sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Ministro do interior israelense, ortodoxo, toma uma sonora vaia de judeus reformistas

Nesta semana houve em Jerusalém uma importante conferência, liderada pelo Presidente de Israel, Shimon Peres. Quem teve o privilégio de fazer parte do seleto time de convidados foi a presidente da Congregação Israelita Paulista (CIP), Dora Lucia Brenner. Realmente não sei dizer, mas até agora parece ter sido a única representante de alguma comunidade judaica presente ao encontro.

Houve muita conversa importante neste encontro, mas como sempre, algumas coisas menos importantes, mas mais provocativas, colocaram um pouco de pimenta no molho. Eis uma delas:

Durante a conferência Facing Tomorrow (Olhando para o Futuro), entre o presidente Shimon Peres e inúmeras lideranças políticas, empresariais e judaicas comunitárias do mundo inteiro, o Ministro do Interior Eli Yishai (do partido ultraortodoxo Shas) não se esforçou muito para despertar a ira dos judeus não-ortodoxos presentes: "Olhem o que acontece com a Reforma por causa da asssimilação. Eles estão desaparecendo ", disse Yishai em seu discurso. A audiência, que consistia na maior parte de judeus americanos, a maioria reformistas e conservadores, respondeu com uma sonora vaia. "Estes são dados que recebi, eu não os criei", retrucou Yishai.

Conhecemos este discurso: estatísticas espalhadas a torto e a direito, ora sem fonte citada, ora atribuídas a algum demógrafo famoso para dar legitimidade, sobre os índices de casamentos mistos e do número de filhos nos EUA entre ortodoxos, conservadores e reformistas. Como se esta, caso fidedigna, fosse a única variável importante: ter muitos filhos e assim manter o povo judeu, a qualquer custo - mesmo ao custo da consciência. Deveríamos ser, segundo este critério, todos como em Mea Shearim, com média de 8 ou 9 filhos por casal. Ninguém fala de ser esta uma das regióes mais pobres de Jerusalém (talvez nao seja pior graças aos subsídios do governo), com maior desemprego (voluntário e involuntário), violência doméstica (quando há dados), e por aí vai. Ninguém fala sobre a inviabilidade de um país caso Israel inteira fosse uma imensa Mea Shearim. Não se pensa aí sobre o eventual crescimento das famigeradas "polícias do pudor" - como já há em certos bairros ou cidadezinhas de maioria ortodoxa.

O ministro Yishai destacou em seu discurso que todos os judeus da Diáspora deveriam imigrar para Israel a fim de impedir a assimilação. Questionado se um dia seria nomeado em Israel um rabino-chefe reformista ou conservador, Yishai respondeu: "O que ouço aqui é uma provocação." Realmente deve ter sido, porque a pergunta é retórica. O que se espera e para isso se luta há anos, é por uma Israel judaicamente pluralista, com o pleno reconhecimento de rabinos e rabinas de todas as linhas (inclusive ortodoxa, mas este é outro tema), com todas as implicações: conversões, escolas, casamentos, enterros, etc. Ops, voltando ao tema do minitro provocado, vale a pena perguntar: Mas quem iniciou a provocação mesmo?

O rabino Gilad Kariv, diretor geral do movimento judaico reformista em Israel, afirmou que as vaias ao ministro foram uma resposta adequada a palavras sem fundamento. "As palavras do ministro Yishai continuarão sendo palavras de incitamento e de provocação, que são a marca registrada do seu partido (Shas, leia-se rabino Ovadia Yossef e suas pérolas, motivo de irritação e indignação na imprensa israelense semana sim, outra também). Enquanto isso o Judaísmo Reformista continuará a atender fielmente a milhões de judeus na Diáspora e em Israel, pois está comprometido com o futuro do povo judeu ", disse ele.

Um abraço a todos, Shabat Shalom

sexta-feira, 16 de outubro de 2009


A História dos Judeus - uma fantástica aventura de 4 mil anos

Povo do Livro (Via Lettera)

Finalmente já está nas melhores livrarias do país, entre elas a Livraria Sefer, site Submarino, Livraria Cultura - "A História dos Judeus", do renomado cartunista Stan Mack. Fruto de um projeto que pretende publicar livros judaicos dentro de uma ótica moderna e progressista, "A História dos Judeus" ensina, diverte, questiona. Já há escolas judaicas buscando o livro para uso paradidático.

