nos retirou do Egito beiad chazacá uvizeroá netuiá, com mão forte e braço estendido. Esta foi a frase que ecoou nos meus ouvidos nos últimos dias, e que inspirou as palavras desta manhã: Mão forte e braço estendido. O Êxodo do Egito nos remete a Pessach ─ mas este mesmo êxodo é lembrado também em Rosh Hashaná. Avinu, Malkenu, nosso Deus bondoso como um pai, e nosso Deus firme como um rei, nos tirou do Egito, com mão forte e braço estendido. A imagem da mão forte é clara: a mão poderosa de um rei. E o braço estendido? Lembro-me dos desenhos de hagadot de Pessach antigas, com um looongo braço de Deus.
Mas hoje, Rosh Hashaná, quero propor a vocês outra imagem deste looongo braço: um braço acolhedor, um braço de abraço. Enquanto Deus, nosso Rei, atua com mão forte, o mesmo Deus, nosso Pai, nos abraça e nos acolhe com o braço estendido.
Quando lemos, nesta manhã de Rosh Hashaná, que Deus ordena a Avraham Avinu para levar o seu filho Itschac, que tanto ama, para ser sacrificado, se nos colocamos no lugar de Abrahão e de Sara, podemos sentir a mão forte de Deus a esmagar o nosso pescoço, a ponto de não termos ar nem para responder um “sim”, nem um “por que, Deus?”. Por que amarrar e sacrificar o próprio filho???
Neste Iom Hadin alguns de nós podemos pensar se no ano que passou agimos como Abrahão, que se calou diante da ordem Divina de sacrificar o próprio filho. Até que ponto sacrificamos nossos filhos, nossos pais, nossos irmãos, nossos amigos, nossos funcionários, nossos colegas? Até que ponto nos calamos? Até que ponto? Até que ponto, depois de criá-los, festejá-los, alimentá-los, cuidarmos deles, rirmos junto com eles, estimulá-los, até que ponto depois nós os amarramos aos nossos próprios valores e os sacrificamos? Até que ponto estamos à beira de sacrificarmos alguém neste ano que se inicia?
Deus ordenou que Abrahão amarrasse Isaac e o sacrificasse, mas foi o próprio Abrahão quem amarrou o próprio filho, com as próprias mãos. Alguns podem dizer: “Abrahão foi fiel a Deus! Abrahão demonstrou até onde pode ir, em nome de Deus!” Mas será isso o que Deus queria de Abrahão? Será que é isso o que Deus espera de nós, neste Dia de Julgamento? Que não importa o que Ele nos diga, que não interessa o que Ele nos ordene, o importante é que façamos valer a palavra de Deus? Nem que seja matar o próprio filho?
Nós nos acostumamos a destacar, na história do sacrifício de Isaac, o fato de, no último segundo, um anjo ter impedido a mão de Abrahão de matar o próprio filho. Este teria sido o divisor de águas entre o recém-nascido povo de Israel e os demais povos da região, acostumados a sacrifícios humanos. Nós não fazemos sacrifícios humanos!!! Nós somos um povo ético! Nós não matamos à toa!!!
Quero propor hoje um outro foco, uma outra maneira de ver o sacrifício de Isaac. Vamos nos lembrar da cena: Abrahão e Isaac chegaram ao lugar que Deus ordenou que fosse feito o sacrifício. Abrahão ergueu ali um altar, preparou a lenha, amarrou seu próprio filho, com suas próprias mãos, e fez Isaac se deitar sobre o altar. Abrahão estendeu sua mão e pegou a faca para sacrificar o filho. Mão forte e braço estendido. A mão pronta para uma ação forte. O braço estendido para quê?
Neste Iom Hadin, de Rosh Hashaná, quando Deus, Nosso Pai e Nosso Rei, começa a fase final do nosso julgamento, lembramos que Ele usou a Sua mão forte para nos livrar do Faraó e da escravidão, e que nos abraçou com Seu braço estendido, como um pai e com uma mãe fazem com seus filhos.
A história de Isaac nos leva para um grande dilema: a quem estendermos o braço? Contra quem usarmos a mão forte? Um anjo de Deus aparece a Abrahão e lhe diz, lá do céu: “Abrahão, Abrahão!” E ele responde: “Hineni, estou aqui!”. O anjo está lá no céu. Abrahão está aqui, na terra. Os anjos estão tão próximos do homem que, às vezes, nos momentos críticos, podemos ouvi-los. Mas não tocá-los. E mais: eles não podem impedir nossas mãos. As obras de nossas mãos são nossa responsabilidade. Se vamos usar a nossa mão forte para nos defendermos ou para nos boicotarmos, para produzir obras de arte ou para puxar o gatilho, a decisão e o ato em si mesmo é só nosso. Mas os anjos podem falar e até gritar com a gente para pensarmos melhor antes de fazermos alguma bobagem. E na nossa história, o anjo gritou com Abrahão: “Não estenda o seu braço sobre o moço e não lhe faça nada; agora sei que você teme a Deus”. O anjo sabe, afinal, que Abrahão é temente a Deus e que faria qualquer coisa por Ele. Mas não é isso o que Deus espera de Abrahão!!!
Quanta gente, hoje em dia, faz qualquer coisa em nome de Deus? Quanta gente, hoje em dia, mata, chantageia, mente, engana, em nome de Deus? É isso o que Deus espera de nós?
O anjo impede Abrahão de sacrificar o próprio filho porque o braço estendido de um pai não serve para matar, porque o braço estendido de um pai e de uma mãe servem para abraçar!!! É como se Deus dissesse: Abrahão, eu sei que você é temente a Mim, afinal, eu sou o Seu Rei. Mas o que Eu espero de você é que você use a sua mão forte para se defender, e que você estenda o seu braço para abraçar o seu filho, não para amarrá-lo, e jamais para matá-lo! Abaixe a mão Abrahão!
Ser temente a Deus, ser religioso, acreditar em Deus é fácil. Mas é pouco. Não é isso o que Deus espera de nós. Deus espera de nós ações práticas, braços estendidos para acolher, para abraçar, para ensinar, para indicar o caminho para os nossos filhos, para os nossos amigos, para quem pudermos ajudar a seguir pelo caminho do bem. Usar somente de mão forte com nossos filhos pode significar amarrá-los aos nossos próprios valores e temores. Estender-lhes a mão e abrir espaço para que escolham seus próprios caminhos, ainda que não sejam os nossos, e abraça-los nos momentos de dificuldade, com um abraço estendido, gostoso e protetor ─ pode ser uma boa dica de o que Deus espera de nós para o ano 5772.
Shaná Tová
Uri Lam

