sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Parashat Itró
Uri Lam - para o Congregar (Congregação Israelita Paulista) 
Faremos e Ouviremos ou Ouviremos e Faremos?
Se pudéssemos resumir a Torá em poucas palavras, o que diríamos? Há quem resuma a Torá ao pronunciar os nomes dos cinco livros do Pentateuco ou os nomes das porções semanais de estudo da Torá. Outros entendem que a Torá pode ser resumida em uma frase, versículo ou parágrafo que mais a caracteriza, como por exemplo: (1) O Shemá: Escuta Israel, o Eterno é nosso Deus, o Eterno é Um; (2) Veahavtá lereachá camôcha: Amarás ao teu amigo como a ti mesmo – era a opinião de Rabi Akiva, para quem esta frase resumia a essência de toda a Torá; (3) os Dez Mandamentos – cuja primeira versão integra a leitura da parashá desta semana; (4) Vezot Hatorá: Esta é a Torá que Moisés colocou diante dos filhos de Israel, dita por Deus, pela mão de Moisés; (5) Naassê venishmá: Faremos e ouviremos. Há outros exemplos, todos belos, significativos, valiosos. Mas se alguém lhe pedir para resumir, em poucas palavras, toda a Torá – o que você irá dizer?
A tradição nos conta que esta é a Torá de Moisés, a sua teoria colocada na prática, o seu modo de se relacionar com as pessoas e com Deus, a sua maneira de agir. Nesta semana, especificamente, somos apresentados a um Moisés extremamente solícito: durante um dia inteiro ele se senta para atender a todas as pessoas do povo, indistintamente. Todos mesmo – crianças, homens e mulheres, jovens e velhos, casais e famílias, todos em pé por horas a fio diante de um único homem, Moisés, que atende pessoa por pessoa. Esta é a sua Torá, este é o seu ensinamento, este é o seu modo de agir. Que homem bondoso é Moisés! Quanta dedicação, quanta empatia, quanta boa vontade! Mas será que Moisés é também eficiente? Será que de fato o povo está confortável e se beneficia da sua dedicação, empatia e boa vontade?
Moisés tem um sogro, Itró, sacerdote de Midian. Ele e Moisés têm uma ótima relação, de respeito e carinho, e também se reconhecem mutuamente como homens de grande sabedoria. Naqueles dias Itró levara até Moisés a esposa e os filhos – mas ele não deu muita atenção à família; estava muito ocupado com o trabalho insano de atender sozinho a todo o povo de Israel. Itró, que olhava a tudo de fora, perguntou ao genro: “O que você está fazendo?” e Moisés respondeu: “O povo vem a mim para consultar a Deus. Quando têm diferenças a resolver, julgo entre um e outro, e em seguida passo a eles as leis e ensinamentos de Deus”. “Não é uma boa ideia agir assim”, retrucou Itró, “você vai se acabar e o povo ficará esgotado.” e em seguida me parece vir a primeira grande lição da nossa parashá: “Moisés, primeiro transmita a eles os ensinamentos e as leis, mostre o caminho a seguir e como devem agir. Durante o processo você identificará os mais capazes, gente honesta e de confiança, reverentes a Deus. Faça deles os seus parceiros. Sendo muitos, eles julgarão o povo não um a um, mas a todos de uma vez, sem filas. Vai por mim, isso lhe facilitará a vida e todos, você e o povo, irão se beneficiar do trabalho em equipe”. Mais juízes para atender menos gente – pois ao conhecerem as regras, menos gente precisa de alguém de fora que lhe diga o que fazer.
Itró deu a Moisés dois conselhos essenciais para o gerenciamento de qualquer comunidade, grande ou pequena: (1) Primeiro ensine as regras e mostre como agir de acordo com elas, e só depois julgue – e não o inverso; (2) Ensine o que sabe para outras pessoas, busque encontrar entre eles os mais capazes, dedicados, confiáveis e honestos - e faça deles seus parceiros.