Abaixo uma resenha deste livro delicioso. Comprem, leiam e recomendem aos amigos!

Se Deus quiser, logo o selo Povo do Livro terá novas publicações que enriquecerão ainda mais a oferta de literatura judaica em lingua portuguesa.

shabat shalom,

Uri Lam

Seja bem-vindo à extraordinária História dos Judeus.
Começaremos nossa jornada (às vezes irreverente) há quatro mil anos, perto do Rio Eufrates, quando um chefe de tribo nômade chamado Abrão encontrou seu Deus pela primeira vez. E estaremos presentes aos pés do Monte Sinai quando este mesmo Deus negociar com Moisés.

A narrativa segue o ponto de vista de que, seja verdade divina ou mito, esses acontecimentos fazem parte de nossa realidade comum. A riqueza da fé e a profundidade humana encontradas em seus textos sagrados e históricos talvez sejam a mais importante contribuição do povo judeu.

Caminharemos com os profetas, que nos indicaram a crença em um só Deus e o respeito à lei, à moralidade e à igualdade entre os indivíduos; conheceremos Débora, Alexandra, Beruria e outras mulheres que representam a força intelectual e educativa das mulheres na cultura judaica; e viajaremos com os judeus comuns que seguem seu caminho através de todas
as principais correntes da história ocidental. Esta é a história do “Povo do Livro”, que nos ensina que tudo tem um objetivo e um significado, mas de quem se diz: reúna três e você terá dez opiniões.

Com uma espirituosa narrativa gráfica, o renomado Stan Mack nos conduz a uma jornada de 4 mil anos de altos e baixos da história Judaica. A primeira graphic novel de seu gênero, A História dos Judeus presta homenagem aos maiores personagens e eventos que moldaram o Povo Judeu e sua cultura.

Stan Mack, cartunista e ex-diretor de arte do New York Times Sunday Magazine. Seus cartuns já foram publicados nos jornais New York Times e New Yorker e nas revistas Adweek, Bon Appetit, Modern Maturity e Natural History. Também é autor e ilustrador de diversos livros para crianças, adolescentes e adultos.

Um novo olhar sobre 4 mil anos de História Judaica — competente, completo... divertido

Outono fervendo em Israel. Os turcos dizem nos amam. Falso "rabino" Elior Chen extraditado em 2 semanas, os estudos iniciam nesta segunda feira.

36 graus a sombra? E eu que pensei que havia deixado o calor para trás...

Tudo bem, o novo apartamento tem ar-condicionado, mas até me mudar, em 3 semanas, o calor deve já ter ido embora. Espero que tenhamos um clima intermediário antes de começar o frio prá valer...

Enquanto isso, a Turquia exibe uma minisérie apresentando soldados israelenses sanguinários assassinando a sangue frio crianças e civis palestinos. No pior estilo de filmes árabes antigos que, nos tempos de movimento juvenil, assistíamos na sede do Eitan, em São Paulo, os soldados israelenses são pintados como desumanos ao extremo.

Após os protestos do governo israelense, os produtores da mini-série dizem que o filme não trata de israelenses nem palestinos (ah tá), que os atores não usam uniformes israelenses (puxa, que coisa), e que eles amam os israelenses (imagina se nos odiassem). Por outro lado, a diplomacia turca afirma que as relações com Israel sempre foram fortes e continuarão fortes. Mas que a mini-série está mantida. detalhe: passa na TV estatal.

Lembra-me uma canção do Lingua de Trapo. Bem poderia ser a declaração de amor do governo turco a Israel:

"Ao lhe pedir em casamento, esqueci de lhe dizer,

que não sou um rapaz normal, que você esperava ter...

Minhas manias tão excêntricas, posso até lhe revelar,

mas meu sado-masoquismo, você vai ter que aturar...


Nos debates na TV - um esporte nacional, o debate - a discussão não trata das cenas revoltantes, mas de, segundo uma debatedora, de como chegamos a esta situação.

Enquanto isso, o sádico autoproclamado "rabino" Elior Chen está quase de passaporte carimbado para retornar a Israel. Todos esperam que seja julgado como merece, e que passe muitos anos na prisão, após maltratar ao extremo crianças "malcriadas" a fim de espantar delas os maus espíritos. Graças a Deus a argumentação dos advogados que fizeram a sua defesa - de que não poderia ser extraditado, uma vez que os crimes teriam sido cometidos nos territórios palestinos, fora, portanto, da jurisdição israelense - não colou.