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Parashá da semana: Ki Tetsê
Lembre-se de Amalec para não ser como ele – seja você gente com as outras pessoas
Uri Lam, para o folheto Congregar, da CIP 
“Quem sai na chuva é prá se molhar”. Muitas vezes repetimos o conhecido ditado para quem se expôs a uma situação que por sua vez levou a consequências indesejáveis. A vida lá fora é arriscada, mas para que a vida faça sentido é preciso ir à luta e se expor ao risco.
“Chove lá fora - e aqui faz tanto frio”. Na canção do compositor Lobão, apesar da chuva lá fora, deixar de sair e de enfrentar as dificuldades é ainda mais difícil: é frio e angustiante. E conforme a nossa parashá da semana, a opção de ficar dentro de si mesmo ou dentro de casa e não ir à luta não existe. A Torá não diz “se você sair à guerra” e sim “quando você sair à guerra”. Não adianta fazer de conta que as suas dificuldades não estão lá fora, nem imaginar que se ficar quietinho dentro de si mesmo, elas irão desaparecer como num passe de mágica. A questão da Torá é: quando você for sair para a guerra, como você deve agir?
Ki Tetsê nos expõe a 72 situações nada fáceis de lidar – 72 mitsvot, segundo Maimônides. Estamos no mês de Elul, o último do ano judaico. Estamos perto do prazo final para enfrentarmos nossos fantasmas antes de nos encontrarmos com Deus em Iom Kipur. São 72 oportunidades de cultivar diversas qualidades dentro de nós: clareza, equilíbrio, integridade, bondade, compaixão, generosidade, honestidade e justiça, amor por Deus e amor pelo ser humano.
É mais fácil exigir tudo isso de outras pessoas: puxa vida, ele podia ter sido mais paciente comigo; ela deveria ter sido mais generosa com aquele senhor; não é justo o que eles fizeram com aquela gente...
No entanto, o que a Torá discute esta semana é como você deve se portar quando você estiver “por cima”, quando você estiver em vantagem diante de uma pessoa em situação de fragilidade. “Quando você sair à guerra contra os seus inimigos...”. é de você que a Torá fala, não dos outros. Quando você estiver diante de outras pessoas em posição que lhe favorece, a tentação de se vingar, de dar uma lição ou de provocá-las é muito grande. Mas o que a ética judaica nos ordena é justamente o contrário: devemos aproveitar a nossa vantagem para fazer uma boa ação. Ao encontrar algo que claramente alguém perdeu, não fazer de conta que não viu, mas sim recolher e aguardar que o dono reclame o que é dele e devolver. Não cobrar juros de um empréstimo feito ao amigo em dificuldades. Não aplicar dois pesos e duas medidas para a mesma situação.
Quando você sair à luta, seja gente com quem encontrar pelo caminho e estiver passando dificuldades. Seja caloroso. Ser gente é o que Deus espera de você.