É para este povo – que primeiro aprende de Moisés e de sua enorme equipe de parceiros – que serão reveladas nesta leitura da Torá as palavras de Deus conhecidas como “Os Dez Mandamentos”. “Tudo o que o Eterno falar, nós faremos”, afirmou o povo a uma só voz.
Esta é a grande lição transmitida por Itró, o sacerdote de Midian, para nós, o povo de Israel, "um reino de sacerdotes, um povo sagrado" (esta é, pelo menos, a expectativa de Deus): primeiro ensinar, para que as pessoas possam aprender a distinguir uma coisa da outra e então possam agir com consciência. Nesta altura dos acontecimentos, a essência da Torá é "Ouviremos e Faremos".
Shabat shalom, de Jerusalém

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Tu b’Shevat, o Ano Novo das Árvores
Uri Lam
“Porque o homem é como uma árvore no campo. Assim como o homem, a árvore também floresce” (Natan Zach, poeta israelense)
Tu b’Shevat, cujo nome se refere simplesmente ao dia 15 do mês judaico de Shevat (no próximo dia 20 de janeiro de 2011), é o Festival das Árvores. Em Israel, a data ocorre no meio da estação de inverno, época das chuvas. É por volta deste dia também que florescem as primeiras flores das amendoeiras, o que leva boa parte da população aos parques e bosques somente para admirar estas pequenas e delicadas flores brancas, que anunciam o despertar da natureza em pleno inverno e o início da preparação para a primavera.
O dia de Tu b’Shevat é conhecido também como o Ano Novo das Árvores, dedicado ao plantio de mudas, a saborear os mais diversos tipos de frutos das mais diversas árvores, e nos tempos atuais nos leva à reflexão sobre os desafios com os quais a sociedade moderna precisa se confrontar quanto à sua atitude em relação à natureza como um todo.
A origem de Tu b’Shevat situa-se no sistema de tributação dos hebreus antigos, que baseava-se principalmente no dízimo a ser pago pelo agricultor: o primeiro dízimo era para os levitas, homens dedicados à vida religiosa e aos estudos; o segundo dízimo era usado para proteger os peregrinos em suas jornadas e reforçar a solidariedade nacional; e uma terceira taxa servia para manter o sistema de apoio social voltado para os mais pobres.
Com a desintegração do antigo sistema de tributação na Terra de Israel, durante os primeiros séculos da era cristã, Tu b’Shevat tornou-se o dia em que os judeus passaram a se voltar para a plantação de árvores, na esperança de que estas pudessem fornecer o suficiente para satisfazer as necessidades do homem.
Na era moderna, o movimento sionista adicionou um novo significado para a data, pois o plantio de árvores se tornou um objetivo fundamental para tornar férteis e agradáveis extensas áreas desérticas de Israel. A árvore plantada foi convertida em símbolo do despertar de uma nação.
Assim como outros feriados judaicos, Tu b’Shevat sofreu alterações ao longo dos séculos. Nos últimos anos, as pessoas da nossa geração começaram a pensar em novos significados para o Festival das Árvores. Aprendemos que as relações entre o ser humano e a natureza atingiram uma crise que compromete a existência do Homem juntamente com a existência de seus outros parceiros da Criação.
Em Tu b’Shevat as pessoas também reforçam o valor do lugar da natureza para garantir o bem-estar do ser humano, a importância da natureza no fortalecimento da raízes de um povo à sua terra, e principalmente a importância da natureza por si mesma, por ser, assim como o ser humano, uma obra da Criação.
Vivemos tempos em que é chegado o momento, mais do que nunca, de marcar na agenda judaica e na agenda de todos os povos da Terra que temos a obrigação de tratar a natureza com humildade, sabedoria e respeito, no espírito do Décimo Mandamento: “Não cobiçarás”, sempre lido no Shabat após Tu b’Shevat como parte da parashát Itró, a porção semanal de leitura da Torá. Com toda a força que a natureza está demonstrando nas últimas semanas no Brasil e no mundo inteiro, Tu b’Shevat nos estimula decididamente a refletir sobre nossas crenças e tradições, e principalmente a agir de modo a estabelecer novas relações de parceria e respeito pelo ambiente natural que nos cerca e que faz parte integrante de nossas vidas. Que ao plantarmos árvores, façamos de Tu b’Shevat um festival de amor pela natureza.