Tudo (quase pronto) para o início das aulas no HUC. Muitas mudanças, pelo jeito, nos esperam, com o novo diretor do curso israelense, rabino Marc Rosenstein. Com ele terei um curso chamado "Dat vePolitica", Religião e Política. Também estudaremos Talmud, há outro curso de Livui Ruchani (algo como "Acompanhamento Espiritual"), Pensamento Judaico, e por aí vai.

Já sei que dois dos meus colegas estão liderando a abertura de duas novas comunidades, uma em Holon, outra em Tel Aviv.

Pois é... 36 graus, e subindo.

Shabat shalom

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Re-Bereshit - Re-tornando...

Espero, assim que me organizar, voltar a escrever mais e dar sequência à "segunda temporada" de Urishalaim. Retornei na semana passada a Jerusalém, certo de que nem a cidade é a mesma, nem eu. Muitas mudanças ocorrendo, outras tantas à vista. E vamos em frente!

E fiquei pensando: "morremos" em Iom Kipur, mas fomos inscritos no Livro da Vida - em outras palavras, o ano passado terminou, mas temos a oportunidade divina de retomar a vida nas mãos neste novo ano (5770). Em seguida construímos nossa "primeira morada", a ao mesmo tempo frágil, mas arejada e bem iluminada Sucá, onde todos os amigos são bem vindos. É uma casa muito engraçada, quase não tem teto, quase não tem nada...  Ela precisa de tudo ainda prá deixar de ser Sucá e se tornar Casa, mas já é um início. Então, uma vez inscritos no Livro da Vida e já com as condições mínimas de teto garantidas, podemos iniciar uma nova fase na vida. Que seja para o bem.

Falando em recomeços, compartilho com vocês meu comentário para a parashát Bereshit, a primeira da Torá. Deve sair publicado nas próximas horas no site da CIP e na próxima edição do folheto Congregar, distribuído antes do Shabat, na mesma sinagoga.

abraços e boa leitura


Congregar – Parashat Bereshit outubro 2009 / Tishrê 5770

O nosso mundo é um tohu vavohu, graças a Deus

Logo no início do Gênesis vemos o mundo ser criado em duas frentes: “No início Deus criou os Céus e a Terra.” Esta duplicidade se replica diversas vezes: luz e escuridão, dia e noite, águas de cima e águas de baixo, masculino e feminino. Deus parece estabelecer o mundo como um código binário.

Porém, como sabemos, as coisas não são assim tão simples. No início da Criação – como em todos os inícios e reinícios – tudo na terra estava um tohu vavohu, uma confusão só. Talvez, ao preparar o projeto do mundo, Deus tenha imaginado esta construção matemática perfeita, binária, onde há luz ou escuridão, vivo ou morto, certo ou errado, masculino ou feminino. Mas assim que se inicia o Gênesis a realidade se mostra muito mais complicada e diversa. “A teoria na prática é outra”, costumamos dizer. Há luzes que esclarecem e luzes que cegam, há noites para descansar e escuridões medonhas, águas doces e insalubres, espécies e subespécies de minerais, tipos de plantas e animais que não acabam mais. Os céus, para Platão o mundo ideal, podem bem ser o mundo dos anjos, o mundo binário do “ou isso ou aquilo”. Mas aqui na terra as leis são diferentes. O mundo é o da diversidade, do tohu vavohu, do imprevisível e do criativo.

No sexto dia da Criação, segundo a Torá houve o intuito de Deus de criar o ser humano à Sua semelhança. No entanto, para Rabi Tanchuma, quando o projeto saiu do papel, o ser humano de verdade saiu bem diferente: “Na ocasião em que o Santíssimo, bendito seja, criou o primeiro ser humano, Ele o criou como um gólem..., conforme está escrito: ‘Teus olhos me enxergaram como um gólem...’ (Salmos 139:16)” (Midrash Rabá, 8) Eu, um gólem??? Originário do folclore judaico, cuja aparência lembra a de um ser humano, mas de formas desproporcionais, o gólem não é bom nem mau, porque não tem vontade própria. Seu papel é cumprir ordens e proteger a comunidade dos inimigos. Será que foi para ser um gólem, como diz Rabi Tanchuma, que Deus nos criou?