terça-feira, 16 de agosto de 2011


Parashá da Semana: Ékev
E agora Israel, o que o Eterno, teu Deus, espera de você?
Uri Lam - originalmente para o folheto "Congregar" da CIP

Há quem diga que “se” é uma palavra que não existe. Ou as coisas são de um jeito ou de outro. Se fosse... mas não é. O “se” constrói um universo paralelo no qual, se assim fosse, o mundo seria perfeito, as pessoas se respeitariam e se amariam e o único trabalho de Deus seria contemplar a Sua bela obra coletiva de criação. O perdão seria uma prática inexistente, pois não haveria o que perdoar. O Iom Kipur não existiria, pois não haveria transgressões pelas quais pagar nem erros a se reconhecer.
Se todos cumprissem as leis e estatutos divinos, metade do nosso vocabulário jamais teria existido. Viveríamos em um mundo em que somente o bem prevaleceria, sem a contraposição do mal. Não haveria guerras nem mal-entendidos. As pessoas não falariam mal das outras por trás, filhos e pais sempre se respeitariam, casais viveriam em harmonia e sem crises conjugais. Se apenas cumpríssemos todas aquelas leis...
Conta um midrash que no início, quando Deus entregou os Dez Mandamentos a Moisés e o povo de Israel afirmou “Naassê venishmá”, “Faremos e ouviremos”, Deus acreditou em nós. No entanto, não demorou muito para que o Todo Poderoso percebesse as dificuldades daquela gente insubordinável, nas palavras Dele mesmo. O Eterno então baixou as expectativas e passou a exigir somente que cumpríssemos pelo menos a segunda parte do acordo: “Ouviremos”.
E agora, Israel, o que o Eterno teu Deus espera de nós - agora que Ele sabe que somos incapazes de cumprir tudo o que prometemos? Deus parece esperar que sejamos capazes de pelo menos escutar o que Ele tem a dizer e tentar seguir por Seus caminhos, amar e respeitar as Suas criaturas e valores, “e servir ao Eterno de todo coração e com toda a alma” (Deut. 10:12). Diferente do que nos foi ordenado no Shemá – amar a Deus de todo coração, com toda a alma e com todas as forças – agora se pede para servirmos a Deus (não necessariamente amá-Lo) de todo coração e com toda a alma, mas não com todas as forças ou posses. Por um lado Deus não espera mais que sejamos perfeitos, mas por outro passa a exigir que cada um confesse seus erros, peça perdão aos seus semelhantes e a Ele mesmo, e busque ser uma pessoa melhor a cada dia e a cada ano.
Na semana passada lemos o primeiro parágrafo do Shemá e nesta lemos o segundo parágrafo. O “plano A” de Deus era que o amássemos de todo coração, com toda a alma e com todas as forças. O “plano B” é nos dar a opção: se O escutarmos de todo coração e com toda a alma, teremos vida longa sobre a terra. Se não... temos ainda a oportunidade do arrependimento e do perdão. E agora Israel?