Quem não viu o Templo de Herodes, não viu tão belo edifício em sua vida
Este ano faço um curso de extensão em Modiin (entre Jerusalem e Tel Aviv) prá lá de interessante. Nele estudamos, uma vez por semana, o dia inteiro, passagens do Talmud, textos do Rebe Nachman de Breslav e textos de Nachman Bialik, que vem ainda acompanhados de uma abordagem psicológica que eu diria ser existencialista, voltada para a orientação de grupos. Parece complicado... e é. Mas na prática, o encontro semanal estabelece um diálogo delicioso entre estas diversas fontes judaicas, clássicas, modernas e contemporâneas - e aqui incluo a abordagem psicológica também. Em outras oportunidades espero falar mais deste estudo em grupo.
Na semana passada nos deparamos com um texto difícil. Não tanto de ler, mas principalmente de compreender, de sentir. Esta suguiá (passagem do Talmud) conta sobre Herodes e termina com a frase que dá o título deste post: "Quem não viu o Templo de Herodes, não viu tão belo edifício em sua vida". Veremos a que preço este "belo templo" foi construído, na visão dos sábios do Talmud.
O texto dialoga com outra passagem do Talmud, onde se faz uma comparação entre diversos princípios, por dizer assim, tão importantes para a vida judaica: a sinagoga, o Sefer Torá, a libertação de pessoas feitas prisioneiras. O que tem mais valor, um edifício? ou  a vida dos cativos? Impossível não pensar, para quem está em Israel, nos mais de 4 anos em que o jovem soldado Guilad Shalit está sequestrado e cativo nas mãos do Hamas, em Gaza. Qual preço se deve pagar por sua libertação? Alguns entendem que a vida é o maior valor do judaísmo e que tudo deve ser feito para pagar por sua liberdade. Outros dizem que o preço pedido é muito alto: a libertação de mais de mil prisioneiros palestinos em Israel, entre os quais há um número significativo de terroristas, pessoas que planejaram ou cometeram atentados terroristas, levando consigo a vida de tantos civis israelenses. E qual o preço para resgatar os sobreviventes da tragédia no Rio de Janeiro, bem como resgatar os corpos de mais de 630 pessoas mortas em meio a desabamentos e enchentes? Quanto valem estas vidas - para o governo, para as famílias, para os amigos, para as próprias pessoas que estão sofrendo tanto?
Uma das questões que o Talmud levanta é: o que é mais importante, a construção de uma sinagoga ou a libertação dos cativos? o que é mais importante, a construção de templos e igrejas gigantescas, ou com tanto dinheiro resgatar vidas de condições miseráveis? Sãop questões que ficam em aberto.
Vale à pena ler o texto abaixo (na minha opinião, claro) para ver a que preço foi levantado o Templo de Herodes.
Boa leitura e uma ótima semana.
Quem não viu o Templo de Herodes, não viu tão belo edifício em sua vida...

Talmud Bavli, Baba Batra 3b, 4a
trad.: Uri Lam, Tevet 5771, jan. de 2011 
Herodes, escravo da Casa dos Chasmonaim (hasmoneus), teve seus olhos atraídos para uma certa menina. Um dia este homem escutou a Bat Kol (a “voz divina”) dizer: “Todo escravo que se rebelar agora será bem sucedido”. Ele foi e assassinou todos os seus senhores, deixando somente a menina. Ao ver que ele pretendia se casar com ela, a menina subiu no telhado e gritou: “Quem vier e disser ‘Eu sou da Casa dos Chasmonaim’ [na verdade] é um escravo!” - pois ninguém sobrou deles a não ser a menina – e ela caiu do telhado até o chão. Ele preservou seu corpo em mel durante sete anos.