Para Rav Nachman bar Shmuel, Deus não nos criou como robôs que só cumprem ordens, mas sim com todas as possibilidades existentes da combinação entre iétser hatov e iétser hará, a tendência para o bem de mãos dadas com a tendência para o mal. A este ser humano complexo, ao mesmo tempo bom e mau, Rav Nachman atribui a expressão bíblica “e eis que era muito bom”. Para Martin Buber, a inclinação para o mal é tão boa quanto a inclinação para o bem. Mais do que isso: a inclinação para o mal só será má se vier desacompanhada e será sempre boa quando a sua energia – o impulso para abrir um negócio, dedicar-se aos estudos, voluntariar-se na vida comunitária, investir em um relacionamento amoroso, – vier de mãos dadas com a inclinação para o bem. Por outro lado, a inclinação para o bem, solitária, ficaria levitando no “mundo dos anjos”, sem conseqüências práticas no nosso mundo terreno. “De boas intenções o inferno está cheio”, também costumamos dizer.

Que neste início tenhamos a energia gigantesca de um gólem para começar; e de mãos dadas com ela, todas as melhores intenções para o bem. Porque todo início é um tohu vavohu, mas se ligarmos a pilhas do nosso potencial aos mesmo tempo nos pólos do iétser hatov e do iétser hará, poderemos chegar ao final e dizer: “Foi muito bom.”

Uri Lam, de volta a Jerusalém

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

RIO 2016 OLIMPIADAS NO BRASIL!!!

Depois do sinal de vida de Gilad Shalit e as Olimpíadas no Rio, só posso desejar a todos um Shabat shalom, com muita paz, amor e otimismo em um futuro melhor para Gilad e sua família, para o Rio de Janeiro e todo o Brasil-il-il:-)

GILAD SHALIT: AS PRIMEIRAS IMAGENS EM 3 ANOS

TRANSCRIÇÃO:

Uri Lam (2 de outubro de 2009)

Eu sou Gilad, filho de Aviva e Noam Shalit, irmão de Hadas e Yoel que vivem em Mitspê Hila. O número da minha carteira de identidade é 300097029. Hoje é segunda-feira, 14 de setembro de 2009. Como vocês podem ver, eu tenho em minhas mãos a edição de hoje do jornal Falastin (Palestina), de 14 de setembro de 2009, publicado em Gaza. 

(Close-up do jornal de modo que a data pode ser confirmada)

Eu leio os jornais à procura de notícias sobre mim. Espero encontrar algum tipo de informação que aponte para a minha breve libertação e volta para casa. Eu tenho esperado e mantido a esperança por muito tempo pelo dia em que serei libertado.  

Espero que a gestão atual, encabeçada por Biniamin Netanyahu, não desperdice esta oportunidade para alcançar um acordo, e que como resultado eu possa finalmente realizar o meu sonho e ser libertado.

Quero enviar meus cumprimentos à minha família e lhes falar que eu os amo e sinto muita falta deles, e rezo pelo dia em que eu os verei novamente.

Pai, Yoel e Hadas, vocês se lembram do dia em que vocês vieram me visitar na minha base nas Colinas do Golan, no dia 31 de dezembro de 2005, que se eu não me engano, é conhecida como Revaiá Bet? Nós fomos dar um passeio ao redor da base e vocês tiraram fotos minhas sobre o tanque Mercavá, e sobre um dos antigos tanques situados na entrada para a base. Então nós fomos até um restaurante em um das aldeias drusas e, no caminho, tiramos fotos uns dos outros à beira da estrada com o Monte Hermon coberto de neve ao fundo.

Quero lhes falar que me sinto bem em termos de saúde, e que os Mujahidin das Brigadas Iz-al-Din-al-Qassam estão me tratando muito bem. Muito obrigado e adeus.

(Gilad se levanta, anda um pouco e volta a sentar)

A gravação foi entregue hoje, 2 de outubro de 2009, pelo Hamas, em troca de 19 prisioneiras palestinas libertadas por Israel. É o primeiro sinal de vida do soldado sequestrado em mais de 3 anos. Gilad aparece muito magro, mas aparentemente saudável, com fala firme e com condições de levantar-se e sentar-se sozinho.

Que neste Shabat rezemos pela libertação de Gilad Shalit, para que ele possa retornar para casa o mais rápido possível com saúde e em paz.

Gilad Shalit, por seu equilíbrio e resiliência, já é um heroi em Israel. Que esteja logo conosco.

Shabat shalom e Chag Sucot sameach