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Como as crianças judias rezavam no Holocausto?
Esta foi a pergunta que recebi de uma pessoa via e-mail. Perguntou-me se elas rezavam em pé, ajoelhadas, se inclinavam o corpo, etc.
Por algum motivo esta pergunta me levou longe, a imaginar como as crianças judias rezavam nos campos de concentração, nos guetos, nas ruas, nos bueiros, nos bosques, na neve, diante da entrada para a câmara de gás, durante a fome que a consumia por dentro.
Algo me doeu nos kishkes, como se diz, com esta pergunta.
E me lembrei da cena comovente de um homem no campo de concentração que, num dia que me parece que era Simchat Torá, o dia da alegria da Torá, na falta de rolos da Torá ergueu uma criança e ela foi a Torá. A criança não rezava. A criança era a reza, a oração, a benção em si mesma.

Minha resposta foi a seguinte: 
Cara XYZ,

Um milhão de crianças morreram nos campos de concentração.
Outras milhares delas sobreviveram Deus sabe como, diante do monstro nazista.
Como elas rezavam?
Certamente muitas rezavam. "Afinal, se algo de bom existir no mundo, deve estar para além desse sofrimento - deve ser Deus".
Certamente muitas não rezavam. "Afinal, se Deus existisse, não teria permitido que passássemos por isso".

Talvez rezassem em pé - se pudessem ficar em pé, dada a fome, o sono, as doenças, o sofrimento.Talvez rezassem na cama - se tivessem cama, e não fossem amontoadas às dezenas em estrados de cimento, umas sobre as outras.
Talvez rezassem para acordar no dia seguinte. Talvez rezassem para não acordar no dia seguinte.
Talvez rezassem murmurando - pois somente para isso tinham forças.
Talvez inclinassem o corpo que de tão fragilizado, era um milagre que se mantivesse em pé.


Certamente, toda certeza mesmo, é que as crianças judias jamais rezaram ajoelhadas - pois esta não é uma prática judaica.
 

A posição em que rezavam ou não tem muito menos importância sobre o por que rezavam.
Talvez por não entenderem o que se passava à sua volta, de tão absurdo de cruel.
Talvez por entenderem e rezarem para Deus para não entenderem.
Talvez pedissem para viver e contar sobre as atrocidades que passaram.
Talvez pedissem para morrer e assim abreviar o sofrimento.
Talvez rezassem para, por pelo menos alguns minutos, estarem com Deus, e não em meio àquele inferno.


Cara XYZ,
Um milhão de crianças foram exterminadas nos campos de concentração.
Talvez porque pouca gente rezou por elas,
Talvez porque pouca gente prestou atenção nelas,
Talvez porque quem rezou, não pensou nelas,
Talvez porque quem apoiou o mosntro nazista não rezava,
Talvez porque quem apoiou o monstro nazista rezava, mas não pensava nas crianças judias que rezavam nos campos de extermínio.
Seja na posição que for, da religião que for.


Espero ter respondido como as crianças judias rezavam na época do Holocausto.
Difícil foi continuar rezando depois do Holocausto. Depois de tanta crueldade.
Mas graças a Deus aqui estamos,

rezando em memória da alma de um milhão de crianças assassinadas no Holocausto.
Que a lembrança delas seja sempre uma benção para todos nós -
para que nunca mais uma besta faça isso com uma criança nem com qualquer ser humano.

despeço-me com um cordial shalom.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O Mistério do Guefilte Fish
Uri Lam

Conta-se no Talmud (Horaiot 10a) que Rabi Gamliel e Rabi Iehoshua estavam navegando juntos. Gamliel levou a quantidade exata de pão para a viagem, mas Iehoshua levou além do pão, uma porção extra de farinha. A viagem durou mais do que o esperado, a provisão de pão de Rabi Gamliel acabou e o que manteve os dois sábios foi a farinha extra de Rabi Iehoshua.
Gamliel perguntou: “Como você sabia que teríamos um contratempo?”
Iehoshua respondeu: “Eu verifiquei que há um astro no céu que aparece a cada setenta anos, e que se aparecesse agora, poderia nos desviar da rota.”
Surpreso, Gamliel perguntou novamente: “Você é tão sábio, por que precisava subir neste navio para obter seu sustento?”
Rabi Iehoshua respondeu: “Antes que fale de mim, conheça dois alunos meus que estão em terra firme, Rabi Elazar e Rabi Iochanan. Eles sabem dimensionar exatamente quantas gotas existem no mar, mas não têm o que comer e nem roupas para vestir.”