Há quem diga: “Ele manteve relações sexuais com [o corpo d]ela”; e há quem diga: “Ele não manteve relações sexuais com ela”. De acordo com quem diz que ele manteve relações sexuais com ela, o motivo de embalsamá-la foi satisfazer seus desejos. De acordo com quem diz que ele não manteve relações sexuais com ela, o motivo foi para que dissessem: “Casou-se com a filha do rei”.
[Pensou Herodes] “Quem foi que disse que ‘dentre teus irmãos porás um rei sobre ti’ (Deut. 17:15)? Os Sábios!” Ele foi e matou todos os Sábios, deixando Baba ben Buta, para ter com quem se aconselhar.
[Herodes] Colocou na cabeça [de Baba ben Buta] uma coroa de espinhos de ouriço que lhe arrancou os olhos. Um dia Herodes veio [sem se identificar], sentou-se diante dele e disse: “Veja só, meu senhor, este escravo maldoso [Herodes], o que ele faz!” Disse-lhe [Baba ben Buta]: “O que posso fazer para ele?” Respondeu-lhe [Herodes]: “Amaldiçoe-o, meu senhor!” [Baba ben Buta] respondeu: “Está escrito: ‘Nem mesmo em teus pensamentos você dever amaldiçoar um rei’ (Eclesiastes 10:20)”. Disse-lhe [Herodes]: “Ele não é rei!” [Baba ben Buta] respondeu: “Mesmo que ele seja apenas um homem rico, está escrito ‘e nem mesmo no seu dormitório amaldiçoe os ricos’ (idem); e ainda que ele não seja mais do que um governante, está escrito: ‘e não amaldiçoe um governante do teu povo’(Êxodo 22:27)”.  Disse-lhe [Herodes]: “No caso de quem age como um de seu povo, mas este não age como alguém do seu povo!” Respondeu-lhe [Baba ben Buta]: “Eu tenho medo dele”. [Herodes] respondeu: “Mas ninguém virá e dirá a ele sobre eu e você estamos sentados aqui [sozinhos]”. [Baba ben Buta] Respondeu: “Está escrito: ‘Pois uma ave no céu levará a voz - e quem tem asas contará tudo’ (Eclesiastes 10:20)” Disse-lhe [Herodes]: “Eu sou este homem [Herodes]. Se eu soubesse que os Sábios eram tão cuidadosos, não os teria matado. Agora, como posso consertar o que fez aquele homem?” [Baba ben Buta] Respondeu-lhe: “Ele extinguiu a luz do mundo [ao matar os Sábios], conforme está escrito: ‘Pois a mitsvá [mandamento divino] é a vela e a Torá é a luz’ (Provérbios 6:23). Ele deve ir e se ocupar da luz do mundo, conforme está escrito: ‘E fluirão para [serão iluminadas por] ele todas as nações’ (Isaías 2:2) [Baba ben Buta interpreta “naharu” (fluirão) a partir do termo “nehorá” (luz)]. Há quem diga que [Baba ben Buta] lhe respondeu assim: “Ele cegou o olho do mundo, conforme está escrito: ‘E será que, por causa do olho da Congregação’ (Números 15:24). Ele deve ir e se ocupar do olho do mundo, conforme está escrito: ‘Aqui estou a profanar o Meu Mikdash [o Templo Sagrado], o orgulho do seu poder, o deleite dos seus olhos’ (Ezequiel 24:21)”. [Herodes] Respondeu: “Temo o Governo [de Roma]”. [Baba ben Buta] Respondeu-lhe: “Mande um enviado por um ano até lá [Roma], deixe-o lá por um ano, e que retorne por um ano -  durante este período derrube [o Templo] e reconstrua-o”. Assim o fez. Enviaram-lhe [a Herodes, de Roma, a seguinte mensagem]: “Se você ainda não o derrubou, não o faça. Se você o derrubou, não o reconstrua. Se você o derrubou e o reconstruiu, você é um desses servos ruins que primeiro fazem e depois pedem permissão. Se as armas estão com você, conte de quem você descende; você não é recha [rei] nem descende de um rei, Herodes, escravo que libertou a si mesmo”. O que significa “recha”? Realeza, conforme está escrito: “E eu hoje sou Rach (Rei) e ungido Rei” (2 Samuel 3:39). E caso queira, daqui se depreende [do que foi dito de José, após ocupar o segundo posto de poder, só abaixo do Faraó]: “E diante dele o chamavam de Avrech [termo egípcio que significa “governante”, que os Sábios do Talmud interpretaram como Av Rech, “Pai do Rei”] (Gênesis 41:43). Dizem: Quem não viu a construção [o Templo] de Herodes, não viu tão belo edifício em sua vida.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

14 De Dezembro de 2010
Ao Primeiro-Ministro de Israel, Binyamin Netanyahu
Gabinete do Primeiro-Ministro
Kiryat Hamemshalá
Jerusalem, Israel
Prezado Sr. Primeiro-Ministro,
Nós estamos profundamente gratos a você, como já dissemos anteriormente, por sua posição sobre o Projeto de Lei sobre conversões do parlamentar da Knesset, David Rotem, que foi apresentado no verão passado. A sua boa vontade em pedir um “congelamento” para esta legislação a fim de encontrar uma solução aceitável para todos os lados foi saudada por nós e pelos judeus em todo o mundo.
Nós também queremos expressar o nosso forte apoio aos esforços atuais do parlamentar Rotem para preservar as possibilidades de conversão para aqueles que servem na Tzahal (Exército de Defesa de Israel).
No entanto, estamos muito preocupados com relatos de que os Projetos de Lei Rotem I e II estão sendo ligados e que o apoio para o primeiro projeto de lei será uma condição para que o segundo projeto de lei seja aprovado. Continuamos a ser fortemente contrários, em quaisquer circunstâncias, ao projeto de lei Rotem original tal como está escrito no momento. A grande maioria dos judeus americanos é contra esse projeto de lei, assim como a maioria dos judeus em todo o mundo.
Em seu emocionante discurso em Nova Orleans, o senhor expressou as suas próprias preocupações sobre a legislação e a necessidade de preservar a unidade judaica. Nas suas palavras: “Qualquer judeu, de qualquer denominação, terá sempre o direito de voltar para casa, para o Estado Judeu. Pluralismo religioso e tolerância sempre orientarão a minha política”, inspirou nossas comunidades.
Natan Sharansky, ao seu comando, tem feito um trabalho excepcional em tentar encontrar uma solução justa, e estamos ansiosos para ver este trabalho seguir adiante.
Você falou eloquentemente sobre os perigos com os quais Israel se confronta. Nossos movimentos, unidos a judeus de toda parte, trabalham todos os dias para defender Israel contra as ameaças de um Irã nuclear e das campanhas de demonização deslegitimação  dirigidos contra o Estado Judeu.
Pedimos que você, Sr. Primeiro-Ministro, se oponha aos esforços legislativos que nos dividem.  Nestes tempos perigosos para o Estado de Israel e para o Povo Judeu, trabalhemos naquilo que nos une. 
União pelo Judaísmo Reformista (URJ)
Conferência Central dos Rabinos Americanos (CCAR)
Associação Reformista Sionista da América (ARZA)
União Mundial pelo Judaísmo Progressista (WUPJ)
Movimento Israelense pelo Judaísmo Progressista (IMPJ)
Federação Internacional de Sionistas Religiosos Reformistas e Progressistas (ARZENU)
Sinagoga Unida pelo Judaísmo Conservador
Assembleia Rabínica
Fundação Masorti
Movimento Masorti de Israel
MERCAZ USA
MERCAZ Olami
Conselho Mundial das Sinagogas Conservadoras/Masortis (Masorti Olami)
Evento Tarbut Sefarad - 08 de dezembro
Realizado no 8o dia de Chanucá, o evento contou com cerca de 80 pessoas ligadas à Ong Tarbut Sefarad, de Mario Saban, que atualmente vive na Espanha. O evento ocorreu no moadon do Hebrew Union College (HUC), o seminário rabínico onde estudo, que gentilmente abriu suas portas à Ong Tarbut Sefarad e aos bnei anussim.