Os rabinos do Talmud viveram cerca de 1.500 anos depois que o Povo de Israel entrou no meio do mar, por terra seca, naquele dia que separou os tempos de escravidão dos tempos de liberdade.
Rabi Gamliel levou para sua viagem a mesma quantidade de mantimentos que levaria para qualquer viagem. Rabi Iehoshua, por sua vez, entrou no mar prevenido: conforme a historia, levou em conta a configuração do céu, tão importante para todo navegador quanto o mar, como nos diz Fernando Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”.

Muito se discute, a respeito da saída do Egito, sobre os motivos pelos quais os israelitas foram ordenados por Deus a levar tanto ouro, tanto gado, tanto tudo para a viagem. Afinal, era muito mais do que o necessário para uns poucos meses de caminhada pelo mar de areias. Talvez eles não soubessem, mas Deus sabia que algo poderia desviá-los da travessia comum. Era preciso mais do que matsot feitas às pressas se quisessem levar a maior das aventuras de Israel adiante, aquela que faria de nós o Povo de Israel.

Na continuação do relato do Talmud, Rabi Gamliel lembra-se que quando estavam para subir no navio para trabalhar, ele convidou os alunos de Rabi Iehoshua a virem com eles, mas eles não vieram. De que adiantava estudarem Torá, se não se dispunham a trabalhar? De nada. É inútil saber quantas gotas de água há no mar se não houver disposição para entrar no mar e trabalhar pelo próprio sustento.

O mistério do Guefilte Fish no Seder de Pessach
A mesa do seder é o nosso navio. Ao nos sentarmos nela, entramos no mar, em terra seca e segura, em direção à liberdade, exatamente como fizeram nossos antepassados quando cruzaram o Mar Vermelho. O peixe não nasceu em embalagens plásticas nos supermercados e mais ainda, precisamos trabalhar para comprá-lo. E ainda mais: é preciso entrar em ação para recolhê-lo das águas. De nada adianta se dedicar obsessivamente aos detalhes do que significa cada gota do mar se não nos arriscarmos a entrar nas águas do mar para pescar. A escravidão que precisa ser deixada para trás é a escravidão das teorias e das teologias, do planejamento excessivo, das ideias brilhantes que ocupam tanto espaço no papel ou na memória do computador. A Torá é um mar de ideias e valores, mas somos nós que devemos fazer o esforço de nadar e decidirmos como e em qual estilo nadar. Se não nos esforçarmos além de conhecer sobre, e sem nos dedicarmos a conhecer vivendo, teremos que escutar a ironia de Maimônides, o Rambam (1135-1204), quando disse no seu Guia dos Perplexos mais ou menos assim: "Tudo bem meu caro, não quer se esforçar? Solte o corpo nas águas - e logo afundará". 

Nossos sábios nos ensinaram que devemos nos dedicar à Torá, mas também devemos aprender a nadar. Quando a Hagadá de Pessach nos diz: “Quem tem fome, venha e sente-se conosco”, ela espera que cada um de nós cruze o mar e vá em direção a quem tem fome de comida, fome de conhecimento, fome de religiosidade, fome de idishkeit, fome de viver judaicamente, e convide-os todos para se juntarem a nós, ou em nossa metáfora, que subam para dentro do navio e cruzem o mar conosco.

Navegar é preciso, arregaçar as calças e saias, entrar no mar e se molhar é preciso – mesmo que a água às vezes esteja gelada ou bata no nariz − se quisermos em mais sete semanas nos encontrarmos no Monte Sinai para receber as novas instruções. Se quisermos renovar o  nosso pacto com Deus quando Ele novamente nos entregar a Torá, temos que mergulhar na água e ir em sua direção. A Torá no deserto não tem valor. Ela só faz sentido se nós formos na sua direção, a estudarmos e principalmente, a colocarmos em prática.