Entre o público, muitos espanhois da cidade de Tarragona, patrimônio mundial da humanidade, com diversos resquícios da antes pulsante vida judaica na cidade até o século 14. Foi lançado também o livro "Shalom Tarragona" de Francesc Calçada, jornalista de Tarragona.
o evento contou ainda com as presenças de Mario Saban, Iossi e Denise Ben Dor (da ong Tarbut Sefarad em Israel), Iom Tob Assis, da cantora de ladino Cochava Halevi, do 5o Presidente de Israel sr. Itzhak Navon, profundo conhecedor da cultura sefardi e do ladino, e com um excelente humor do alto dos seus 89 anos de vida.
No vídeo canto "Kol Haneshamá", o fim do salmo 150, com melodia típica da tradição sefardi ladina. acompanhamento do amigo, fabricante de instrumentos e grande instrumentista Samuel Braga.
O evento contou com a presença de diversos bnei anussim espanhois. Tivemos ainda a honra de receber uma carta do prefeito de Tarragona, agradecendo pelo evento e afirmando o quanto a cidade de Tarragona tem ciência da historia de seus cidadãos judeus e do quanto a porta está aberta a todos os judeus, especialmente os descendentes de Tarragona.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Önibus Mehadrin 
"Aqui está uma descrição de um evento desagradável que me aconteceu há pouco tempo. Hoje, no final do horário de aula (em Tsur Hadassa), às seis e meia da noite mais ou menos, subi no “ônibus Mehadrin” (“Ônibus Mefagrin”) para Beitar Ilit, que fica nos territórios ocupados. Quando entrei no ônibus me dei conta de que não havia lugar para os homens se sentarem, então comecei a me preparar para ficar um bom tempo em pé. Enquanto me preparava, um dos “tsadikim” (homens “justos”) pede de algumas mulheres para que saiam de seus lugares a fim de que eu possa me sentar. Na hora recusei sua oferta. Por que as mulheres ficarão em pé e eu não? Alguns minutos depois, descobri que por milagre vagou um lugar no qual há apenas alguns minutos estava sentada uma mulher. Depois de olhar cuidadosamente para o ônibus percebi que aquelas que estavam sentadas ali passaram de algum modo mágico qualquer para outros lugares lotados de mulheres na parte de trás do ônibus. Enquanto minha consciência pesava, sentei-me no local vago. Quase comecei a chorar. Percebi imediatamente que naquela hora a mulher havia sido oprimida, que aparentemente fora reprimida desde o seu nascimento e seria reprimida até o fim de seus dias. Para descarregar a minha raiva e frustração, passei a escrever nas janelas embaçadas de vapor. Sobre as janelas escrevi pelo menos cinco vezes: “Dai ladicui hacharedi!”, “Basta da repressão charedi [ultra-ortodoxa]!”