Chag Pessach Sameach e Shabat shalom.

Uri Lam, de Jerusalem

quinta-feira, 17 de março de 2011

Oração para o povo do Japão
Rabino Yehoram Mazor
Trad.: Uri Lam
Rompida rompeu-se a terra, em pedaços despedaçou-se a terra, movida move-se a terra feito bêbado. (Isaías 24:19) Sua aflição passará para o mar cujas ondas serão atacadas e secarão todas as profundezas... (Zacarias 10:11)
Soberano do Universo, cujo espírito paira sobre tudo, que criou os céus com sabedoria e estendeu a terra sobre as águas. Tu concedeste o Teu arco-íris nas nuvens e nos informaste que não haveria mais inundações. As forças da terra a estremeceram, as ondas do mar quebraram amargamente e nossos irmãos japoneses foram acometidos pelas forças da natureza. O temor da ameaça nuclear somou mais sofrimento ao sofrimento deles. Nós nos enlutamos por seus mortos, nossos corações estão com os sobreviventes em suas dores.
Envie conforto aos familiares das vítimas de modo que possam retomar suas vidas. Cure seus corpos e envie restabelecimento para suas almas. Envie Tua sabedoria às forças de resgate, boa vontade e bom coração para todos os que tiverem condições de ajudar. Mostre a eles a Tua luz, orienta-os em seus caminhos, proteja-os. Juntamente com os japoneses, os filhos do Teu mundo se voltam a Ti:
Em nossa aflição clamamos ao Eterno e Ele nos respondeu. Gritamos, e Tu escutaste a nossa voz. Quando dentro de nós desfaleciam nossas almas, recordamo-nos do Eterno e nossas orações Te alcançaram. Expressaremos nossa gratidão ao oferecermos a Ti nossos sacrifícios e cumpriremos o que prometemos (conf. Jonas 2:8-9)

תפילה למען בני יפן / הרב יהורם מזור
פּוֹר הִתְפּוֹרְרָה אֶרֶץ, מוֹט הִתְמוֹטְטָה אָרֶץ, נוֹעַ תָּנוּעַ אֶרֶץ כַּשִּׁכּוֹר. (עפ"י ישעיה כד)
וְעָבַר בַּיָּם צָרָה וְהִכָּה בַיָּם גַּלִּים וְהֹבִישׁוּ כֹּל מְצוּלוֹת ...: (זכריה י)
רבונו של עולם שרוחך מרחפת על הכל
עֹשֵׂה הַשָּׁמַיִם בִּתְבוּנָה ... רֹקַע הָאָרֶץ עַל הַמָּיִם
את קשתך נתת בענן והודעתנו כי לא יהיה עוד מבול.
איתני הארץ רעשו, משברי ים היכו בחורמה ואחינו בני יפן הוכרעו בידי איתני טבע.
פחד האימה הגרעינית הוסיף עוד סבל לסבלם.
על מתיהם אנו מתאבלים, לבנו עם הניצולים הדואבים.
שלח נחמה לקרובי הנספים למען יצליחו לשקם את חייהם.
רפא את גופם ושלח מזור לנפשם.
שלח תבונתך לכוחות ההצלה, שלח רצון טוב ולב טוב לכל המסוגלים לעזור.
הראם את אורך, היישר את דרכם, היה להם למגן.
יחד עם בני יפן, בני עולמך אליך פונים:
קָרָאנוּ מִצָּרָה אֶל ה' וַיַּעֲנֵנוּ, שִׁוַּעְנוּ שָׁמַעְתָּ קוֹלֵנוּ.
בְּהִתְעַטֵּף עָלֵינוּ נַפְשֵׁנוּ אֶת ה' זָכָרְנוּ וַתָּבוֹא אֵלֶיךָ תְּפִלָּתֵינוּ.
וַאֲנַחְנוּ בְּקוֹל תּוֹדָה נִזְבְּחָה לָּךְ. אֲשֶׁר נָדַרְנוּ נֶשַׁלֵּמָה. (עפ"י יונה ב')
"העבודה שבלב – המרכז להתחדשות בתפילה"