A.H., 13 anos, jovem judeu israelense, descrevendo sua viagem de ônibus a partir de Beitar Ilit, ao lado de sua cidade, Tsur Hadassa, logo após uma aula sobre “os desafios dos direitos humanos e dos princípios de igualdade” na escola, ontem, segunda-feira 13/12/2010.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O coração em chamas
sobre o incêndio no Monte Carmel, o pior da história do Estado de Israel
Rabino Gaby Dagan
rabino da Kehilá “Ohel Avraham”, Haifa, Israel
rabino do Depto de Ensino Médio do Centro Educacional “Leo Baeck”, Haifa, Israel
tradução: Uri Lam
07/12/2010, 30 de Kislev 5771, 6º dia de Chanucá
“Eu clamo a ti, Eterno, porque o fogo consumiu os pastos do deserto, e a chama abrasou todas as árvores do campo. Também todos os animais silvestres anseiam por ti, pois secaram as correntes de água e o fogo consumiu os pastos do deserto.”(Joel 1:19-20)
Na sexta-feira à tarde, enquanto as chamas sobem para o alto e o coração ainda não digere – telefonema do posto de comando de combate ao incêndio na universidade: “Queremos acender as velas de Chanucá para as forças dos incansáveis trabalhadores atuantes na área. Também precisamos de muitas sufganiot (sonhos, doces a base de óleo típicos de Chanucá).” Em pouco tempo, assim que os membros da comunidade reformista “Ohel Avraham”de Haifa prepararam mais de 300 sufganiot, providenciaram uma grande chanukiá e um violão, subimos ao coração em chamas  dos bosques do Monte Carmel. Entre carros da polícia, ambulâncias, pessoal da mídia e políticos, acendemos a terceira vela de Chanucá.
Era difícil, senão impossível separar a essência da festividade e o fato de lidar com o milagre do fogo e a vitória do espírito, das chamas que ardiam a poucos metros de distância enquanto o espírito do ser humano combatia os espíritos/ventos [ruchot, em hebraico] da natureza. Luta e força combatiam os ventos, o espírito do ser humano se debatia com a trilha das chamas que consumiam tudo o que encontravam pelo caminho.
Meu pai foi bombeiro por mais de 40 anos. Os odores das chamas, os uniformes e as cores negras da natureza não são estranhos para mim. Fiquei ali orgulhoso, apavorado e chorando pela perda das vidas e pela vitória do Judaísmo e de Israel. Nós recitamos bençãos, cantamos e acendemos velas diante dos feridos, dos mortos, dos combatentes.
Apenas algumas horas depois, no Shabat pela manhã, foi realizada uma cerimônia de Bar Mitsvá na sinagoga da Comunidade Reformista “Ohel Avraham”. Momentos antes do início, um dos convidados nos comunicou a morte de Elad Rivan, estudante de Haifa, um membro da família. Para a família não era óbvio que seguiríamos com a cerimônia de Bar Mitsvá. Mais uma vez somos obrigados a romper as linhas conhecidas e desconhecidas entre a alegria e a enorme tristeza.
Recitamos a benção “Shehecheiánu” (Que nos fizeste viver) para o jovem que se tornou adulto e alcançou a idade das mitsvot e no mesmo fôlego, com a mesmas lágrimas, recitamos o Kadish por aqueles que não mais festejarão. O discurso do jovem Bar Mitsvá foi modificado, de um otimismo que beirava a inocência para a dureza da realidade que queima nossos rostos. Nós comemoramos. Nós choramos.
No Shabat à tarde e no domingo pela manhã os alunos do Colégio Leo Baeck embalaram centenas de refeições para os bombeiros e para as famílias dos alunos residentes Usfiya, Daliat-al-Karmel, Chof haCarmel e Daniya. Os chuveiros da piscina do Centro Comunitário foram abertos para as forças de segurança para um momento de bem-estar. Nossas vidas giram em torno de momentos como estes, voltados às necessidades das famílias que sofreram e que vem sofrendo perdas.
Com a diminuição do incêndio, também diminuem as alegrias da festividade. As orações que pedem por chuvas abrem espaço para as orações que pedem por recuperação e cura. O termo “família” neste momento expandiu-se para toda a sociedade israelense - judeus, drusos e árabes como um só povo. Os lenços de cabeça das mulheres de Nir Etzion e de Osfiya servem como máscaras contra a fumaça tóxica, enquanto o fogo ainda queima nossas casas sem fazer distinção.
Hoje, nossas cabeças irão se curvar para o fato de que um pequeno fogo provocou grande escuridão. Nós rezamos pelo fim deste incêndio, pela recuperação e cura dos feridos e pelos heróis que deram suas vidas para salvar as vidas de outras pessoas.